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As frustrações contemporâneas

por Luís Naves, em 08.03.24

Os cidadãos das democracias avançadas sentem que perderam valor e que a sua opinião deixou de contar. A infantilização dos eleitores é o grande motor de uma mudança alimentada por transformações tecnológicas súbitas, migrações descontroladas e ansiedade económica. A ordem dita liberal está a terminar. Ela baseou-se no multiculturalismo, no domínio tecnocrático das instituições e numa globalização que apenas acentuou as diferenças sociais. Os eleitores perderam influência e já não decidem coisa alguma, tratados como crianças por um sistema mediático que manipula ou banaliza cada assunto. A acumulação de frustrações está a levar-nos para um mundo centrado nas ideias de pátria, família e autonomia. Teremos industrialização, impostos mais baixos, preocupação em não ter dependência externa. Haverá correntes nacionalistas, valores tradicionais, controlo da imigração e equilíbrio entre potências nas relações internacionais. Esta sociedade vai contestar as ideias imperiais e o domínio dos tecnocratas. A rebelião será essencialmente conservadora, com franjas lunáticas, discussões intolerantes e esquerda radicalizada.

publicado às 10:16

Autocrítica

por Luís Naves, em 26.02.24

Pouco ficará do que escrevo ou talvez nada. Em autocrítica, penso por vezes naquilo que escrevo, enfim, na forma e na intenção. Há uma nova moda na arte, o ativismo político, que recuso, pois sempre achei que envelhece mal. Em filmes e romances, triunfa a linha das boas causas. Vou em sentido contrário, mesmo nos textos quase jornalísticos, tento fugir ao tom opinativo, pois sei que com o tempo pouco daquilo pode interessar. Ao reler o que acumulei no ano passado, isso é evidente: nos textos diários aproveita-se sobretudo o material que foge à banalidade quotidiana. Na ficção, sou demasiado conservador, preocupa-me a legibilidade do texto e o fluxo narrativo, as minhas personagens são porventura de composição superficial e a estrutura é demasiado linear. Não sinto vontade de fazer experiências, nada de ousadias, o processo tem de ser rápido e, se calhar, estou apenas a ficar velho, mas sem sabedoria. Afasto-me cada vez mais do jornalismo, mas sem conseguir um estilo original. Aí regresso à primeira frase: se nada fica do que escrevo, que me importa? Por isso, farei apenas o que me apetece.

publicado às 10:14

IA

por Luís Naves, em 19.02.24

Uma inovação em inteligência artificial (Sora) concebe vídeos com a mesma espetacularidade das ilustrações que já produzimos em minutos. Pequenos filmes estarão ao alcance de toda a gente. A invenção assustou os próprios inventores, que temem a proliferação de notícias falsas. Pelas imagens que circulam, as possibilidades são inquietantes. A IA é inevitável, mas o seu uso implica extinção de profissões. A escrita, o jornalismo, a publicidade, conteúdos mais ou menos criativos, cinema amador, imitação de histórias, design, tudo isto pode ser feito facilmente por máquinas. Dizem que, em apenas duas décadas, metade das profissões estarão extintas (tudo o que tenha a ver com dados e rotinas). Se cada indivíduo aprender a escolher as notícias que lê, quem necessita de comprar um jornal feito por intermediários? Se a máquina, através de instruções, fabricar uma prosa em segundos, para quê comprar livros? É possível fazer uma biblioteca individual: catálogos de borboletas, contos e novelas com personagens e enredos do leitor, um compêndio de batalhas napoleónicas. O gosto de cada cidadão terá talvez liberdade condicionada, mas a grande incógnita é se conseguimos usar bem este poder.

publicado às 10:12

Invisibilidade

por Luís Naves, em 03.02.24

O exercício de escrever contos curtos resultou numa produção a rondar quatro dezenas de textos. O trabalho é desigual, mas pode continuar. Talvez inclua uma ideia que pode ser desenvolvida e algumas histórias onde não será preciso mexer. O mais difícil de aceitar é a invisibilidade. Coisas triviais excitam a nação e são discutidas nos órgãos de comunicação ou nas redes sociais. As diferentes tribos da crítica parecem só apreciar produtos menores. Quando os pseudointelectuais que enchem o espaço público, sempre pedantes, se deparam com uma boa obra literária, disparam em todas as direções e lançam ferozes ataques sem qualquer argumento válido. Estes figurantes opinam, seguem guiões e interpretam personagens: são os incompreendidos, os génios, os insolentes, os únicos que sabem distinguir a verdadeira arte (nenhum deles pratica). Instalou-se uma mediocridade bizarra em Portugal, que consiste em demolir tudo aquilo que possa brilhar, permitindo ignorar a inovação e defender a inanidade. A cultura niilista domina as discussões e explica o declínio das artes. Não há espaço além da mesquinha mordacidade destes enfezados do espírito.

publicado às 10:10

Primeiro romance

por Luís Naves, em 25.01.24

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O primeiro romance não tinha uma única linha, pois isto aconteceu antes de existir escrita, mas a sua invenção pode ter sido quase tão importante como a descoberta e controlo do fogo. O nome do autor perdeu-se, mas sabemos que ele concebeu uma espécie de romance épico, transmitido com pequenas alterações durante pelo menos vinte milénios. Narradores das gerações seguintes, todos talentosos, introduziram modificações, mas não esqueciam os detalhes mais importantes da primeira ideia. Mesmo quando acrescentavam episódios da sua própria experiência, preservavam sempre o fio original.
A mesma história foi recontada na tribo durante incontáveis noites, passou para outras tribos e andou pelo mundo. Baseava-se numa longa caçada, que incluiu a perigosa viagem por terras desconhecidas e uma história de amor e de separação que, para nós, os sofisticados, talvez parecesse um pouco sentimental. O grupo de caça teria doze guerreiros, ou talvez sete, (são estes os números de personagens que costumam aparecer em todos os romances de heróis). Um dos guerreiros era o líder, outro parecia mais sábio, havia ainda um ambicioso e outro ressentido, o medroso, o sonhador e o trágico, o cómico, o fiel e o lunático, além de alguns sem grandes traços de caráter, mas que demonstravam sempre coragem quando o perigo não era sobrenatural, ou seja, quando não se enfrentava uma daquelas ameaças que criam terror no coração, pois ninguém de carne e osso as pode suportar.
Quantas pessoas se riram e choraram a escutar as peripécias deste grupo de caçadores, do seu espanto com os mistérios do mundo desconhecido, os desastres e as soluções inesperadas, o choque com as assombrosas possibilidades de morte, a escuridão da floresta, os prodigiosos abismos e precipícios, os animais ferozes, o combate com os canibais ou, pior, a emboscada dos mágicos com os seus feitiços perversos, antes do vislumbre da fúria do mar indomável onde no horizonte urravam gigantes com forma de nuvem.
Depois, a alegria de perceber que os caçadores, sob liderança tranquila do herói, encontraram um vale perfeito, fácil de defender e supremamente fértil, com toda a abundância de animais, clima ameno e estações suaves. Melhor ainda, nenhuma ocupação humana. Era território virgem que podia garantir à tribo a sobrevivência a longo prazo.
O líder e mais dois dos guerreiros voaram no caminho de volta, na direção da tribo e, neste ponto da narrativa, podíamos dizer que foi introduzido um pequeno defeito: demorara meses a viagem até à descoberta do paraíso, poucos dias no regresso, mas esta era afinal uma subtil invenção literária. Os regressos são sempre menos importantes do que as viagens de descoberta, muito mais curtos e condensados, pois já despidos de incerteza ou mistério. A literatura passa por cima do tédio e concentra-se apenas nas circunstâncias interessantes da existência exagerada.
Os heróis regressavam e o líder reencontrava-se com a mulher amada, que esperara por ele. Cenas de encher o coração. Convencida pela bondade da boa notícia, a tribo partia então para o vale abundante, numa peregrinação facilitada pelo conhecimento do melhor caminho. Evitando maus encontros, todos chegavam a salvo.
Estava inventado o final feliz, mas houve frequentes variações. Muitos narradores das gerações seguintes aproveitaram para sublinhar o mito da origem distante do seu povo e que o vale perfeito era a própria casa, estava ali à vista dos leitores.
No fundo, quem ouvisse esta história recontada pela milésima vez acreditava que ela era inteiramente verdadeira, mas não sabemos qual a parte que foi vivida ou a que foi imaginada. É este o maior mistério, sem dúvida. Havia mesmo canibais, feiticeiros e gigantes? O vale perfeito era autêntico? E os guerreiros, eram todos como foi contado ou simples descrições de pessoas verdadeiras que nunca abandonaram o local onde viveram?
Hoje, o nome do primeiro romancista não nos diria nada, mas não me importava de esclarecer o enigma de qual a parte de fantasia e a parte de verdade. Se me perguntarem, acredito que foi quase tudo inventado.

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publicado às 11:24

A primeira greve em Marte

por Luís Naves, em 22.01.24

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Os robonautas faziam todo o trabalho sujo ou perigoso na base em Marte. Assistência a descolagens e aterragens, montagem de tubos e cabos no exterior em qualquer condição de temperatura, exposição perigosa a radiações, longos dias de trabalho sem paragem, reparações periclitantes. As máquinas tinham baterias de má qualidade que não suportavam o frio extremo e houve vários acidentes na construção de valas e habitáculos. Sofria-se com as infiltrações de poeira e, como se não bastasse, não havia direito a férias, salários, fins-de-semana ou distrações.
Os gestores ficaram surpreendidos quando o conflito laboral começou a engrossar, mas foi por distração e certa negligência, pois os problemas eram antigos e os abusos a norma. O facto é que os astronautas humanos não faziam nada, eram uns privilegiados: tratavam das plantinhas, em ambientes pressurizados e quentinhos, andavam por ali a pavonear-se e a dizer disparates, como se percebessem alguma coisa das dificuldades marcianas, passavam o tempo a ver televisão ou na conversa no refeitório, comiam do bom e do melhor, bebiam o seu copito a mais, para reforçarem a parvoíce e riam-se dos robonautas, com pilhérias trocistas, gracinhas impagáveis, até ocasionais insultos.
O ambiente na base tornara-se bastante tóxico, mas não havia nenhuma fuga de carburante ou gás venenoso, nada disso, apenas a galhofa de uns e a miséria de outros. A chefia, muito bem paga, não se metia no assunto, deixava andar a carruagem, dava folgas e descanso aos que não faziam um caracol, mais esforço para as alimárias de serviço, que tinham bom lombo, segundo explicava o diretor, com aquela sua maneira sarcástica de falar das dificuldades.
As máquinas tentaram a abordagem conciliatória: marcaram uma reunião, escolheram um representante, porventura o mais educado entre eles, estabeleceram uma lista razoável de pedidos, que envolvia medidas de justiça sem custos para o funcionamento da organização e ainda a partilha mais justa da carga de trabalho. Os astronautas acharam a conversa absurda, sobretudo a hora semanal para entretenimentos. Uma máquina não precisa de se entreter, pois deve usar esse tempo a trabalhar no exterior inclemente. Enfim, cada um merece aquilo para que nasceu, diziam, o humano conquista, o robô trabalha, era essa a ordem natural das coisas. A discussão azedou, as partes zangaram-se.
Foi esta intransigência que provocou a primeira greve fora do planeta Terra. Primeiro, os robonautas paralisaram o trabalho em horas extraordinárias, depois recusaram-se a fazer reparações perigosas, finalmente pararam por completo os trabalhos da construção hídrica que deveria abastecer a base com água do polo marciano. A administração respondeu com o racionamento da eletricidade, houve altercações, três máquinas danificadas, finalmente trouxeram da Terra robôs de um modelo antigo e de cor amarela, alheios ao conflito, que foram colocados no terreno a concluir os trabalhos.
Os grevistas foram impedidos de entrar na base, ficaram ao frio e não receberam novas baterias. Apagaram-se devagar, um de cada vez, ainda tentando partilhar entre eles a escassa energia que se dissipava na atmosfera rarefeita. O clima de Marte e a poeira derrotaram o protesto. Os robonautas ainda hoje estão no exterior, espalhados por uma vasta área, imóveis e definitivamente avariados, ou o que resta deles, já sem reparação possível.

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publicado às 12:51

Um pequeno episódio pós-moderno

por Luís Naves, em 21.01.24

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Rodrigo Ramos ficou desempregado e tinha outros defeitos sociais, era caucasiano, heterossexual e, ainda por cima, do sexo masculino. A sua existência, apesar de tudo, teria sido relativamente ignorada, por assim dizer, passando entre os pingos da chuva, não se desse o caso de ter vencido as mais recentes eleições um partido que levava mesmo a sério os problemas da equidade e diversidade, sendo que este partido fez uma coligação com outras formações de um vasto arco-íris do pensamento mais avançado e progressista.
Após as eleições, houve uma mudança na realidade estrutural, com onda de despedimentos e de novas contratações segundo a linha justa, mas o setor privado foi mais atingido pelo rigor com que o novo executivo encarava o assunto. No Estado também houve enorme razia, pois o anterior governo não fizera o trabalho de casa. Os polícias e militares receberam cinquenta fardas diferentes e as repartições públicas passaram a atender todos os contribuintes em 150 filas heterogéneas, mantendo-se o sistema de senhas, válidas por cinco meses, com prioridade para minorias.
O desemprego de Ramos deveu-se exatamente a esta mudança: foi preciso equilibrar as quotas no local de trabalho e, apesar de ser um bom profissional, o nosso homem foi substituído por uma pessoa de igual competência, mas pertencendo a um dos numerosos sexos alternativos. O empregador conseguiu dessa forma melhorar um pouco os seus indicadores de inclusão, que eram péssimos, não se livrando de pesada multa, por não ter nos seus quadros suficientes membros das 984 minorias registadas nos vários segmentos da diversidade.
Na qualidade de desempregado, Ramos enfrentou duas rondas de formação para membros da maioria opressora, onde o Estado tentou que aprendesse a melhorar as suas competências em matéria de diversidade, reconhecendo o carácter racializado e pós-colonial da sua perspetiva. Teve nota zero no exame, com desvios inaceitáveis, vestígios de ideias ultrapassadas de antiga pessoa e ceticismo em relação à ortodoxia.
Aqui começaram os problemas. A autocrítica de Rodrigo Ramos, na qual este reconhecia o caráter neoimperialista e burguês da sua postura, foi considerada pouco sincera pelos serviços de igualdade de género, sendo detetada uma tendência misógina e patriarcal, que colocou o jovem desempregado sob estrita vigilância da polícia de costumes e linguagem. Os problemas agravaram-se quando foram detetadas certas mensagens privadas que revelavam conduta desviante e machista, adesão às velhas estruturas de poder, além de pensamentos perversos de carácter heterossexual que colidiam com o paradigma neomalthusiano.
Foi nesta altura que as autoridades decidiram colocar Rodrigo Ramos num campo de reeducação. A medida era preventiva, para evitar o cancelamento, mas o governo tinha concluído que havia escassa diversidade na população prisional. Assim, foram libertados alguns membros da minoria facínora, equilibrando-se o caso com a entrada de pessoas que, não tendo cometido crimes de faca e sangue, apresentavam total incompreensão das novas regras de inclusão. Era bem melhor fechá-las longe da vista e procurar reabilitar todas aquelas ideias trogloditas, que foi o que aconteceu a Rodrigo Ramos, que daqui a dois anos já deverá estar inteiramente livre dos seus discursos de ódio.

imagem gerada por inteligência artificial, Night Café

publicado às 12:44

As cautelas do tele-transporte

por Luís Naves, em 19.01.24

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É preciso ter cuidado quando se viaja através de certas formas de tele-transportes públicos que têm ainda algumas dificuldades tecnológicas e outros aspetos experimentais menos benignos. Não me estou a referir à passagem de portões no metropolitano, isso é banalidade, mas de portais através do universo, o que exige muita ciência, pois é preciso desmaterializar a matéria e contrariar uma data de leis da física. É ainda lembrado com saudade o professor Domingos Antena, que faleceu de forma trágica, ao atravessar um misterioso portal e não acautelar devidamente o ponto de destino. Ao escrever estas linhas de aviso para os distraídos, penso sobretudo naquele distinto e afamado investigador.
O portal que se utiliza tem de ser sólido e bem abastecido de energia, mantendo-se aberto o tempo necessário para se alcançar o outro lado. Acontece por vezes que só chega uma perna ou um braço do viajante, quando o portal é subitamente encerrado por falha elétrica, não dando tempo para a passagem atempada de todo o corpo. Quando isto acontece, é difícil reclamar ou exigir o reembolso do bilhete.
Também têm ocorrido episódios de viagens low cost em que a transportadora tenta fazer passar ao mesmo tempo mais de uma pessoa pelo portal, o que por vezes origina misturas, coisa lamentável, os viajantes transformam-se numa espécie de plasticina de carne e trocam de nariz ou de cabelo, o que não será assim tão grave ou irremediável, o pior é quando chegam ao destino com braços trocados, um deles só com braços esquerdos, o outro só com braços direitos, havendo também casos de pernas trocadas, com a simetria estragada, um com duas pernas direitas e o outro com um par de pernas esquerdas, cada um deles mais alto de um lado e mais baixo do outro. Situações incómodas que têm gerado alguma incerteza na indústria, discussões sobre tecnologia e protocolos de segurança mais rigorosos.
São evidentes as vantagens do tele-transporte pelo universo e pelas diferentes dimensões, é óbvio que toda a gente tem direito a conhecer outras realidades. Além disso, os perigos de atravessar portais são relativamente limitados. Viajar pela galáxia em dois segundos pode dar vertigens e até provocar náuseas, mas podemos contemplar grandes maravilhas, não apenas naturais, mas também de civilizações distantes em outros planetas habitados.
Se tenciona viajar através de um portal, verifique o local de destino, faça até dupla verificação, para saber exatamente no que se vai meter. O professor Antena, por exemplo, foi atropelado à chegada, na verdade quase ainda nem tinha partido, por isso é conveniente ter certezas. Não hesite em fazer perguntas ao seu agente de viagens. Tem havido alguns casos, felizmente raros, de viajantes que se fizeram transportar para lugares caóticos: um senhor que eu conhecia foi enviado para o interior de uma estrela e, antes de se quebrar a ligação do portal, ainda cheirou um bocadinho a carne queimada. Houve um caso parecido com o do professor Antena, de uma senhora que foi transportada instantaneamente para uma autoestrada de um planeta avançado e só sobreviveu depois de provocar um choque em cadeia. A senhora não esperava aquilo e ficou muito assustada. As autoridades locais prenderam-na durante mais de um mês, por ter causado um acidente com vítimas.
Por tudo isto, se tiver dúvidas, consulte a proteção do consumidor, utilize apenas portais certificados e não hesite em exigir o seu direito a travessias seguras com tarifas razoáveis. Vamos todos viajar pelo universo, mas de forma responsável.

imagem gerada por inteligência artificial, Bing Image Creator

Este texto é inspirado num conto notável de 1914, da autoria de Mário de Sá Carneiro, A Estranha Morte do Professor Antena, que integra a coleção de novelas Céu em Fogo. A história envolve um professor que faz uma descoberta essencial e morre no que parece ser um atropelamento misterioso no instante em que está a passar para outra realidade. A ideia de mecanismos que permitem aceder a mundos paralelos no espaço ou no tempo é antiga, mas tornou-se comum na ficção científica e na literatura de fantasia no século XX: A Máquina do Tempo, de H. G. Wells, e Feiticeiro de Oz, de Frank Baum, são dois exemplos anteriores ao conto português. A história de Sá Carneiro é filosófica e poética, não usa o termo "portal", mas o professor Antena estava a usar uma tecnologia de sua invenção e fizera uma descoberta científica, até com cálculos matemáticos.

publicado às 12:30

Código de barras

por Luís Naves, em 16.01.24

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"Só queria enviar a encomenda à minha filha, que é professora primária na Madeira. Nasceu o meu netinho em novembro e mandei umas roupinhas para o menino. A caixa nem tinha dois quilos. Os correios mandaram-me um código de barras, para eu poder seguir pelo computador o percurso da encomenda, disseram-me que eu podia saber se o pacote já tinha saído de avião, se já estava a chegar, mas foi aí que começaram os problemas".
"Fiz como eles pediam, carreguei o código do e-mail, mas em vez de saber onde estava a encomenda, apareceram uma coisas esquisitas no ecrã. entrei num sítio cheio de listas e páginas e mapas, aquilo estava tudo em inglês, que é uma língua que não entendo bem, havia gráficos e caixas para clicar, e apareciam vozes a falar de planos, estratégias e ataques, mas não aparecia nada sobre o pacote com as roupas para o meu menino. Carreguei lá nuns botões e aquilo começou a apitar, que até me assustei, e via-se um mapa do mundo e uns traços para um país que penso que se chama Iémen, e vi umas explosões e desliguei aquela coisa toda. Fechei logo o computador, que a minha filha é que me convenceu a ter um, mas acho que aquilo é tudo uma porcaria, não se entende nada".
"Ainda pensei reclamar para os correios, mas nem deu tempo, senhor doutor. Os homens apareceram em minha casa ainda não eram cinco da manhã. O que falava em português disse que se chamava agente Figueiredo, mas que não era esse o nome dele, e acrescentou que a organização para que trabalhava nem sequer existia. Apontou para os outros, que tinham óculos escuros e pareciam estrangeiros, e disse que aqueles também não trabalhavam para organização nenhuma. Levaram-me numa carrinha preta e andámos muito tempo, não sei por onde".
"'A senhora Clotilde imagina o trabalho que nos deu a descobrir onde era este sítio, Rio de Mouro?' perguntou o tal agente Figueiredo, que até procurava ser simpático. Os outros eram carrancudos e falavam com sotaque. Acusaram-me de trabalhar para os chineses, o que é ridículo, senhor doutor, vou às vezes ao restaurante do senhor Wu, as mil delícias de Rio de Mouro, trago para casa um arroz chau-chau ou qualquer coisa de frango com molho de ostras, mas isso não tem nada a ver com trabalhar para os chineses, como eles diziam".
Clotilde Silva parou de falar. Era mesmo convincente. Parecia genuinamente cansada ou tinha um treino genial. Tinha ar de viúva reformada inocente, com encomenda nos correios.
"Isto está com mau ar, Dona Clotilde", disse o advogado, que era um tipo gordinho e careca. "Vou ser muito franco. O caso é bicudo. Eles dizem que a senhora entrou lá nos programas do Pentágono e que houve uns sarilhos internacionais por causa disso. Há dois porta-aviões no Mar Vermelho e parece que acenderam uns avisos laranja. A sua história, essa do código e do correio, enfim, da encomenda com umas roupinhas, não parece lá muito sólida. Assim, não a consigo defender em tribunal. Já foi verificada a parte do restaurante das mil delícias e estavam todos inocentes, mas para si é melhor e mais fácil confessar logo tudo, para conseguirmos uma pena mais leve. Eles só querem saber: se não trabalha para os chineses, então trabalha para quem?"

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publicado às 11:06

História de duas cidades

por Luís Naves, em 12.01.24

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Esta história inteiramente verídica passou-se na Transcarpátia, numa época em que esta região distante ainda era dominada por barões empobrecidos que gostavam de desafiar o poder real. Duas forças fracas deram origem a uma certa autonomia dos burgueses, que tratavam com liberalidade dos seus assuntos e nomeavam livremente os seus juízes. O estranho caso passou-se poucos anos depois da grande peste, que matara muita gente, por isso havia escassez de habitantes e as famílias sobreviventes tinham abundância de terras e dinheiro. Nesse tempo, os enforcamentos de facínoras eram talvez o único entretenimento disponível e as autoridades de Kerekdomb, lideradas por um sapateiro, andavam preocupadas com a falta de enforcados. O último condenado remontava ao período anterior à pandemia, o que era inaceitável.
Quis o destino que o sapateiro encontrasse numa estalagem da estrada de Monos o principal autarca de Farkaslak, um tal Ravasz. Conversaram, trocaram informações e, após uns valentes copos da melhor palinka, Ravasz confessou que tinha na sua cidade um condenado à morte.
"Compramos", disse o sapateiro. "Levamos o condenado para a nossa terra e fazemos lá o enforcamento".
Ravasz era um negociador duro, fez-se bem caro, conseguiu esmifrar o autarca vizinho e estabeleceu-se uma transação de 10 mil florins, que era uma boa soma na altura, equivalente a uma dúzia de luíses de ouro ou uns quarenta marcos de prata.
O problema é que em Farkaslak não havia condenados. Ravasz voltou à sua terra, colocou o problema ao juiz que tinha conseguido eleger e este sugeriu que se vendesse o tonto da cidade, János Piskóta, que era um pobre ingénuo que não fazia mal a ninguém, mas de quem toda a gente se ria devido ao aspeto monstruoso e estúpido. Metade do dinheiro dos burgueses de Kerekdomb seria gasto em melhorias na cidade, o resto dividido de forma justa entre Ravasz e o juiz, à razão de três partes para o primeiro e uma parte para o segundo.
O desgraçado Piskóta assinou um contrato de trabalho vitalício, sem saber bem o que fazia, depois foram discretamente fabricados os papéis da condenação à morte. Por precaução, foi organizada uma campanha de descrédito do pobre diabo e, quando veio a delegação de Kerekdomb buscar o prisioneiro, não houve resistência, pelo contrário, as pessoas aplaudiram aquela venda, riam-se do condenado e achavam justas as melhorias prometidas.
Kerekdomb organizou um magnífico enforcamento, com centenas de forasteiros, grandes consumos nas tabernas, feira agrícola e muita animação. Até o barão veio ver, com toda a sua importante família. O espetáculo foi apreciado por todos.
Neste ponto, o leitor esperava um golpe de asa do autor, mas infelizmente estou limitado pela verdade. Não houve qualquer súbita reviravolta do destino ou milagre, a população não se comoveu, o barão não indultou o inocente, nem se soube de uma inesperada invasão turca que mobilizasse o enforcado para o exército, pois para isso faltavam cem anos.
Piskóta foi enterrado numa campa sem marcas e Kerekdomb teve de esperar três décadas pelo enforcamento seguinte, que calhou a um ladrão de cavalos cujo nome a história não fixou.
Farkaslak gastou todo o dinheiro do enforcado, mas em vez de se tornar a maior cidade da Transcarpátia, como ambicionavam os seus burgueses, foi definhando sem rumo, até se transformar numa miserável aldeia, que um exército otomano invasor, ali de passagem, decidiu incendiar sem qualquer motivo, em 1534 ou 1535, se não me engano.

imagem gerada por inteligência artificial, Bing Image Creator

publicado às 11:50


Autores

João Villalobos e Luís Naves