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Pedaços do mundo e grãos de areia

Ronny Arlen passou em frente ao pub Old Gentleman e pensou em entrar para beber algo que lhe aquecesse a alma. Ainda abrandou o passo, hesitou, depois decidiu continuar. Na altura, estive quase para intervir, não faças isso, entra e senta-te, pede qualquer coisa, o dia foi cansativo e está escuro, com o nevoeiro e a humidade de Londres e as ruas mal iluminadas deste bairro proletário, sabe-se lá o que pode estar na próxima esquina. Mas não entrei na cabeça dele, não lhe disse nada, e isso torna-me de alguma maneira um bocadinho culpado. Dentro do pub só cinco velhotes, ouvia-se o som de vozes e até de risos. Jeff Malone estava no bar a servir, ele é o proprietário, foi boxeur, consegue derrubar um tipo com o punho esquerdo, mas raramente precisa, já que a malta do bairro respeita aquela sua antiga profissão. Ao desistir de entrar, Ronny pensou em chegar a casa e colocar as pantufas, ver um programa na televisão ou acabar de ler o livrinho que tinha começado na véspera, romance policial de um tal qualquer-coisa Dunton. A visão do pub iluminado na rua escura era tentadora. Entrar, não entrar, tantas vezes temos de escolher um caminho, o que decidimos pode alterar tudo o resto, e eu estive quase para me meter dentro da cabeça dele e dizer-lhe com toda a força, é isso, o que decides pode alterar muita coisa e vai certamente mudar tudo para ti, mas não gosto de interferir nos assuntos dos humanos, faço isso poucas vezes, ainda na sexta-feira impedi a senhora Margaret de pôr a roupa a secar ao sol, pois ia chover daí a bocado, mas naquele caso do Ronny fiquei quieto. Enfim, o homem seguiu o seu caminho e nem andou cem metros, foi apanhado pelos dois irmãos Scott, que estavam ao frio a ver se aparecia alguém que pudessem roubar. Estavam quase a desistir. Encapuzados, claro, mas sei que eram os irmãos Scott. O assalto foi rápido, Ronny ficou sem o dinheiro e um pouco maltratado, voltou a correr para o pub e entrou aos gritos, o senhor Malone ainda foi atrás dos arruaceiros, mas já não viu ninguém, depois exclamou que as ruas andavam inseguras e deu a Ronny uma pint de cerveja morna, e eu esvoacei dali, com a minha consciência de fantasma um bocado pesada, pois podia ter entrado na cabeça dele para o avisar, mas não fiz nada, e depois fui para a zona do Tamisa, a pensar na noite fria e em outras coisas.
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Os cabeças-de-alho-chocho começaram a ser massacrados e já ninguém se lembrava bem do motivo. Antigamente, fazíamos uns ataques esporádicos e toda a gente achou na altura que essas violências ocasionais se justificavam, pois eles são até bastante feios. Depois, a coisa ficou mais séria, sobretudo quando começaram a retaliar. Cada ataque nosso dava origem a uma resposta deles, e assim sucessivamente, a ponto de já não sabermos quem nascera primeiro, o ovo ou a galinha. Tínhamos de arrasar bairros e prender famílias inteiras. Os cabeçudos foram perdendo as suas terras, que passámos a administrar. Ficaram então confinados num território mais pequeno: só podiam trabalhar nas nossas fábricas (com salários baixos e longas horas) e chegámos a proibir a sua alegria, que nos parecia suspeita. Tudo neles nos parecia suspeito. Para mais, o cheiro a alho era desagradável e ficou ainda mais intenso para os nossos narizes cada vez mais sensíveis. Cada retaliação deles era considerada inaceitável e dava origem a uma vasta vingança da nossa parte. As coisas correram mais ou menos assim durante algum tempo e nós ganhávamos quase sempre. Tornou-se óbvio para todo o mundo que o nosso lado era mais justo e mais civilizado, que este era um caso de beleza contra horror, de puros contra impuros, de avançados contra atrasados, de inteligentes contra estúpidos. Não podíamos viver no meio dos cabeças-de-alho-chocho, por isso tivemos de nos separar. Ficámos com 90 por cento do espaço, eles com dez por cento, mas não se importavam de ficar apertadinhos. A pouco e pouco foram sendo tratados como terroristas. A pouco e pouco, tornaram-se terroristas. Depois de um grande ataque que sofremos às suas mãos, nós, os cabeças-de-avelã, decidimos arrasar a terra dos alhos-chochos. Os comentadores na TV disseram que a destruição era necessária para garantir a nossa segurança. Aliás, não foi tão mau como se poderia imaginar: quando a cabeça de um alho explode, nem sequer deita sangue.
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O inverno surpreendeu os soldados na estrada de Smolensk e a retirada tornou-se caótica. Muitos regimentos perderam-se da força principal, a neve não deixava perceber o caminho e facilitava as emboscadas dos cossacos. Não havia comida, os homens embrulhavam-se nas peles e mantas que tinham trazido de Moscovo. Alguns enlouqueciam e não concluíam a penosa marcha de cada dia, perdendo o abrigo dos acampamentos improvisados onde havia fogueiras que não duravam toda a noite. De manhã, as colunas prosseguiam na sua miséria, deixando para trás mais alguns corpos desistentes.
Nesse dia, por causa do nevão, o soldado ficou sozinho na estrada. O ruído forte do vento trazia-lhe os lamentos dos desgraçados que se tinham perdido como ele. Depois, já não se ouvia nenhum som humano. Sem saber a direcção para onde ir, embrenhou-se numa charneca vazia, com uma correnteza de bosques ao fundo. O frio doía-lhe como se houvesse punhais a cravar-se nas suas pernas e braços.
Foi então que, por entre as árvores, apareceu uma improvável carruagem puxada por cavalos, que deslizava na sua direcção. O veículo aproximou-se, como se fosse num sonho. Parou próximo, trazia duas pessoas.
O cocheiro ficou no seu lugar, mas a mulher desceu e ajoelhou-se à sua frente, a agradecer uma intervenção divina:
"Encontrei-te finalmente, François, estive à tua procura por toda a Rússia", disse.
A desconhecida sabia o seu nome. Isso era impossível, naturalmente, e ele agarrou o cabo da espada. Ilusão, engano, um truque dos russos, uma tentação do inferno. Não conhecia aquela mulher, era um delírio.
"Sou Katia. Fomos amantes em vidas anteriores e andei dois séculos à tua procura, no fio de vidas que tiveste, só que não te lembras", disse a mulher. "Vem comigo, posso salvar-te, vais recordar todo esse nosso passado".
A armadilha tornara-se evidente. Havia céu e inferno, mas não existia um fio de vidas. François recuou, depois correu na direcção oposta, com dificuldade por causa da neve, depois com mais energia, meteu-se por um bosque e não parou mais, até lhe faltar o fôlego. Fora uma alucinação. Encostou-se ao tronco de uma bétula e sentiu alegria por estar livre daquele fantasma. Depois, adormeceu.
A alma de Katia, que já tinha outro nome e outro corpo, procurou aquela alma de François por mais três gerações, e acabou por a encontrar em Viena, no corpo de alguém que se chamava Karl. Já tinham passado mais de cem anos, que foi todo o tempo que os dois desperdiçaram, mas a história terminou bem, pois Karl recordou-se do que lhes acontecera, não apenas na estrada de Smolensk, mas muito antes disso.
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A estalagem ficava na orla da floresta, dos pântanos e dos lugares de horror. Um dia, vindo do arvoredo, ouviu-se o tropel de cavaleiros. Contaram onze cavalos e, sobre cada um destes animais ferozes, um descomunal soldado de armadura. Vinham numa correria surda, espalhando lamas pelas bermas da vereda, envolvidos numa neblina fina que se agarrara às couraças. O cavaleiro com pendão e bandeira trazia as cores do senhor de Montalto, que defendia a fronteira, e que se sabia estar numa grande batalha no país inimigo. Os cavaleiros pararam na estalagem e desmontaram. Tiraram os elmos, descansaram as espadas; oito ficaram junto à bagagem, três descalçaram as luvas de ferro e, sem capacete, entraram na taberna iluminada pelo fogo tremente de uma lareira. Um deles falou, apontando para a figura principal: "o senhor conde está cansado, quer beber e comer". O nobre era jovem, pálido, com olhar de poeta. Sentou-se, pensativo, ladeado pelos companheiros, enquanto lhe serviam vinho e pão. "Dêem de comer aos homens lá fora", ordenou o conde de Montalto, num tom distraído. Os estalajadeiros saíram para cumprir o comando e foi então que se deu a magia: os homens lá fora tinham desaparecido na bruma que avançava, como se tinham evaporado os próprios cavalos, e a atenção assustada dos populares (quatro ou cinco cristãos foram testemunhas destes factos misteriosos) deu conta do novo cortejo de cavalaria que avançava um pouco ao longe, entre o nevoeiro espesso que a floresta respirava. Silhuetas de corcéis sem cavaleiro, ou assim parecia, a passo lento, e vinham dez a guardar o animal da frente, que no dorso trazia aquilo que aos populares pareceu ser um saco; mas quando correram para o segurar o animal, perceberam que trazia um cavaleiro morto agarrado à garupa, o cadáver do jovem conde que minutos antes todos eles tinham visto a beber na estalagem. Sangrado por feridas profundas, o olhar esvaziado de vida. Que sortilégio era aquele? Quando os camponeses correram para o interior da taberna, também os três cavaleiros tinham desaparecido. Ninguém, só a comida sobre a mesa e a lareira acesa a lançar sombras sobre as paredes.
Imagem de inteligência artificial, Night Café

O primeiro sinal de alarme surgiu numa sexta-feira antes das férias, quando um funcionário de escalão menos influente descobriu a irregularidade nas contas. A informação foi subindo na hierarquia, com a lentidão própria de uma instituição com cem milhões de anos, pouco habituada a mudanças e ainda menos a uma má notícia. De reunião em reunião, enquanto o escândalo subia de patamar, estabeleceu-se grande perplexidade e certa apatia, pois nenhum responsável, nem sequer entre os mais graduados, sabia como lidar com o problema.
"Ouvi o que me acabou de explicar, mas não entendo", disse o funcionário de elite, que tinha acabado de saber do grande problema.
O subordinado insistiu: "Correndo o risco de me repetir, não há almas suficientes".
Este diálogo repetiu-se com pequenas modificações, enquanto o vendaval ia subindo na hierarquia, até chegar ao diretor, que era mais ou menos o topo, se é que isso existia naquele lugar.

Os cínicos achavam que o casal era demasiado perfeito e que no interior daquele imenso encanto devia existir um problema qualquer. O facto é que toda a gente se submetia ao charme de Elisa e Carlos, ambos pintores, com vidas de sonho, sempre felizes e admiráveis. Toda a gente queria entrar no círculo dos seus amigos e eles deixavam, enfim, não há outra maneira de explicar, espalhavam alegria, contentavam quem estivesse à volta, enchiam as festas de amabilidade e beleza. Os quadros que pintavam eram sublimes, sobretudo os dela.
Não fui ao casamento dos dois, só os encontrei mais tarde, mas sei da sua história. Conheceram-se em Belas Artes e já na escola eram um par ideal. Elisa pintava freneticamente e os professores achavam que seria uma pintora de grande qualidade. O marido, Carlos, acabou o curso sem brilhar, não tinha a mesma intensidade, mas era extrovertido e manipulador das conversas, dominava facilmente as tertúlias.
Carlos era também mais rico do que Elisa, foi a sua herança que lhes permitiu a vida desafogada de dois jovens artistas, em casa esplendorosa numa aldeia da costa, onde havia paisagens de beleza, com luz, bosques, praias, falésias, cores, o mar. O sítio perfeito. Mantinham um apartamento na cidade e frequentavam grupos de intelectuais e artistas, enfim, uns mais desistentes, outros como eu, inebriados pela ficção de que podiam deixar as grandes obras do futuro.

"Falei por falar, na brincadeira", disse o desconhecido, "felizmente, a perfeição não existe e a felicidade também não".
Olhou para mim com expressão que desmentia o tom de ironia. Pareceu-me que ele apenas tentava corrigir a primeira afirmação, que eu ouvira correctamente. O desconhecido afirmara com enorme convicção que naquele pátio e naquelas ruas não havia ninguém feliz, o tipo de frase pedante de quem quer desabafar sobre os seus próprios estados de alma. Não posso garantir que as pessoas que exibiam euforia naquela rua estivessem todas mesmo alegres, por vezes era evidente que alguns foliões tentavam fingir, para poderem acompanhar o movimento da multidão, da massa de gente que pulava e cantava, entre pares a dançar no meio do arraial, luzes penduradas entre as casas, numa algazarra de cores e de cheiro a sardinha assada. Sim, era provável que houvesse por ali máscaras de felicidade, como acontece nos carnavais, onde cada um pode ser alguém diferente e simular por momentos que não está agarrado a si próprio.
A afirmação do desconhecido, apesar de tudo, era exagerada. Via-se felicidade, beleza, o melhor da humanidade.
"No fundo, tudo isto é falso", gritou ele, na minha direcção, a gesticular.

O corpo mergulhou numa fadiga inexplicável. A súbita ideia de que cometera um erro e estava em perigo devia ter o efeito oposto, desencadear os mecanismos de alarme e a reacção para que fora treinado; já antes sentira a aproximação da catástrofe e actuara com frieza nessas circunstâncias, mas agora sentia apenas cansaço e desistência; a mola partia-se, em vez de saltar.
Reviu mentalmente os passos que dera. Fora tudo correto, desde o momento em que se aproximou do ponto de entrega do material. Normalidade, sem uma palavra desnecessária, os gestos cuidadosamente coreografados, mais parecera um passo de dança entre ele e o agente estrangeiro, ninguém podia ter visto nada de suspeito, a entrega perfeita, como nos livros, no meio da multidão, em plena rua, à vista de toda a gente: duas pessoas a moverem-se em direcções opostas, um pequeno choque, a passagem do pequeno pacote, sem falhas.
Depois, seguira o seu destino, parte planeada e parte improvisada. Primeiro, o metropolitano, três estações, mudança de linha, duas estações, rua, autocarro, percurso a pé no parque, ninguém à vista, levou tempo a sentar-se num café, observou à volta, havia uma estranheza, não conseguiu tranquilizar-se, o coração acelerado. Tinha sido seguido.
Estava uma tarde tranquila, no último dia antes de uma ponte, a cidade já se esvaziara, a rua era toda para mim. Passeava pela sombra, em passo lento, quando apareceu aquele rapaz asiático. São bem-educados e nunca sabemos bem a idade deles. Digamos, neste caso, quarenta e poucos, magrinho, cabelo liso e curto, camisete azul. Só falava inglês macarrónico, aos bochechos, revirava a cabeça quando lhe faltavam as palavras. Pediu a minha ajuda, com sorrisos e amabilidades, e lá fui percebendo um pedacinho do drama. Mostrou-me o telemóvel, máquina moderna, era preciso chamar a polícia, mas não sabia os procedimentos.
Olhei à volta, talvez houvesse alguma patrulha por ali, mas nada. Era naquela hora a avenida mais calma de Lisboa, que é uma cidade onde nunca acontece nada de especial.
Lá fui fazendo perguntas em inglês, a tentar entender o motivo da agitação: o homem explicou que se chamava Abdul e era do Bangladesh, não falava português, pelo menos o suficiente para se fazer entender num assunto tão delicado. Aquilo era por causa do assalto ao estabelecimento que ele tinha em Alcântara. Ele disse mesmo Alcântara, a palavra era nítida, mas estávamos os dois em frente a um banco numa esquina da avenida de Roma e aquela discrepância geográfica acionou as minhas sirenes de alarme: a polícia que não aparecia, o telemóvel excelente que ele me exibia para eu chamar as autoridades, um estabelecimento em Alcântara (digo assim por não me lembrar se era mesmo restaurante e daqueles de cozinha indiana), mais o ladrão na avenida de Roma. Enfim, desconfiei, estas confusões não nos aparecem todos os dias.