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Incompreensão

por Luís Naves, em 02.06.16

Em Portugal, o jornalismo continua a não compreender que Polónia e Hungria são governadas por conservadores que já antes estiveram no poder. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán (lidera o Fidesz) não tem nada a ver com a extrema-direita, representada por um partido chamado Jobbik, que está na oposição e que Orbán mantém fora do alcance de qualquer influência. Felizes por não compreenderem isto, os meios de comunicação portugueses estão agora a alimentar um curioso mito paralelo sobre a Polónia, fazendo a amálgama entre os conservadores-católicos do partido no poder (que já governou em meados da década de 2000) e a extrema-direita europeia. A Polónia e a Hungria contestam ruidosamente as quotas obrigatórias de refugiados, mas invocam a lei (a regra não existe nos Tratados europeus). Os dois países são apoiados pela Eslováquia e República Checa, cujos governos de esquerda nunca foram diabolizados entre nós, embora sejam semelhantes aos seus vizinhos. O partido no poder na Hungria é pró-europeu e integra a família de partidos democrata-cristãos do PPE, os polacos são eurocépticos e, no parlamento europeu, estão ao lado dos conservadores  britânicos. Estes governos podem ser definidos como nacionalistas, conservadores, próximos da Igreja, demagógicos, populistas, iliberais, como quiserem, mas nunca como extrema-direita. 

publicado às 11:14

Isto vai correr mal (2)

por Luís Naves, em 15.05.16

Isto vai correr mal, só não sabemos exactamente quando. O PS formou um governo minoritário que tem de fazer reformas difíceis e tomar decisões inevitáveis, mais apropriadas a um bloco central. António Costa deseja eleições, para formar um Executivo estável com o PSD, que possa ser ele a liderar, aposta que prejudica os partidos da esquerda que o apoiam. Aliás, no futuro (e tal como aconteceu em Espanha com Podemos e IU), comunistas e bloquistas terão de se entender. Enfim, não há acordo que resista à contradição dos interesses do PS e dos outros dois partidos, mas sobretudo não há acordo que resista à necessidade de cortes na despesa pública. Basta ler os comentários revolucionários que se multiplicam nas redes sociais para perceber como tudo isto criou uma crispação lírica na sociedade portuguesa, que lembra (em escala menor) a radicalização do PREC. As sondagens, neste caso, são inúteis, pois referem-se a um cenário que não existirá em eleições: as intenções de voto mudam, após a queda do Governo e os seus motivos.

publicado às 11:17

Isto vai correr mal (1)

por Luís Naves, em 14.05.16

Os números começam a ser alarmantes e não vão melhorar, pois a balança externa piorou, as exportações estão em queda e o investimento diminuiu, O crescimento do primeiro trimestre foi inferior ao esperado, apenas 0,8%, o que indica abrandamento. É só um trimestre, mas o conjunto mostra uma tendência preocupante. Perderam-se 48 mil empregos em três meses, mais de 500 por dia, e se o indicador subiu em termos homólogos, os números sugerem um severo efeito social, pois estão a ser destruídos empregos de trabalhadores por conta própria e pouco qualificados, que terão dificuldade em regressar ao mercado laboral.

Portugal parece um sonâmbulo que se junta a outra hipnotizado, a Grécia, e as taxas de juro mostram que está por um fio a frágil credibilidade que levou anos a construir. Preso a compromissos que não pode cumprir sem entrar em conflito com os credores europeus, o Governo aumenta a despesa pública e tenta cobrir essas verbas com aumentos de impostos. A almofada que herdou já se esvaiu e o debate político continua a ignorar os problemas na base desta crise, que dura desde 2009. Os credores vão exigir cortes na despesa e, nesse contexto, o acordo entre partidos de esquerda não tem viabilidade. A crise rebentará provavelmente na altura em que for discutido o próximo orçamento, quando o País não pode ir para eleições, pois ficaria paralisado durante meses. E como é que será aprovado um orçamento com cortes na despesa impostos pelo Eurogrupo?

publicado às 11:14

Aumenta a incerteza

por Luís Naves, em 07.05.16

As sondagens indicam que o eleitorado britânico está profundamente dividido sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, pelo que o resultado do referendo de 23 de Junho é uma perfeita incógnita. Os defensores da saída tentam resistir à ideia central da campanha a favor da permanência, dizendo que não haverá nenhuma calamidade económica se o eleitorado escolher sair. Para já, parecem ter conseguido inverter a tendência que se verificava a favor do ‘sim’, que chegou a ter uma dezena de pontos percentuais de vantagem: agora, as sondagens apontam para um empate entre as duas forças ou mesmo a ligeira vantagem do ‘não’.

O Reino Unido terá provavelmente muito a perder com o Brexit: influência internacional, acesso ao mercado único, negócios na praça financeira e na própria unidade britânica, pois o ‘não’ estimulará os defensores da separação escocesa. As vantagens são pouco claras, mas os defensores do Brexit contestam os poderes não eleitos da burocracia comunitária. No fundo, dizem em volta alta aquilo que em outros países se começa a murmurar: o projecto comunitário está a entrar em domínios de soberania nacional onde era suposto não entrar. As excepções negociadas por Londres não parecem suficientes para os políticos que se opõem à UE, embora muitos tenham a ilusão de que poderão, depois do Brexit, negociar um entendimento que lhes permita manter o filet mignon do acesso ao mercado único sem nenhum dos ossos associados, nomeadamente a complexa harmonização legislativa comunitária.

publicado às 19:22

Só o começo

por Luís Naves, em 06.05.16

Este mês e o próximo serão de alta ansiedade. Às incertezas do Brexit junta-se uma nova fase da crise na Grécia, que estará de novo no limiar da saída da zona euro. As dificuldades gregas, onde o Governo do Syriza caminha sobre o fio da navalha (tem uma frágil maioria parlamentar de três deputados), mostram que a crise financeira ficou por resolver. A própria União Europeia enfrenta uma crise existencial, consequência dos incompreensíveis erros que Berlim cometeu na crise dos refugiados. Era evidente que a Europa não podia receber 1,5 milhões de pessoas em poucos meses e que não poderá receber outro tanto este ano. Os países vão ser obrigados a fechar as fronteiras ou, se o não fizerem, terão de receber uma quantidade de migrantes impossível de gerir. A Alemanha apostou numa política moralista que visava expiar pecados do passado e criou uma fractura europeia que promete ser difícil de reparar. Em cada país afectado, engrossam as forças demagógicas, populistas ou extremistas. Isto é só o começo.

publicado às 19:27

A continuar esta cegueira (2)i

por Luís Naves, em 05.05.16

Na Europa contemporânea há nacionalismos bons (o inglês ou francês), e nacionalismos maus (o polaco, por exemplo). Há votações que a Imprensa aceita como naturais e votações que a Imprensa não aceita. Os trabalhistas foram derrotados nas eleições regionais (são o terceiro partido escocês), mas a eleição do presidente da câmara de Londres foi o único ângulo das notícias (apesar de não ser o primeiro muçulmano a governar uma cidade europeia importante). Enfim, os países já não são todos iguais e a democracia tem resultados e resultados. Isto foi ensaiado na crise financeira, sobretudo na Grécia ou em Portugal, onde as consequências políticas das medidas de austeridade nunca foram um dado do problema. Nesta fase mais avançada do processo de dissolução, as consequências dos erros da chanceler Angela Merkel estão a ser transformadas em narrativas de declínio democrático. Se um país escolhe um governo com ideias 'erradas' do ponto de vista de Berlim, demonize-se esse governo, na esperança de que a votação possa ser repetida até vencer o 'bem' e o 'lado certo da História'.

Se continuar esta cegueira, o conflito entre as democracias boas e as democracias más só pode ter um resultado: a Europa do actual modelo será defunta e nascerá uma coisa nova, mais alemã e disciplinada. Isto é como no futebol: são tão bons, tão bons, que precisam de uma bola só para eles.

publicado às 19:44

A continuar esta cegueira (1)

por Luís Naves, em 04.05.16

A recusa do Grupo de Visegrad de aceitar quotas obrigatórias de refugiados (não previstas nos tratados) está a originar o argumento de que estes países não devem receber fundos comunitários (previstos nos tratados como compensação às economias mais pobres pela abertura dos seus mercados). O Partido da Lei e Justiça ganhou as legislativas polacas em Outubro, mas a decisão soberana de não receber refugiados é vista como algo que deve ser reprimido. As sondagens mostram que houve uma inversão em Setembro e Outubro, semanas antes da eleição: a Plataforma Cívica perdeu por causa da decisão do governo anterior de se abster na votação sobre as quotas obrigatórias, quebrando o entendimento que fizera com os restantes membros de Visegrad. Outro exemplo: a Áustria terá a segunda volta das presidenciais dentro de duas semanas e o candidato da extrema-direita pode ser eleito. O governo de Bloco Central não consegue apoiar um candidato, com o partido conservador a hesitar. Viena fechou as fronteiras e as notícias sobre a Áustria mostram já uma espécie de autocracia embrionária. O facto é que este país de 8 milhões de habitantes já recebeu 90 mil refugiados, só na recente vaga, proporção superior a 1% da população (seria o mesmo que Portugal receber 120 mil).

publicado às 19:40

Pesada factura

por Luís Naves, em 25.04.16

Tendo em conta o resultado da primeira volta das presidenciais austríacas, a crise dos refugiados promete fazer muitas vítimas na política europeia. O vencedor da votação foi Norbert Hofer, com 36%, candidato apoiado pelo maior partido de extrema-direita (FPO) e que cavalgou o descontentamento popular com as hesitações governamentais na questão migratória. O seu adversário na segunda volta será um independente apoiado pelos Verdes, Alexander van der Bellen, que conseguiu 20%. A grande coligação de governo, semelhante à alemã (social-democratas e democratas-cristãos), foi humilhada: juntos, os candidatos do SPO e OVP somaram uns meros 22%.

Um sismo político já tinha atingido a Eslováquia a 5 de Março. A campanha das legislativas foi dominada pela questão dos refugiados, mas apesar de ser contra quotas europeias, o primeiro-ministro Robert Fico esteve perto de ser derrubado, por não ter uma posição suficientemente radical contra Bruxelas. O maior partido de centro-esquerda perdeu 18 pontos percentuais e foi forçado a organizar uma coligação instável. Uma formação tóxica de extrema-direita conseguiu 8%. Somado este voto aos ultra-nacionalistas e populistas, o eleitorado eurocéptico já representa quase um quarto do total e um dos três partidos anti-europeus entrou no executivo.

A irritação popular é evidente na Europa Central. Muitos eleitores pensam que não foram respeitadas as suas opiniões na crise dos refugiados, como não têm sido respeitadas as suas opiniões em relação aos efeitos negativos da globalização. Os populistas estão a avançar em cada nova sondagem ou eleição e assistimos ao aparecimento de figuras radicais. Infelizmente, em Portugal continua a pensar-se que estes países já não são democracias, basta ler as lamentáveis fantasias que se escrevem sobre Hungria ou Polónia, numa discussão que usa apenas argumentos de moralidade, que é a melhor maneira de encerrar qualquer debate logo de início.

A Europa Central sentiu a crise de refugiados como nós não sentimos. Os eleitores austríacos concordaram com a tese de que a entrada súbita de dezenas de milhares de migrantes será uma catástrofe para a sua sociedade, pois não há maneira de integrar tanta gente, “meio mundo” na propaganda de Hofer. As elites ignoraram os avisos, quiseram pôr-se do “lado certo da história” e, perante uma realidade em descontrolo, fizeram emendas piores que o soneto. Agora, chega a factura política e continuaremos a ler belas análises sobre como ignorar o óbvio “erro” dos eleitores.

publicado às 10:50

A queda

por Luís Naves, em 18.04.16

Depois da estrondosa derrota na câmara dos deputados, Dilma Rousseff terá escassas hipóteses de impedir o processo de destituição; mesmo que consiga manter-se no poder, a presidente brasileira não tem condições para governar até ao fim do mandato. Estranho ‘golpe’: três em cada quatro deputados votaram a favor do derrube da presidente. A coligação que apoiava Dilma está desfeita e o descontentamento popular não permitiria mais dois anos e meio de pântano. O Brasil precisa de mudança, como disseram muitos dos deputados que votaram pela destituição na caótica, democrática e por vezes divertida sessão de voto de ontem (hoje de madrugada), que lembrava um jogo de futebol a terminar em penaltis.

Na imprensa brasileira escreve-se que Dilma e o PT cometeram erros tremendos, sobretudo ao longo do último ano e na campanha do segundo mandato (com vitória por pequena margem); a presidente hostilizou dirigentes dos partidos que a apoiavam, foi arrogante e queimou pontes, mas acima de tudo cometeu erros que acentuaram a recessão: o Brasil deverá perder 8% a 10% do PIB, o desemprego aumenta depressa, espera-se a recuperação apenas em 2018. Em Portugal, vemos notícias muito editadas, onde os apoiantes de Dilma parecem sempre melhor do que “as tias” que querem a destituição. Trata-se de uma fantasia, claro. O descontentamento popular é evidente, como foi óbvia a influência das manifestações de rua na escolha de muitos deputados. Se o avanço do processo fosse contra o desejo do povo, não tinha acontecido.

O PT está metido até ao pescoço num escândalo de corrupção sem precedentes e tentou obstruir a investigação judicial. Este partido também tentou criar um regime clientelar que se notou nas divisões da votação por estados: nos partidos divididos, os deputados das regiões ricas votavam contra Dilma e os das regiões pobres a favor. O país está partido entre Norte e Sul. Na câmara, notavam-se as classes sociais, a questão racial, o voto evangélico contra Dilma, as fracturas partidárias, o caciquismo e o desespero dos deputados do PT. A crispação política parece ter ultrapassado um nível perigoso e as elites brasileiras não parecem à altura da crise. O sistema presidencial dificulta a válvula de escape de eleições antecipadas, o sistema eleitoral permite eleger deputados (geralmente chefes políticos locais) por algumas centenas de votos, o vice-presidente Michel Temer é também impopular, acusado de golpista pelos derrotados, os problemas económicos exigem medidas urgentes, mas o Brasil é demasiado grande para falhar.

publicado às 18:32

Andar na linha

por Luís Naves, em 15.04.16

Os defensores de António Costa têm cada vez mais dificuldade em explicar o que está ele a fazer de diferente. Os partidos de esquerda ensaiam críticas em público, apoiam por enquanto com paciência, mas terão cada vez mais problemas quando explicarem aos seus militantes o que distingue Costa de Passos. Começa a ser intrigante por que razão não houve bloco central, como sugeria o resultado das eleições de Outubro.

O governo minoritário do PS começou por prometer anular as reformas da coligação de direita e ensaiou um conflito com Bruxelas, mas a imediata subida das taxas de juro acabou com essas veleidades socialistas. Em todos os assuntos irrelevantes há uma ruidosa e triunfal maioria de esquerda, que também parece existir na distribuição de lugares, mas quando as contas se complicarem, será o bloco central a executar as políticas impopulares exigidas pelos credores. Nos momentos difíceis, os nossos governantes são actores secundários e a soma de partidos não é linear.

Quando for necessário, haverá maioria no parlamento, estabilidade para evitar o segundo resgate ou para salvar a banca, mas não será provavelmente a maioria de esquerda. A política de hoje é um vago teatro sem ideologia, é andar na linha. A taxa de crescimento prometida era fantasiosa, a conjuntura externa está a piorar, as previsões económicas são cada vez mais sombrias. Não haverá falta de explicações para as medidas de austeridade, independentemente do nome que a propaganda lhes puser: azar do costume, medidas de estabilização, plano genial de salvamento dos aflitos.

publicado às 18:45



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