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2015, fenómenos globais e reacções locais

por Luís Naves, em 28.12.15

Este ano houve na Europa uma crise de refugiados que foi também uma crise migratória em larga escala e que tem na sua raiz a guerra civil da Síria, cujos estilhaços se propagam por uma vasta área do Médio Oriente. Em 2015, a Europa recebeu mais de um milhão de migrantes e dividiu-se no acolhimento e na integração destas multidões, os dirigentes incapazes de conciliar o dilema entre a segurança de fronteiras e a emergência humanitária. Nas semanas mais difíceis do Verão passado, quando milhares de migrantes e refugiados se deslocavam diariamente entre fronteiras, criando um caos indescritível, agravou-se o sentimento de insegurança que na Europa tem alimentado a ascensão eleitoral dos partidos populistas e xenófobos.

Este fenómeno do radicalismo difere de país para país, mas parece instalar-se um padrão de descontentamento popular e de contestação aos partidos tradicionais. Os populistas de esquerda eleitos na Grécia tentaram em vão contrariar as políticas de estabilização da moeda única e pairou por algum tempo o espectro de uma ruptura na zona euro. Portugal e Espanha mergulharam na instabilidade e, na Polónia, triunfaram os conservadores eurocépticos. A aparência de unidade entre os países da UE nunca escondeu divisões tão profundas.

O descontentamento dos cidadãos europeus é alimentado também terrorismo e o preocupante fenómeno da violência radical islâmica, que tem um terreno fértil nos subúrbios pobres das grandes cidades, onde as minorias muçulmanas vivem numa bolha cultural. A fragmentação política do mundo muçulmano está por seu turno a dar origem à radicalização do Islão, com a emergência do perigoso Estado Islâmico do Iraque e do Levante, organização imprevisível, cuja erradicação parece ser difícil.

A sensação de insegurança económica foi a norma dos últimos anos, mas a crise migratória permitiu acelerar a revisão da identidade europeia, processo complexo envolvendo utopias de multiculturalismo, sentimentos de culpa pós-coloniais e uma retórica anti-nacionalista que, tendo sido importante no passado para a construção do projecto europeu, foi segundo alguns levada demasiado longe, o que provoca agora uma reacção nostálgica. Apoderando-se demagogicamente dos símbolos da pátria, os populistas estão também a lançar um forte desafio à globalização.

publicado às 13:34

Sete anos de crise

por Luís Naves, em 03.12.15

A economia brasileira está em queda livre e paira sobre o mundo o espectro de uma terceira vaga da crise financeira, desta vez iniciada num país emergente. A Turquia e a Rússia, dois outros candidatos a epicentro desse sismo, estão envolvidas num perigoso duelo em torno da guerra civil da Síria. A Europa entrou em crise há sete anos. Na primeira fase, foi vítima do quase colapso do sistema financeiro mundial. Depois, enfrentou problemas internos que quase levaram ao fim da sua moeda única. Neste momento, está em causa o espaço de livre circulação de pessoas.

Nestes sete anos, a prosperidade das elites evoluiu ao lado do descontentamento e da sensação de crescente insegurança da maioria da população. Trata-se de um terreno fértil para as ideias populistas de esquerda ou de direita, que tipicamente já atraem um terço do eleitorado em cada país. A ansiedade em relação ao futuro baseia-se na frustração que muitos europeus sentem: diluiu-se a protecção do Estado, mas não se concretizou a hipótese da abundância, pelo contrário, o europeu típico teme pelo seu emprego e receia cair na pobreza. As democracias são vulneráveis neste contexto. Num mundo multipolar e perigoso, as grandes potências tentam encostar os rivais às cordas, relutantes em cooperar contra os seus inimigos comuns: as ideologias do apocalipse e a linguagem do terror.

publicado às 10:49

A aceleração da realidade

por Luís Naves, em 29.09.15

As últimas semanas têm sido frenéticas e não deixa de ser inquietante pensar nestas acelerações da realidade e nos seus motivos profundos. Quem controla os mecanismos da máquina dos acontecimentos? Para mais, a Europa parece ser o único destino de todas as tempestades (agora, foi a indústria automóvel) aparentemente negando as ideias apressadas, outrora na moda, de que a UE não passava de uma zona sem interesse para o mundo. A crise ucraniana demonstrou que um império pode criar um Estado falhado na sua vizinhança. A Rússia mostrou quem manda na região e, na prática, a Ucrânia tem muito poucas hipóteses de sucesso, mesmo com ajuda europeia. A crise das dívidas soberanas, por sua vez, está longe de solucionada. A moeda única não se aguenta sem uma união política que ninguém deseja. Ela exigiria mecanismos federais que, se fossem a votos, seriam terreno fértil para os populistas da esquerda e da direita.

Para alimentar essas forças bastará a terrível crise dos refugiados, cuja dimensão está a ser subestimada em Portugal, que ainda não sentiu na pele os efeitos de uma migração em massa (nem todos são refugiados, diga-se a propósito). Aqui, os comentários são geralmente sentimentais e de lágrima ao canto do olho, mas poucos entendem que isto apenas começou.

Assisti ao caos que se instalou num país de trânsito quando este tentou cumprir as regras europeias, o que lhe valeu duras críticas. Durante vários dias, a Hungria ficou parcialmente paralisada, com os transportes inutilizáveis e o comércio interrompido. Os migrantes entravam por centenas de sítios e começaram progressivamente a ser conduzidos para meia dúzia de entradas. Para evitarem o registo obrigatório previsto no Acordo de Schengen, os refugiados encenavam acções de desobediência em massa. A vedação fronteiriça, que continua a ser execrada pelos que ainda não entenderam a questão, permitiu tirar os traficantes da equação e impôs alguma ordem neste caudal humano. Imagino o que teria acontecido sem a vedação e duvido que Schengen ainda existisse. Quando estive na Hungria no Natal, passavam a fronteira diariamente “algumas centenas” de pessoas. Em Julho, já passavam mais de mil por dia. No início de Setembro, atingiu-se os quatro mil migrantes diários. No final de Setembro, são dez mil por dia.

Há uma deslocação em massa de multidões e isto envolve milhões de pessoas, talvez quatro milhões. Portugal tem uma quota de 3%: façam as contas; por cada milhão, são 30 mil refugiados.

 

Na CNN, há minutos, ouvi um vice-presidente da comissão a criticar a Hungria. O entrevistador objectou e disse que Budapeste tentou registar os refugiados, algo que mais ninguém tinha feito. Com cara de pau e um espantoso cinismo, o dito vice-presidente ripostou que os refugiados não tinham sido todos registados; depois, num tom hipócrita, este defensor dos tratados disse que a Europa não tinha sido boa a tratar desta gente, não tinha sido boa a gerir a crise, não tinha sido boa no plano humanitário, etc. O repórter olhou para ele e perguntou-lhe: se não foram bons em coisa nenhuma, então o que andaram a fazer?

publicado às 19:13

Agrava-se a crise humanitária

por Luís Naves, em 19.09.15

Em poucas semanas, um fluxo diário de centenas de migrantes transformou-se numa vaga humana de milhares por dia. Os países europeus parecem incapazes de se entender sobre o cumprimento das regras que eles próprios estabeleceram, colocando-se os Estados-membros na situação de insensibilidade, se quiserem cumprir a lei, ou de irresponsabilidade, se a tentarem contornar.

Os refugiados recusam-se a aceitar o registo obrigatório previsto no Acordo de Schengen e encaram cada país que atravessam como um território de passagem a cujas leis não precisam de obedecer. Ultrapassada pelo números, desistindo de acolher e registar os refugiados ao fim de apenas 24 horas, a Croácia enviou ontem seis mil migrantes para a fronteira húngara, sem avisar o vizinho, incluindo um comboio repleto que passou um sinal vermelho e atravessou ilegalmente essa fronteira. Os croatas querem enviar mais alguns milhares nos próximos dias.

Nem o Inverno duro dos Balcãs conseguirá travar a crise humanitária. Na travessia do Mediterrâneo, a taxa de mortalidade dos refugiados é escandalosa, superior a 0,5%, mas muitos sobreviventes são roubados e espancados pelos contrabandistas. O acordo de Schengen está suspenso em meia dúzia de países. Se quer absorver um milhão de pessoas, qual a razão de a Europa não procurar directamente nos campos da Turquia, Líbano e Jordânia, onde há quatro milhões de refugiados em grande carência? É evidente que a acção na fonte, como Londres defende, é a mais sensata. O investimento em larga escala nos campos podia tirar esta migração das mãos das máfias e das redes de traficantes.

A próxima Cimeira Europeia terá, no imediato, de esclarecer algumas questões: como ajudar esta gente sem pôr em causa a livre circulação na UE? E o que se pretende na Europa, mais segurança ou mais humanidade?

publicado às 18:31

O novo mundo

por Luís Naves, em 16.05.15

O mundo do futuro pertencerá às máquinas e estaremos agora a assistir aos primeiros vislumbres de uma mudança que ameaça criar uma nova civilização e talvez uma nova humanidade. Na imprensa, lemos artigos sobre carros e comboios automáticos, aviões de guerra não tripulados, algoritmos que permitem escrever artigos, traduzir textos ou fazer complexas transacções financeiras. Segundo alguns autores, nenhuma actividade que envolva ecrãs de computador poderá escapar à ascensão das máquinas, que parece inevitável nos próximos 30 anos. As tarefas rotineiras serão executadas por robôs incansáveis, mas não é difícil imaginar com saberes sofisticados. Os transportes, a limpeza, a vigilância, as finanças e a indústria podem ser mecanizados. Dizem também que poderemos em breve retirar da equação do trabalho todo o erro humano, enfim, o nosso lado irracional e contraditório, a nossa incompetência e fadiga, a falha da memória e a distracção, a intuição errada e as imprecisões do movimento. No final, será impossível evitar a tentação de colocar um bocado de máquinas nos seres humanos, para melhorar certas características naturais, a começar pela longevidade, sempre insuficiente.

publicado às 18:55

Surpresa no Reino Unido

por Luís Naves, em 08.05.15

A vitória dos conservadores ingleses parece demonstrar mais uma vez como o centro-esquerda europeu tem crescente dificuldade em apresentar alternativas que o eleitorado considere viáveis. David Cameron terá vencido estas eleições pela sua personalidade (Ed Milliband não foi convincente), por causa dos nacionalistas escoceses, mas sobretudo por causa da economia, pois o eleitorado britânico reconheceu que há crescimento e trabalho disponível, mas ainda insuficiente para justificar riscos nesta fase de recuperação frágil. Os efeitos da crise foram profundos e muitos britânicos não sentem ainda os benefícios da retoma, mas mudar de políticas continha uma incógnita difícil de aceitar, sobretudo após os grandes sacrifícios realizados. Enfim, os ingleses não se deixaram convencer pela retórica da desgraça e pelas promessas inconsistentes. Em Portugal, onde tudo parece empatado (como parecia em Inglaterra), a discussão eleitoral dos próximos meses será provavelmente semelhante, centrada na economia e num dilema igual ao britânico: vale a pena arriscar a mudança ou é preferível manter um rumo que parece resultar?

publicado às 19:54

O fim de uma época

por Luís Naves, em 04.05.15

O liberalismo económico que entrou na moda nos anos 80 está agora a conhecer os seus dias do fim. Nos 30 anos em que foi dominante, esta versão do capitalismo ajudou a vencer a Guerra Fria, mas sendo inerentemente instável, também originou a Grande Crise do final da primeira década do século XXI. Reduzir o Estado é hoje uma ideia contestada, sobretudo na Europa, onde as clivagens políticas tradicionais entre direita e esquerda se jogam crescentemente em torno de outros temas mais culturais, como família ou imigração. A obsessão por ‘menos Estado‘ tornou-se uma receita para perder eleições, o que dará origem a novos alinhamentos de alternativas políticas. Nacionalistas e socialistas vão ambos defender poderes centralizados e fortes, com sistemas de Estado providência bem financiados. A direita dará grande importância à segurança dos cidadãos, aos campeões nacionais e à soberania; a esquerda quererá maior distribuição de riqueza e o reforço de instituições reguladoras, mas ambos vão defender a disciplina dos mercados e intervenção dos governos na economia. Os conservadores vão acentuar a obsessão soberanista e tentarão defender a ordem e os valores tradicionais da sociedade. A esquerda, que acredita na engenharia social, terá facções mais radicais a defender rupturas que permitam reconstruir a sociedade. O próximo ciclo será populista e menos liberal, terá abundante retórica anti-capitalista e exigirá a defesa intransigente do ‘pequeno cidadão‘ perante as ‘grandes corporações’. Desmantelar o Estado? Essa é uma ideia que os eleitores vão rejeitar, sem pensarem duas vezes. Os mercados liberalizados, a agitação financeira e o comércio livre são ideias em recuo.

publicado às 13:04

Toda a gente finge

por Luís Naves, em 01.05.15

No quadro mais vasto do abandono das ideologias, sempre me provocou espanto ver como alguns continuam a defender a pureza programática dos rótulos. As sociedades contemporâneas têm tal complexidade, que não há fórmulas políticas que possam responder a todos os problemas. A revolução de 1989 transformou em amálgama difusa fronteiras que estavam outrora muito bem definidas, mas nada verdadeiramente nos prepara para assistir à vergonha que alguns intelectuais mostram em aceitar o que são. Este texto do colunista espanhol do DN, Miguel Angel Belloso, é um exemplo cristalino desta esquizofrenia. Afirmando-se ‘liberal’, o autor assina um texto que só um conservador poderia escrever.

Hoje, qualquer comunista sabe que as sociedades comunistas resultaram em regimes totalitários; os socialistas já há muito tempo abandonaram o socialismo que lhes preenche os discursos; e os governos conservadores da direita tentam salvar o Estado social e dizem-se liberais, sendo criticados como neo-liberais. Toda a gente finge que é outra coisa. Na realidade, a Europa é um mosaico de experiências social-democratas. Os partidos tradicionais e as elites políticas concordam no essencial, que é manter o sistema, enquanto discordam na dose que cada política terá na respectiva aplicação prática. Os populistas de esquerda e de direita que contestam o capitalismo, a imigração e a integração europeia constituem o único desafio à ordem estabelecida. O descontentamento das populações com essa convergência das forças dominantes em direcção de certo vácuo ideológico é a maior benesse para os populistas, que ameaçam enclausurar ainda mais a discussão num enorme simulacro demagógico.

Num 1º de Maio, esta conversa leva longe: sim, toda a gente finge que defende a mudança, incluindo sindicatos, patrões, colunistas de jornal.

 

publicado às 13:28

O filme inglês

por Luís Naves, em 28.04.15

A campanha eleitoral britânica entrou nos últimos dias e os dois maiores partidos estão empatados em posições que dificilmente darão origem a uma maioria estável. Os trabalhistas são vítimas dos nacionalistas escoceses, que lhes tiram muitos lugares na Escócia, e os conservadores vão perder deputados por causa dos votos desviados pelos populistas do UKIP. David Cameron estará talvez a recuperar nesta fase final da campanha, mas as sondagens apenas referem pequenos progressos, que não chegam para uma vitória folgada. Parece que há ainda muitos indecisos, o que costuma desmentir as sondagens e, nesse caso, a eleição poderá pender para os conservadores. Uma coisa é certa: o eleitorado britânico continua descontente com as medidas de cortes orçamentais, que serviram para tirar o Reino Unido da crise, embora causando nos cidadãos um sentimento de insegurança económica. Alguns analistas escrevem que estamos perante um curioso paradoxo: a economia já começou a crescer a bom ritmo, mas o dinheiro não chega ao bolso das pessoas. Será que vamos ver o mesmo filme em Portugal, incluindo o empate e a dificuldade em formar governo?

publicado às 18:55

A banalidade democrática nem é coisa má

por Luís Naves, em 27.04.15

Sendo recente, a dívida que nos levou ao resgate e agravou de maneira dramática a nossa passagem pela crise não parece resultar do carácter do regime. Os erros políticos que a causaram têm proprietários. As responsabilidades não são difusas e não podem ser atribuídas a um sistema que, englobando toda a gente, desculpa toda a gente. O regime político que resulta do 25 de Abril é normal no quadro europeu e esse é o melhor elogio que se lhe pode fazer. Os objectivos de 74 foram cumpridos: banalidade democrática e problemas suportáveis. As clivagens parecem irrelevantes (nem a crise causou insurreições), o que explica a falta de debate político: lembro que na campanha eleitoral britânica também não há discussões por aí além e os candidatos se entregam a uma estranha obsessão com as selfies; há ainda exemplo de países menos felizes onde o debate político é sintoma de profundas divisões sociais, religiosas ou étnicas, mas não é esse o modelo que queremos.

Excerto de um post mais comprido, em Delito de Opinião

publicado às 18:37



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