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A reacção anti-elitista

por Luís Naves, em 12.03.16

Um comício de Donald Trump em Chicago foi boicotado por centenas de manifestantes e os meios de comunicação comentavam que a culpa era da retórica agressiva do candidato anti-sistema. Amanhã, há eleições regionais em três estados alemães e as sondagens indicam que está a ocorrer uma significativa alteração das intenções de voto, com a subida de um partido anti-sistema (AfD) que deve ultrapassar 20% num desses estados, embora seja acompanhado pelas palavras “xenófobo” e “antidemocrático” em todas as raras notícias a que tem direito.

Trump e o AfD têm algo em comum: são reacções populistas a um sistema partidário e mediático que perdeu a confiança de largas franjas da população. A Grande Crise (ou Grande Recessão) prejudicou milhões de pessoas, que perderam casas, empregos, poupanças, com tudo o que isto implicou na vida familiar das vítimas, na sua prosperidade ou na respectiva saúde. Muitos destes eleitores estão furiosos com os políticos, com os partidos tradicionais e com a hipocrisia dos meios de comunicação.

Os novos populistas são acima de tudo anti-elitistas. Eles dizem que as nossas elites políticas são incapazes, as elites intelectuais mentem e as elites financeiras roubam. Há elementos de verdade no que afirmam, mas também a criação de um clima de medo, de exclusão do que vem de fora, de repúdio da globalização e do aparente fracasso do modelo económico vigente, uma rejeição das migrações e dos refugiados, do comércio livre e da integração continental. As tácticas de interrupção de comícios ou hostilização mediática resultam, nestes casos, na aparente confirmação de um dos seus argumentos centrais: o campo da democracia está inclinado a favor do sistema. Este é o ponto mais preocupante. As pessoas parecem acreditar cada vez mais em teorias da conspiração e, paradoxalmente, esta crença torna mais fácil a sua manipulação, não pelos meios de comunicação tradicionais, que elas recusam, mas pelos novos meios digitais, onde fácil acesso e diversidade convivem com histeria e desordem.

publicado às 12:22

Equívocos do Brexit

por Luís Naves, em 21.02.16

O referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia promete ser um evento dramático e perigoso. Da luta pela liderança no Partido Conservador pode resultar uma crise política interna. Por isso, vamos ouvir argumentos tontos, emotivos, parciais e demagógicos, mas o maior risco é de que a campanha se transforme numa simplificação exagerada da complexa relação entre Reino Unido e União Europeia, levando o eleitorado britânico, geralmente lúcido, a dar um improvável tiro no pé.

O Brexit é uma perspectiva de pesadelo que introduz incertezas económicas para o Reino Unido e que teria um impacto devastador na economia europeia. Fora da UE, o Reino Unido teria menos comércio externo, uma moeda mais fraca, uma praça financeira mais irrelevante, e seria uma potência mundial de segunda classe. Os defensores da saída usam argumentos vagos e dizem que o Reino Unido pode permanecer no mercado único (ninguém será tão louco para dizer que isso não interessa), mas a ideia não passa de uma ilusão, pois Londres teria de aceitar a legislação comunitária sem participar na sua definição, situação bem pior do que a existente. A alternativa, não aceitar a legislação da UE, equivale a dizer que se está fora do mercado único. A Escócia aproveitava para sair do Reino Unido e Londres teria de negociar uma rede de novos tratados comerciais com dezenas de países, dos quais beneficia por pertencer à UE. As complicações legais seriam assombrosas, por exemplo, para os dois milhões de britânicos que vivem em países da União Europeia e cujos interesses não podiam ser negociados caso a caso.

publicado às 17:29

A luta pela flexibilidade

por Luís Naves, em 20.02.16

A União Europeia mudou ontem de forma fundamental. Na prática, o Reino Unido garantiu o direito de não avançar com certas políticas comunitárias sem negociar contrapartidas. O primeiro-ministro David Cameron referiu-se a um “estatuto especial” para o seu país, mas já existia no jargão europeu um termo para designar o que acabou por ser adoptado: Europa à la carte. É cedo para avaliar todos os efeitos, mas é natural que a UE se transforme gradualmente numa organização mais complexa, a várias velocidades, contendo Estados que avançam depressa na integração e outros países que preferem maiores cautelas, escolhendo as políticas que lhes convêm. Com a passagem do tempo, as periferias vão afastar-se do centro, também porque o centro tem agora a liberdade de avançar mais depressa. Para já, a Europa evitou um processo traumático de fragmentação, mas o federalismo não se aplicará a todos, o que permite lento reaparecimento das antigas rivalidades nacionais. Cameron vai lutar pelo “sim” no referendo sobre a manutenção do Reino Unido na UE. Será uma luta difícil, pode ainda ocorrer o Brexit (a saída do Reino Unido), mas isso é menos provável. No fundo, não existe agora nenhuma razão objectiva para os britânicos votarem a favor da saída, pois Cameron obteve cedências improváveis, desmentindo os que sempre o subestimaram, desmentindo também aqueles que afirmam não haver líderes europeus à altura dos problemas.

publicado às 13:24

Uma crise sem solução aparente

por Luís Naves, em 19.02.16

A União Europeia está mergulhada numa situação pantanosa, com várias frentes de crise, sobretudo a financeira e das migrações, que ameaçam estilhaçar a organização. Não dispondo de uma política comum de asilo, fronteiras e de imigração, a Europa precisa de responder a uma crise humanitária sem precedentes, não podendo abandonar à sua sorte milhões de pessoas que fogem da guerra da Síria, mas também não podendo deixar que os traficantes controlem o processo. Sem condições para acolher de uma vez quatro milhões de refugiados, os europeus precisam de encontrar um meio-termo que lhes permita reduzir a crise humanitária sem dar demasiados argumentos aos partidos populistas que estão a fazer do assunto uma bandeira. Durante dez anos tratados por Bruxelas com certa sobranceria, os países de leste (só esta designação já é todo um programa) ensaiaram uma rebelião em torno da questão migratória, chegando a ser ameaçados de que os tratados não seriam cumpridos se continuassem a recusar algo que não consta dos mesmos tratados: quotas de imigrantes. O absurdo é notável. O que consta dos tratados é a obrigatoriedade de controlar as fronteiras externas e registar todos os migrantes.

publicado às 13:26

Orçamento

por Luís Naves, em 06.02.16

Em comunicação política existe uma técnica, conhecida por spin, que consiste em dar a volta a más notícias. No fundo, trata-se de criar uma narrativa positiva em torno de factos impopulares, mas só funciona se for simples. No caso do orçamento, o spin governamental falhou clamorosamente, devido à confusão das suas três mensagens: que a austeridade acabou, a troika e os críticos internos impediram um resultado melhor e finalmente batemos o pé à Europa.

O orçamento passou em Bruxelas com cartão amarelo e avisos de futura vigilância, mas esse facto foi desvalorizado em notícias que viam cedências profundas das instituições comunitárias. Isso não impediu discursos contraditórios de dirigentes de segunda linha, que atribuíram à comissão a defesa da ideologia neo-liberal, entre outros horrores. As cedências europeias não se vislumbram, mas as histórias dominantes passaram a dizer que Bruxelas nos impôs rigor orçamental contra os nossos interesses, desmentindo dessa forma a anterior ideia forte, segundo a qual a austeridade ia acabar. Um governo criado para bater o pé à Europa e mostrar um caminho diferente está a fazer mais do mesmo e foi forçado a aumentar impostos para financiar algumas benesses à sua base de apoio.

Parte da frente de esquerda parece apostada em criar um conflito com as instituições europeias, outra parte não tem de todo essa intenção. Neste poder, convivem continuidade e ruptura, há flexibilidade e rigidez, mas acima de tudo contradições entre mensagens pró-europeias e a retórica ilusória e radical de não se dobrar a espinha nem um único milímetro.

publicado às 12:31

Sinais da realidade

por Luís Naves, em 01.02.16

O governo de António Costa terá de escolher entre duas opções incompatíveis: o país cai em crise política ou as taxas de juro sobem. Aliás, as duas coisas podem andar juntas e são já visíveis, pois temos instabilidade e aumento dos custos de financiamento.

A questão não está apenas nas exigências dos credores europeus, que temem os efeitos da súbita perda de credibilidade, mas na percepção dos investidores e na ilusão de que será possível convencer a Europa de que esta é uma luta entre bem e mal. O contexto externo está a ser ignorados. O problema das migrações transformou-se na crise mais séria da última década na Europa. Um grupo de países de Leste (com os votos da França) uniu-se contra os poderes da Alemanha na questão migratória. A banca pode necessitar de um resgate gigantesco. A UE entrou numa difícil negociação sobre reformas internas, visando manter o Reino Unido nas instituições. Sem mudanças profundas, algumas difíceis de concretizar, os ingleses poderão abandonar o grupo. Estas negociações decorrem num ambiente inquinado pela ascensão das formações populistas na França, Alemanha, Dinamarca, Suécia, Finlândia e Holanda. Todos estes países receberam multidões de refugiados, pelo que parece pura hipocrisia o tom dos que, longe dos efeitos, criticam as barreiras dos outros. Entretanto, os problemas da zona euro não estão resolvidos e a Espanha entrou num impasse que talvez só tenha solução em Maio.

publicado às 12:06

A palavra povo na ponta da língua

por Luís Naves, em 30.01.16

Nos jornais, televisões e redes sociais, a fragilidade do governo minoritário e o choque com a Comissão Europeia em torno do orçamento estão a ser desvalorizados por argumentos que tentam iludir o essencial. É como se nunca tivesse ocorrido a pré-bancarrota de 2011, o resgate financeiro e o período de ajustamento de três anos. É como se Portugal não fosse um país sobreendividado. A palavra austeridade é usada com extrema demagogia por uma franja minoritária. Ela tornou-se sinónimo de políticas irracionais, que nunca foram necessárias e nunca passaram de capricho ideológico de alguns lunáticos ultra-liberais. Grande parte da comunicação social aderiu a esta ideia fantasiosa de que tudo mudou subitamente para melhor, por um qualquer golpe de magia, só por existir a frente popular que "acabou com a austeridade". O contexto europeu é subestimado pelo poder frágil de um governo que depende do apoio parlamentar de partidos que insistem na retórica da resistência e numa narrativa neo-realista do bem contra o mal. O país publicado ignora olimpicamente o voto dos portugueses, embora tenha sempre na ponta da língua a palavra povo. Desta forma, o populismo da esquerda não poderá resolver nenhum problema.

publicado às 12:56

Expulsões

por Luís Naves, em 29.01.16

Na crise migratória europeia não há apenas refugiados. Alguns comentadores resistiram ao uso da palavra ‘migrantes’, dizendo que tinha carga ideológica. São refugiados, dizia-se, por isso deve ser usada apenas essa palavra. Ontem, a Suécia anunciou que poderá expulsar 60 mil a 80 mil migrantes, e algumas notícias mostram que o fenómeno não foi compreendido entre nós, escrevendo-se que estão a ser expulsos refugiados, algo que seria crime e não corresponde à realidade. A Suécia não deixou de cumprir as leis internacionais e expulsa pessoas que não têm direito a asilo, com origem em países que não estão em guerra.

A opinião pública portuguesa foi submetida a uma versão da história que torna difícil assimilar alguns dos problemas criados pela crise migratória. Há questões de segurança, choques culturais que ameaçam alterar a própria identidade europeia, estão a surgir também graves divisões sociais e políticas nos países mais generosos. O número elevado de migrantes e refugiados provocou reacções de descontentamento em países como Alemanha, Dinamarca ou Suécia, o que beneficia partidos populistas que exigem limites.

Em 2015, a Europa recebeu mais de 1 milhão de pessoas, que têm de ser alojadas, alimentadas e integradas na sociedade, mas em Portugal continuam a dominar as teses politicamente correctas, sobretudo a ideia simplista de que a Europa está a falhar por falta de generosidade, quando ocorre o caso inverso. É evidente que a Suécia não pode receber em cada ano 150 mil pessoas (1,5% da sua população) e a rejeição dos migrantes económicos era uma questão de tempo, pois nem sequer há mais casas disponíveis. Segundo números oficiais, só no terceiro trimestre do ano passado, a Suécia recebeu 42 mil pedidos de asilo, ou 4360 por milhão de habitantes; no mesmo trimestre, Portugal recebeu 220 pedidos, 22 por milhão de habitantes.  

publicado às 13:00

A vitória de Marcelo

por Luís Naves, em 25.01.16

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A vitória de Marcelo Rebelo de Sousa nas eleições presidenciais de ontem repõe o equilíbrio num sistema político que se afastou das preocupações dos cidadãos. Se Marcelo fosse eleito pela Assembleia da República, teria já sido derrotado por Sampaio da Nóvoa ou iria perder na segunda volta; se fosse eleito pela comunicação social, teria sofrido uma copiosa derrota; se fosse eleito nas redes sociais, ficava em terceiro lugar, atrás de Nóvoa e de Marisa Matias. Há um crescente fosso entre o país real e o país publicado.

A eleição de Marcelo é a terceira derrota consecutiva do primeiro-ministro António Costa, cuja estratégia é evidentemente a errada, dispondo de um apoio popular que pouco ultrapassa um terço do eleitorado (basta olhar para os números de ontem). É possível argumentar que, pela segunda vez consecutiva, o povo português votou a favor da estabilidade, do equilíbrio e do entendimento entre os partidos que tradicionalmente ocupam o centro; ou seja, votou a favor de um hipotético Bloco Central, que é a solução política evidente para a actual situação do país.

 

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A estratégia do PS já falhou, a do Partido Comunista parece suicidária. Tal como aconteceu na Grécia ou em Espanha, o eleitorado comunista tende a aderir a uma alternativa mais urbana, no nosso caso ao Bloco de Esquerda, que tem um novo estilo, que explora novos temas e é socialmente um partido menos conservador do que o PCP. Os velhinhos da reforma agrária estão a desaparecer, como estão a desaparecer os operários, surgindo uma geração com problemas diferentes, que não são propriamente os da miséria, mas os da pobreza relativa.

Esta mudança subtil criou em Espanha o fenómeno do Podemos, que engoliu os votos comunistas e agora ameaça os próprios socialistas. O Bloco teve dois bons resultados consecutivos, mas mesmo assim não passa muito dos 10%, valor com a sua fragilidade. Falta imenso para chegar ao patamar do Podemos. O eleitorado radical em Espanha atinge quase um terço do total, incluindo secessionistas: aqui, é de um sexto.

Muitos comentadores diziam que em Portugal o centro desapareceu. Marcelo provou que não tinham razão. O país não se divide entre direita e esquerda, como sugeria a crispação dos últimos meses; o país real continua a dividir-se politicamente entre um terço na direita, um pouco mais de um terço à esquerda e quase um terço ao centro. O eleitorado é prudente e gosta da serenidade. Ganhou assim o candidato que melhor entendeu o país.

publicado às 12:01

Uma eleição pouco vistosa

por Luís Naves, em 18.01.16

Na campanha das presidenciais, a esquerda aposta num candidato republicano (da primeira república), que só diz banalidades, e numa candidata da facção minoritária do partido minoritário no poder que gasta o precioso tempo a dizer que tem apoio esmagador desse partido. Há ainda dois dirigentes que lutam por conseguir metade da proporção de votos que as respectivas formações tiveram nas legislativas, além de diversos projectos equivocados nos poderes que estarão à disposição do vencedor. A campanha é monotemática e os discursos que não sejam sobre bolos abordam sempre o mesmo assunto: a personalidade e percurso, as qualidades e defeitos de um dos candidatos, Marcelo Rebelo de Sousa, que surge em todas as sondagens eleito à primeira volta, e em todas as sondagens esmagador numa eventual segunda volta.

Com este favoritismo, Marcelo não se livra de críticas, por não comentar assuntos da governação ou da vida dos partidos, por não solicitar explicitamente o apoio dos partidos da direita, por não organizar comícios, por criticar a falta de substância dos adversários, por gastar pouco dinheiro e ainda pela sua popularidade na rua.

Ninguém parece disposto a discutir as raízes da crise que nos atingiu e as limitações do contexto europeu. Ao ver o triste espectáculo desta campanha, só se pode concluir que uma parte do país vive num mundo de fantasia que é só seu, onde os debates não possuem um pingo de lógica. É o país da conversa, que lentamente vai navegando para fora da realidade. É o país das indignações e das grandes tiradas líricas. É o país onde o comentário livre é a arte de dizer algo absurdo sem qualquer tipo de responsabilidade. Lembra em larga escala o que vi recentemente numa televisão: após a vitória de um clube de futebol por seis a zero, alguém comentava que essa equipa tinha ganho, sim, mas “com um futebol pouco vistoso”.

publicado às 12:17



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