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Pedaços do mundo e grãos de areia

O antiquário percebeu que eu não queria os relógios. Apesar de serem todos maravilhosos, não eram raros.
"Tenho aqui um objeto analógico que talvez ache interessante", disse ele.
Abriu uma gaveta num armário afastado e regressou ao balcão com o que parecia ser um documento protegido por capa transparente. Tinha alguns centímetros de espessura e formato retangular, texto e fotografias antiquíssimas. Percebia-se que era flexível.
"O que é isso?", perguntei.
"Chamava-se jornal", respondeu o antiquário, num tom algo misterioso.
Retirou a capa e vi as páginas, que deviam ser impressas. Fiz um comentário nesse sentido.
"Tem toda a razão, era impresso em grandes máquinas e faziam milhares de exemplares de cada vez", disse o vendedor, antes de se lançar numa fascinante dissertação. Aquele era um modelo que resumia os principais acontecimentos do dia anterior e o papel estava amarelado por ser antigo. As pessoas da época recebiam as suas notícias daquelas folhas, que estavam escritas por diversos autores (na altura, chamava-se a isto jornalismo e a profissão, agora extinta, era de jornalista).
"Repare aqui nesta assinatura", disse o antiquário e apontou para uma das páginas, que manuseava com extremo cuidado. "Cada texto assinado, como é o caso deste desconhecido, envolvia um trabalho de descrição da realidade e análise da época".
Eu nunca vira um objeto parecido e ele continuou naquela linha de explicação. Os jornais em papel tinham sido muito influentes durante mais de três séculos e o tempo destruíra cada um dos numerosos exemplares fabricados pela indústria. O papel de má qualidade não aguentava muito. As pessoas compravam aquilo na rua ou recebiam em casa, o preço era acessível, os conjuntos eram escritos em edifícios dedicados, onde se discutiam os eventos locais e do mundo, cada texto correspondendo a uma interpretação dos factos mais relevantes.
"Veja a data: 1 de janeiro de 2001. Só faziam um em cada dia, raramente dois, pelo que o título, no topo, corresponde a um diário".
Debrucei-me, era como ele dizia. Coisa única. Tinha quase duzentos anos, uma verdadeira antiguidade.
"O senhor está a dizer que as pessoas daquela época tinham toda a sua informação tirada daqui?"
"Não a totalidade, mas a parte mais importante".
Achei aquela ideia extraordinária.
"E não havia algoritmos? Não havia informação personalizada? Eles precisavam de ler em papel?"
O antiquário sorriu, satisfeito por me ter convencido. Era de facto um objeto espantoso. Paguei sem hesitar o preço que ele me pedia e, nessa noite, li o jornal de fio a pavio, sem entender metade dos assuntos que ali estavam, mas deliciado com a prosa. É uma bela relíquia de um mundo que já não existe, uma das melhores peças da minha coleção de antiguidades, com a curiosidade de atravessar a fronteira entre o século XX e XXI, escrito no último dia de um milénio e vendido no primeiro dia do milénio seguinte.
imagem gerada por inteligência artificial, Night Café