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Não me peçam para vos levar a sério (2)

por Luís Naves, em 04.09.13

Não podemos evitar a austeridade, mas podemos evitar uma política de austeridade. Este, no fundo, é o espantoso pensamento do maior partido da oposição, como se austeridade não fosse uma política, mas uma incómoda enxaqueca.
Ao mesmo tempo, dois ministros fazem estardalhaço a “negociar” com os altos escalões da troika e logo surgem elogios dos comentadores, que nos escondem o facto simples da equação não ter mudado um milímetro: se Portugal cumprir o défice, terá recessão mais funda; se não cumprir, a sua dívida ultrapassará os níveis já considerados excessivos. Ninguém se interroga onde estará o equilíbrio que permite o regresso mais tranquilo aos mercados. Para mais, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque não se encontram com a pessoa que tem a última palavra, a chanceler alemã, Angela Merkel, de cuja reeleição (e coligação) depende haver maior ou menor abertura aos pedidos portugueses.


O País contenta-se bem com estas omissões. Existe uma espécie de autismo geral em relação aos problemas nacionais ou ao contexto europeu. As reformas já não são para fazer, pelo menos na totalidade, sendo conveniente que a mudança deixe na mesma o maior número possível de interesses instalados e com acesso fácil aos media. A comunicação social, essa, ouve diariamente os mesmos sindicatos e todos os dias aparecem certas pessoas na TV: o presidente dos bombeiros, o líder da CGTP ou o representante dos professores, entre outros.

 

publicado às 13:08

Não me peçam para vos levar a sério (1)

por Luís Naves, em 03.09.13

Não consigo compreender textos como este de Daniel Oliveira, em Arrastão. Ou antes, percebo que em tempo de eleições autárquicas, onde o BE não risca, este partido queira desviar a atenção de problemas mais essenciais, daí a iniciativa de discutir o piropo.
O que não entendo é a defesa que Daniel Oliveira faz. Para mais, o autor critica a noção da discussão política se centrar apenas em assuntos prioritários. Seria tudo monotemático, diz. Julgo que devia tentar explicar isto no centro de emprego que frequento. Um seminariozinho sobre o piropo ia bem ou uma acção de formação aos utentes, ‘como não usar expressões sexistas boçais’, para variar da monotonia de procurar trabalho ou de tentar resolver as dificuldades criadas por papéis que insistem em bater na trave.
Enfim, o País parece que ainda não saiu da sesta das férias e anda meio atordoado. A miséria alastra e as cidades apodrecem. As empresas sufocam e a justiça tarda. Os ricos prosperam e os restantes esperam. Discuta-se o piropo.

 

Estou como os ateus quando falam sobre o Vaticano, mas apesar de não ser eleitor do bloco, sempre imaginei que este partido se devia preocupar, por exemplo, com os desempregados. Não na perspectiva dos coitadinhos (deixem isso para o Governo), mas de forma a evitar a banalidade e a ideia vaga de que há algo errado com estas pessoas que não contribuem para o bem comum, certamente por culpa própria. A comunicação social não se cansa de explicar que os desempregados são tipos que metem fogos e batem nas suas mulheres e criancinhas, pois andam muito deprimidos. Vivem no desespero e é como se tivessem cancro, olha-se para eles com comiseração e não se fazem perguntas sobre o futuro, pois não têm futuro. Até perdem o nome quando são entrevistados, passando a ser apenas o senhor Manuel ou o senhor Joaquim.
Os partidos, sobretudo na oposição, têm a responsabilidade de combater o estigma e devem discutir as soluções para problemas económicos e sociais que envolvem tanta gente, mas o texto de Daniel Oliveira ilustra bem como os políticos, comentadores e jornalistas se instalaram alegremente na bolha autista e na chamada língua de pau.

Se não se levam a sério, não me peçam para vos levar a sério.

publicado às 13:07



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