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A Europa de hoje

por Luís Naves, em 17.12.15

Os populistas tendem a ignorar rótulos ideológicos e procuram simplificar as ideias simples do homem da rua. O populismo desconfia dos capitalistas, da banca e dos especuladores financeiros, detesta as instituições internacionais e as potências. No caso europeu, há forte retórica eurocéptica e críticas duras aos Estados Unidos e Alemanha, sobretudo quando a opinião pública fica com a percepção de que houve interferência nos assuntos internos. A resistência fictícia ou real a essas pressões garante ganhos imediatos de votos.

Os populistas esperneiam antes de aceitar o inevitável, mas acima de tudo seguem uma agenda nacional, são adversários da globalização, preocupam-se com os perdedores deste processo, querem reforçar as funções do estado e as companhias de bandeira, tentam interpretar a todo o momento a sensibilidade do povo, distanciam-se da opinião publicada. Os populistas da direita, por exemplo, erguem trincheiras contra a imigração em massa e o que isso implica de perigos (reais ou imaginários) para a identidade nacional ou para os salários futuros. Os populistas governam por sondagens e desconfiam das elites mediáticas e dos partidos tradicionais, embrulham-se na bandeira, gostam de feiras de enchidos, enchem a boca com as palavras valores e tradição, combatem os privilégios dos ricos e assumem-se como defensores dos mais fracos e como opositores dos piores aspectos das culturas forasteiras. O seu discurso iliberal entra facilmente na linguagem. Está a ser ultrapassado um ponto de não retorno neste processo de mudança que acabará por criar um mundo diferente.

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publicado às 12:32

As raízes do problema europeu

por Luís Naves, em 16.12.15

Os eleitores parecem cansados de duas décadas de mediocridade económica, a que se seguiram crises que abalaram os próprios fundamentos da UE. Quando o euro esteve à beira do colapso, os governos mostraram abundantes sinais de fraqueza. Entretanto, encolheram os serviços públicos, aumentou a ansiedade das pessoas em relação aos seus empregos e pensões, tremeram os fundamentos da relativa segurança que os europeus julgavam garantida. Há quem diga que a rebelião eleitoral a que se assiste na Europa tem a ver com a austeridade, mas isso não explica o avanço dos populistas em países que não foram afectados por medidas austeritárias.

Na verdade, a globalização falhou para muitos europeus. Ninguém pode dizer que não foi afectado pela deslocalização de empresas, pelo futuro duvidoso das pensões de reforma, pela degradação do Estado social, pelo desemprego ou ainda pelos aumentos de impostos que financiaram dívidas públicas. A globalização trouxe mais produtividade, mas a distribuição dos ganhos foi desigual ou, pelo menos, muitos eleitores acreditam nisso. Em países com grande proporção de imigrantes, existe uma sensação adicional de insegurança: o terrorismo floresceu em comunidades mal integradas. A imigração pode resolver problemas de competitividade e reduz o défice demográfico, mas também funciona como travão ao aumento dos salários mais baixos, sendo prejudicial para trabalhadores menos qualificados, exactamente aqueles que assistiram à degradação da convivência nos bairros populares e vivem na pele os choques culturais em torno de questões que deviam estar extintas, como falta de liberdade das mulheres ou intolerância religiosa.

Mais recentemente, os governos trataram como crise de refugiados o que tem todo o aspecto de ser uma crise de imigração em larga escala. As potências ganharam preponderância e as instituições comunitárias são duras com os países mais pequenos. A nova economia beneficia as maiores empresas, fechando os olhos à lei do mais forte e sufocando progressivamente as lojas de bairro. Parece que perdem sempre os mesmos, o que não impede o constante discurso da igualdade e da solidariedade. Nada disto joga com a vida real. As elites políticas e mediáticas ignoraram o descontentamento popular e sofrem agora uma rebelião de grandes proporções.

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publicado às 12:35

O desafio à ordem instituída na Europa (2)

por Luís Naves, em 23.10.15

A Polónia vota no domingo e os conservadores do Partido da Lei e Justiça (PiS) deverão vencer com folga, embora sem maioria absoluta. É possível que os conservadores façam uma coligação com pequenos partidos populistas ou centristas, mas alguns políticos à esquerda falam na possibilidade de ser criada uma maioria negativa semelhante à que se desenha em Portugal, ou seja, o vencedor das eleições seria afastado do poder através de uma super-coligação pós-eleitoral de partidos muito diferentes entre si.

Julgo que acabará por não acontecer, mas fala-se. A “esquerda”, ou aquilo que aqui interpretamos como esquerda (SLD, pós-comunistas) arrisca-se a nem entrar no parlamento; de qualquer forma, terá um resultado inferior a 10%; os centristas da Plataforma Cívica (PO, liberais e europeístas, no poder) devem perder as eleições e a sequência dos acontecimentos dependerá da diferença que existir entre os dois maiores partidos. Uma diferença grande facilita uma coligação liderada pelos conservadores; a diferença pequena pode levar a certa instabilidade.

Tudo indica, pois, que a Polónia vai ter um novo poder semelhante ao húngaro, com “má imprensa” no exterior, desconfiado em relação à Europa, mas neste caso bastante mais hostil em relação à Alemanha. A “democracia liberal” perde para a “democracia social-conservadora, nacionalista e ultra-católica”. Tentando ver aqui algum padrão, acentua-se o fosso crescente entre as “democracias liberais” da UE ocidental e as “democracias iliberais” da UE de leste, que os meios de comunicação dos países ricos gostam de descrever como ainda selvagens e trauliteiras, em oposição à ordeira Europa intergovernamental da “liberal merkolândia”.

O que conduz à minha explicação para este problema do desafio à ordem instituída: quando os eleitores dos pequenos países não são ouvidos, há tendência para surgirem partidos de protesto com algum êxito; quando uma parte do eleitorado é excluída (os vossos votos não interessam), existe tendência para aparecerem partidos populistas; quando as elites ignoram as ansiedades sociais, reforça-se o nacionalismo.

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publicado às 12:42

O desafio à ordem instituída na Europa (1)

por Luís Naves, em 22.10.15

Qual a razão de usarmos tantas vezes a expressão “democracia liberal” quando falamos das democracias europeias? O modelo europeu é essencialmente social-democrata, com muita participação conservadora. O modelo europeu é liberal no sentido de universalizar as liberdades de mercado, de pensamento, de religião, os direitos cívicos, mas nada disto é posto em causa pelos partidos “iliberais”. Enfim, nenhum dos partidos eurocépticos que surgiram em tantos países europeus pretende acabar com a democracia no seu país, com o voto livre no seu país, nem sequer com a liberdade religiosa das sua minorias (desde que não se reze na rua).

Os partidos iliberais da direita (enfim, os que têm algum sucesso) desejam restringir a imigração; os da esquerda pretendem taxar os ricos e a banca, controlar os mercados; por vezes, os da direita também querem refrear o sistema capitalista, mas não consigo citar algum partido europeu de peso que defenda o fim da democracia representativa, o encerramento dos parlamentos ou o fim da liberdade de expressão.

A analogia com as crises democráticas dos anos 30 é difícil de sustentar. O nosso tempo parece bem diferente e o desafio à ordem tradicional nas democracias parlamentares europeias deve ter outra explicação. Nos anos 30, as frágeis democracias criadas no final da Primeira Guerra Mundial foram lentamente sufocadas por partidos anti-parlamentaristas que defendiam regimes ditatoriais e que o diziam em campanhas eleitorais. Tirando franjas lunáticas, julgo que isto hoje não existe.

 

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publicado às 12:35

Fortaleza Europa

por Luís Naves, em 09.09.15

Não sei se estas notas serviram para alguma coisa. A temperatura vai descendo e o trânsito de refugiados pela Hungria parece essencialmente controlado. Uma fuga em massa de migrantes, ontem, em Roszke, acabou alguns quilómetros à frente, mas a situação é difícil na Hungria e na Áustria, devido ao elevado número de pessoas em movimento. Todos os dias há incidentes. Entram agora 5 mil refugiados por dia na fronteira húngara. Ninguém é recusado, ninguém fica sem alimentação, os doentes são tratados e há informações de que muitos chegam a esta parte da Europa em más condições de saúde. Portugal vai receber um número de migrantes desta rota equivalente a um dia de chegadas só em Roszke. Com este esforço, é fácil criticar a fortaleza Europa.

Os traficantes já estão já a explorar uma rota alternativa à húngara, via Croácia e Eslovénia, rumo à Áustria e ninguém sabe quantos jihadistas aproveitaram a boleia, infiltrados na mole humana. Nos campos de refugiados na Turquia estão mais de um milhão de pessoas e esta crise vai continuar na próxima Primavera. As fronteiras internacionais serão provavelmente geridas pela Europa e as quotas de asilo serão também europeias, mas houve discussões acesas entre países. A Hungria tem sido criticada por tentar gerir a passagem de 170 mil pessoas pelo seu território, mas as críticas parecem estranhas: como se fosse possível ter milhares de pessoas a transitar por um território sem um simples registo de entrada. Dormiam nas ruas das cidades, andavam por onde quisessem, sem restrições ou controlo, em desordem. Nas mãos dos traficantes estavam bem melhor do que nas mãos da polícia.

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publicado às 15:39

Choque e pavor

por Luís Naves, em 13.07.15

Segundo a maioria dos comentadores, havia bravos gregos contra tenebrosos imperialistas. Poucos parecem saber como funcionam estas negociações multilaterais e proliferaram interpretações nacionalistas, ideias anti-alemãs, comparações absurdas, como se a Grécia fosse forçada a tomar cicuta. A opinião pública teve certamente dificuldade em perceber o que ia acontecendo e está explicada em grande parte a crise na nossa Imprensa. Os que não têm acesso a fontes em outras línguas ficaram com uma ideia distorcida dos factos, mas houve outros aspectos significativos, como o anti-europeísmo feroz e o desaparecimento total dos partidos que até agora descreviam Alexis Tsipras como semi-Deus.

O acordo desta madrugada terá difícil aplicação, pode provocar uma crise política, mas por enquanto salva a Grécia da queda imediata no abismo. Como diziam os responsáveis europeus, numa interpretação pouco seguida entre nós, o problema dos gregos está no modelo de sociedade e numa economia dependente de um sistema político disfuncional. No fundo, em troca do terceiro resgate, esgotada a confiança dos credores, Atenas teve de aceitar uma profunda transformação nos seus hábitos económicos e da própria forma de funcionamento do Estado. Em troca de ajuda financeira em larga escala, haverá maior vigilância dos credores mas, na prática, mantém-se a desconfiança. Só isto explica as exigências de fazer tudo muito depressa, na realidade em escassos dias: vem nos livros, as mudanças sistémicas fazem-se em processo de choque e pavor.

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publicado às 11:54

Crise na zona euro (III)

por Luís Naves, em 07.07.15

O referendo grego de domingo mostrou a divisão da esquerda europeia, com a formação de dois blocos irreconciliáveis. Nos países da zona euro, crescem os partidos populistas e radicais eurocépticos, num processo gradual que torna cada vez mais pequena a aliança central (e tradicional no poder) entre conservadores e socialistas. Nos meios de comunicação de referência, triunfou uma retórica que define o lado europeu como sendo neo-liberal e subserviente dos interesses do governo alemão. Esta é uma caricatura infeliz, pois nas instituições há socialistas, que serão cruciais  em qualquer decisão.

A Espanha ilustra esta nova clivagem no eleitorado esquerdista, com PSOE e Podemos a fazerem interpretações opostas do caso grego. Segundo as sondagens, os dois partidos deveriam formar uma aliança de poder pós-eleitoral, mas as divisões sobre como prosseguir com a moeda única dificultam esse resultado. Em Portugal, o PS tem a fractura exposta, com dirigentes de topo a fazerem discursos alinhados com o Syriza e a liderança a tentar um meio termo que permita criticar as políticas de austeridade sem inviabilizar a solução europeia onde participam os partidos homólogos. A ambiguidade pode custar votos a António Costa, cuja posição contrasta com a de outros dirigentes socialistas, mais próximos dos discursos do Bloco de Esquerda ou do PCP favorecidos pelo coro grego dos analistas mediáticos. O problema dos socialistas é que será a conquista dos eleitores do centro a decidir as legislativas e, caso se confirme o Grexit, os portugueses vão assustar-se com as imagens do colapso financeiro e da crise humanitária que se vai seguir, com a moeda paralela, bancos estoirados, escassez nas farmácias e falta de gasolina.

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publicado às 11:42

Crise na zona euro (II)

por Luís Naves, em 06.07.15

A resposta popular ao referendo na Grécia aumentou a probabilidade de Atenas abandonar a zona euro e tornou menos provável que os líderes europeus continuem a lutar contra esse desfecho. Um acordo entre as partes é ainda possível, mas parece ilusório: o Syriza dificilmente trocará a sua vitória nas urnas por cedências aos europeus e estes terão dificuldade em ratificar nos parlamentos nacionais um terceiro resgate sem as devidas contrapartidas gregas. A Europa não consentirá em pagar a factura da dívida grega sem garantias de que Atenas está disposta a fazer reformas.

Mesmo obtendo um acordo óptimo, a Grécia regressaria em breve à protecção dos credores, entrando numa lógica de eterna dependência. Não faz sentido que países pobres como a Eslováquia estejam a subsidiar uma sociedade mais avançada que não influenciam. E manter a situação de agonia incentiva por todo o lado formações populistas anti-europeias que contestam as chamadas ‘políticas de austeridade’, ou seja, as medidas de rigor orçamental que os pró-europeus exigem em troca do dinheiro dos seus contribuintes. Pagar o preço de manter a fachada da união monetária abre o caminho à chantagem permanente dos devedores, pois compensa não cumprir e há sempre um referendo para contrariar as retaliações. Por esta razão, o resultado de ontem reforçou indirectamente as facções europeias que defendiam a saída da Grécia.

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publicado às 11:29

Crise na zona euro (I)

por Luís Naves, em 05.07.15

A Grécia está mais perto de sair do euro, o que será uma terrível provação para o povo grego, mas igualmente a única forma de o governo do Syriza cumprir o seu programa de esquerda. Com o Grexit, a dívida será cortada e a desvalorização permitirá algum crescimento económico, apesar do empobrecimento e da inflação. Os tratados não incluem cláusula de expulsão, portanto, é necessário inventar uma solução legal, mas os estragos na credibilidade da moeda única serão imensos. A alternativa é um acordo com medidas duras que a esquerda repudia, sendo ainda menos provável um acordo soft que leve outros países a pedir a reestruturação da sua dívida e o fim imediato das medidas de rigor orçamental. O ‘não’ dos gregos tornou a via mais estreita e haverá efeitos globais, mas o jogo definiu-se. A fragilidade do euro torna-se evidente e os países ricos precisam de aprofundar a integração, reduzindo a soberania dos Estados. O cumprimento do Tratado Orçamental será obrigatório para quem quiser permanecer (os mercados encarregam-se de punir os prevaricadores) e os mecanismos de consolidação (fundo monetário europeu e união bancária) podem acelerar. O aprofundamento constituirá igualmente uma oportunidade política para os partidos da esquerda radical que contestam a própria UE e será o ponto de divisão entre os partidos socialistas pró-europeus e os populistas que apostam tudo no combate ao colete de forças nas finanças públicas.

 

Texto escrito dia 6 e 7 comenta referendo de dia 5

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publicado às 11:36

E agora o desconhecido

por Luís Naves, em 29.06.15

Nos próximos dias, tudo o indica, assistiremos ao colapso financeiro que levará a Grécia a impor controlos de capital e a introduzir uma moeda paralela para pagar salários e pensões. A desvalorização dessa moeda permitirá recuperar a competitividade, mas entretanto haverá falências e serão destruídas as poupanças da classe média, que tem grande quantidade de dinheiro debaixo dos colchões e, assim, poderá resistir durante alguns meses. O governo de esquerda pode finalmente cumprir as promessas eleitorais, acabar com a austeridade, imprimir dinheiro, aplicar um programa radical. A Europa (incluindo os contribuintes portugueses) pagará os incumprimentos gregos e correrá certo risco de perturbação nos mercados de dívida, mas do ponto de vista político tudo avançará mais depressa: nos próximos dois anos serão definidos mecanismos de maior integração e haverá uma mudança fundamental na UE, com a renegociação da relação dos britânicos e a mudança de líderes na Alemanha e talvez também em França. Haverá um núcleo duro mais forte e periferias mais distantes.

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publicado às 17:47



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