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A aceleração da realidade

por Luís Naves, em 29.09.15

As últimas semanas têm sido frenéticas e não deixa de ser inquietante pensar nestas acelerações da realidade e nos seus motivos profundos. Quem controla os mecanismos da máquina dos acontecimentos? Para mais, a Europa parece ser o único destino de todas as tempestades (agora, foi a indústria automóvel) aparentemente negando as ideias apressadas, outrora na moda, de que a UE não passava de uma zona sem interesse para o mundo. A crise ucraniana demonstrou que um império pode criar um Estado falhado na sua vizinhança. A Rússia mostrou quem manda na região e, na prática, a Ucrânia tem muito poucas hipóteses de sucesso, mesmo com ajuda europeia. A crise das dívidas soberanas, por sua vez, está longe de solucionada. A moeda única não se aguenta sem uma união política que ninguém deseja. Ela exigiria mecanismos federais que, se fossem a votos, seriam terreno fértil para os populistas da esquerda e da direita.

Para alimentar essas forças bastará a terrível crise dos refugiados, cuja dimensão está a ser subestimada em Portugal, que ainda não sentiu na pele os efeitos de uma migração em massa (nem todos são refugiados, diga-se a propósito). Aqui, os comentários são geralmente sentimentais e de lágrima ao canto do olho, mas poucos entendem que isto apenas começou.

Assisti ao caos que se instalou num país de trânsito quando este tentou cumprir as regras europeias, o que lhe valeu duras críticas. Durante vários dias, a Hungria ficou parcialmente paralisada, com os transportes inutilizáveis e o comércio interrompido. Os migrantes entravam por centenas de sítios e começaram progressivamente a ser conduzidos para meia dúzia de entradas. Para evitarem o registo obrigatório previsto no Acordo de Schengen, os refugiados encenavam acções de desobediência em massa. A vedação fronteiriça, que continua a ser execrada pelos que ainda não entenderam a questão, permitiu tirar os traficantes da equação e impôs alguma ordem neste caudal humano. Imagino o que teria acontecido sem a vedação e duvido que Schengen ainda existisse. Quando estive na Hungria no Natal, passavam a fronteira diariamente “algumas centenas” de pessoas. Em Julho, já passavam mais de mil por dia. No início de Setembro, atingiu-se os quatro mil migrantes diários. No final de Setembro, são dez mil por dia.

Há uma deslocação em massa de multidões e isto envolve milhões de pessoas, talvez quatro milhões. Portugal tem uma quota de 3%: façam as contas; por cada milhão, são 30 mil refugiados.

 

Na CNN, há minutos, ouvi um vice-presidente da comissão a criticar a Hungria. O entrevistador objectou e disse que Budapeste tentou registar os refugiados, algo que mais ninguém tinha feito. Com cara de pau e um espantoso cinismo, o dito vice-presidente ripostou que os refugiados não tinham sido todos registados; depois, num tom hipócrita, este defensor dos tratados disse que a Europa não tinha sido boa a tratar desta gente, não tinha sido boa a gerir a crise, não tinha sido boa no plano humanitário, etc. O repórter olhou para ele e perguntou-lhe: se não foram bons em coisa nenhuma, então o que andaram a fazer?

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publicado às 19:13




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