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A vida continua

por Luís Naves, em 09.11.24

A política das identidades definha e, em cada eleição triunfa a visão pragmática, baseada no senso comum e nos ressentimentos de classe. As elites económicas, mediáticas e da cultura popular parecem desnorteadas. O povo virou-se contra a pobreza das suas ideias, não lhes perdoa o afastamento da realidade e as manipulações que fizeram. Apesar de tudo, o caso não parece desesperado, apenas indica que essas elites serão mudadas. Empresas tentaram vender os seus produtos misturando sermões politicamente corretos, esquecendo que os consumidores só queriam o produto. Algumas serão expulsas do mercado, outras vão adaptar-se. O descrédito em que mergulhou a comunicação social terá impacto, pois um leitor perdido não costuma regressar. Estamos a assistir à morte lenta de todo um setor, em parte suicídio, mas as pessoas vão continuar a procurar notícias. Não sei o que nascerá das cinzas dos velhos jornais, mas algo será. A cultura popular também vai adaptar-se. Os temas mudam de forma e os conglomerados do livro, do streaming ou de Hollywood terão novidades para todos os gostos, pois a fantasia não se esgota e as pessoas querem entretenimento. Enfim, a vida continua, só terá outras roupas.

publicado às 12:55

Reflexão

por Luís Naves, em 04.11.24

Já não há paciência para a comunicação social que parece viver num filme de fantasia, a ver ogres e duendes, com noticiários dignos de contos de fadas. A total ausência de espírito crítico, repetição de ideias banais e manipulação, artigos patetas com comentários do público que são mais perspicazes do que as análises dos autores supostamente peritos. Nas televisões, as opiniões envelhecem depressa e existe uma confrangedora dificuldade em aceitar os factos, cegueira que não se entende. A viabilidade da comunicação social não foi apenas vítima das mudanças tecnológicas, às quais nunca se adaptou, nem foi vítima da estupidez inepta de proprietários com visões de merceeiro que sangraram as redações. Grande parte da culpa da derrocada dos órgãos de comunicação deve-se à perda de confiança dos leitores e ao mau jornalismo. A reflexão dos profissionais devia ser obrigatória, mas não existe esperança de autocrítica. Ninguém irá reconhecer que o jornalismo militante, a obsessão do politicamente correto e a cultura do confronto corroeram os fundamentos da autoridade das instituições que tinham a responsabilidade simples de produzir notícias e interpretar a realidade de forma honesta.

publicado às 16:40

Escrever ou viver?

por Luís Naves, em 02.11.24

Numa entrevista, Orhan Pamuk tinha dificuldade em explicar o seu impulso da escrita, embrulhou-se na resposta, por um lado queria escrever mais, por outro queria viver mais. Faltava-lhe o tempo, então para quê continuar a escrever, se dentro de duzentos anos seriam lidos talvez cinco romances da nossa época? As interrogações de Pamuk fazem ainda mais sentido no meu caso, pois nem sequer tenho leitores atuais, quanto mais leitores futuros. Usar o tempo que me resta para viver a minha vida, isso sim, é lógico, em vez de me isolar como um eremita, para acumular camadas de palavras que não interessam a ninguém, muito menos à posteridade, essa abstração esfumada. Podemos argumentar que escrever é uma busca da liberdade, mas também o seria passear num jardim a gozar o sol de outono ou uma molha monumental em dia de trovoada. Então, se não é pela liberdade nem pela posteridade, qual o motivo? Abdicar daquilo que não irei fazer para escrever textos que estarão esquecidos à nascença parece ser inexplicável, mas, afinal, qual a diferença em relação a qualquer outro mortal amarrado a um trabalho por dinheiro? Este, ao menos, é tão barato que me amarra ao intangível.

publicado às 16:37

Sobre a estupidez dos povos

por Luís Naves, em 26.10.24

Primeiro muda a sociedade, só depois a política. Isto parece óbvio, devemos olhar primeiro para as transformações sociais, para o magma que arrasta as placas tectónicas e alimenta a deriva continental. Os políticos que não entendem isto estão condenados a repetir erros que lhes retiram votos e que os condenam à derrota. Os que entendem as forças mais profundas, pelo contrário, podem vencer, se conseguirem transformar esse conhecimento numa política vencedora. O Ocidente está em decadência rápida, em estagnação económica e em crise de valores, mas os políticos começaram por ignorar os protestos populares, confundindo o mal-estar do povo com a estupidez do povo. Nada disso: a estupidez foi dos banqueiros que estoiraram as poupanças da população para enriquecerem mais depressa, da ganância elitista que criou a classe de oligarcas, dos governos que se endividaram até ao osso, do dinheiro público abusado em negócios privados, da falência dos Estados, da arrogância do poder. Essa é que foi a verdadeira acumulação de estupidez.

publicado às 16:36

Promessas

por Luís Naves, em 25.10.24

Quando tinha trinta anos, o mundo parecia-me promissor. Só pensava no progresso, ia fazer coisas brilhantes, era possível construir maravilhas, era improvável que não o fizesse. Passou uma geração, houve imensas peripécias, mas tenho uma existência medíocre, o país continua medíocre, e somei insucessos, tal como muitas pessoas que conheci, espetaculares no início dos anos 90, agora amargas e aburguesadas precocemente. O que pode esperar por estes dias um jovem de trinta anos? O futuro rarefeito, desprovido de ilusões, a inevitável pergunta: será que isto se irá compor? Eu, confesso, nunca tive essa preocupação na juventude, pelo contrário, terminava a Guerra Fria, começava um novo ciclo e podia pensar na libertação de oportunidades quase inimagináveis. Nessa altura, era mesmo possível sonhar. Agora, é difícil ser otimista e acreditar em futuros risonhos. Vem isto da minha visão cansada ou é a realidade sombria da nova geração? Os jovens vão certamente viver o melhor que conseguirem, sobre isso não há dúvida, mas já têm expectativas com travo amargo e esperam o pior.

publicado às 14:41

Almas artificiais

por Luís Naves, em 20.10.24

Vai levar talvez mais de dez anos antes que o verdadeiro impacto da inteligência artificial seja visível nas sociedades. O que acontecerá no mundo do trabalho, em numerosas profissões, na coleta de impostos? A digitalização e a internet desenvolveram as suas tecnologias nos anos 80, mas só no início do século XXI começaram a destruir a minha profissão. Hoje, os jornais são relíquias e o jornalismo é um trabalho sem futuro, facilmente automatizado por máquinas inteligentes, ou seja, em breve será uma mera curiosidade de um passado extinto. Já existe um robô capaz de desenhar e pintar. É verdade. Toma decisões e a sua inteligência é criativa. Chama-se AIDA e parece saber o que faz. Robôs artistas? Sim, é uma questão de tempo. Vão colocar-nos problemas e interrogações sobre a natureza humana, poderão provavelmente captar coisas essenciais sobre as transformações na sociedade e produzir obras de arte perturbadoras. As limitações humanas acabarão por ser demasiado frustrantes, isto pode até acabar com os artistas vedetas que só dizem coisas seguras e conformistas, para não incomodarem as regras do mercado e as legiões de aduladores. O que os poderá distinguir de um robô bem-comportado?

publicado às 11:37

Os problemas da Europa

por Luís Naves, em 19.10.24

Os problemas da União Europeia devem-se em larga medida à recusa das suas elites de admitirem os erros que cometeram. O excesso de regulação afetou negativamente a competitividade, apostou-se na desindustrialização e os países do Sul nunca recuperaram da austeridade a que foram submetidos. Os Estados estão endividados, aumenta a conta com a defesa, a transição energética encareceu os custos da energia e a vaga de migrações só piorou o cenário social, ao sobrecarregar o Estado providência. Há uma causa de declínio talvez ainda mais importante: o défice democrático das instituições europeias, que continuam a tomar decisões que visam limitar a soberania dos países membros, sobretudo dos de menor dimensão. É improvável que as coisas mudem, pelo contrário. Aumentar a competitividade implicava um pacote de investimentos para o qual não há dinheiro (800 mil milhões) e os líderes pensam que o problema não é o excesso de Europa, mas a falta de Europa. Os desafios globais (alterações climáticas, digitalização e migrações) exigem uma UE mais poderosa. É isto que se irá passar, mais poderes para Bruxelas, mais hostilidade em relação aos movimentos nacionalistas, segundo os quais aumentar o défice democrático só pode ameaçar ainda mais o futuro da organização.

publicado às 11:35

O Estado dentro do Estado

por Luís Naves, em 18.10.24

Quando vencer as eleições, Trump vai tentar destruir o chamado deep state, o Estado dentro do Estado para o qual não existe uma boa definição. O que é exatamente esse fenómeno? Para alguns, é o polvo criado pelo complexo-militar-industrial que conspira nas sombras para subverter a democracia, uma espécie de coligação de interesses entre espiões, polícias, generais e banqueiros, infiltrados no Governo e nos média. Outros têm uma opinião mais aborrecida: esta é a cultura burocrática típica dos grandes governos, que controla decisões na fase de definição dos detalhes, limita a ação dos políticos e conduz a política externa. Não é conspiratória, mas quem a contestar não faz carreira nos corredores dessas burocracias, nos negócios ou na imprensa. Washington é um exemplo perfeito habitada por milhares de funcionários públicos com excelentes qualificações, ótimos salários (nove em cada dez são democratas), em geral diferentes da restante população e com visões de futuro opostas. Quando são interrogados sobre se devem levar em consideração a opinião da população americana, três em cada quatro destes burocratas acham que não devem. O Estado dentro do Estado será uma burocracia que acredita defender os interesses do país, com capacidade para protelar aquilo que lhe desagradar, para mais tendo as suas próprias ideias sobre as políticas corretas, não necessariamente coincidentes com as do poder eleito.

publicado às 11:32

Transparência

por Luís Naves, em 17.10.24

Ao ler textos antigos que nunca publiquei encontro duas questões: que proporção será legível por outros? Aproveita-se talvez um em cada cinco fragmentos. Alguns textos explicam os acontecimentos e são necessários para dar o contexto, mas no essencial não haveria interesse em publicar a larga maioria daquilo que se fabrica nesta oficina. São observações da época, pensamentos e leituras, reflexões sobre os dias, aquilo que me marcou, também as minhas opiniões. No fundo, a leitura do que escrevi suscita forte interrogação sobre o motivo de escrever. Pego no texto de George Orwell (Porque Escrevo, Ensaios): vaidade, entusiasmo estético, propósitos políticos, sou culpado de tudo isto; impulso histórico (menos, não pretendo formar opiniões), mas talvez esteja em ação o tal demónio misterioso que nos empurra para uma tarefa marcada pela futilidade. De resto, concordo com o escritor inglês em apagar a personalidade do autor, concordo com a necessidade da clareza e concisão, ("A boa prosa é como a vidraça de uma janela"), discordo da preocupação política, que compreendo. Os textos políticos envelhecem mal, isso é claro nestes fragmentos. Deve haver mais qualquer coisa à qual Orwell não se refere, talvez a sensação de liberdade que o escritor experimenta. E a questão da autenticidade, parece-me.

publicado às 11:29

Dispersos

por Luís Naves, em 16.10.24

Ando demasiado disperso, a pensar em mil assuntos, a preocupar-me com temas acessórios, sobre os quais nada posso fazer. Uma voz interior diz-me para me focar na ficção, nomeadamente nos contos, mas estas linhas diárias são uma espécie de obrigação que não consigo evitar. A minha existência não tem interesse, seria impensável usar estes textos como confessionário, por isso a crónica escapa para a atualidade, à qual não se pode fugir por estamos certamente a atravessar alguns dos anos mais interessantes das nossas vidas. É assim desde a pandemia, o que se nota neste fragmentário, pois antes de 2020 tinha observações sobre a passagem do tempo e os elementos vagos da existência, usava a memória, mas depois do Covid isso tornou-se quase impossível. Para mais, ando obcecado com a política, leio furiosamente jornais estrangeiros e vou comparando as notícias com o que se extrai de informações acessíveis: nunca se mentiu de forma tão escandalosa. O poder está desesperado, a tapar o sol com a peneira, a tentar impedir uma nova ordem mundial, que emerge das ruínas da atual e não será liberal de maneira nenhuma.

publicado às 17:58


Autores

João Villalobos e Luís Naves