Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Intolerância

por Luís Naves, em 26.08.13

A morte do professor António Borges provocou ontem nas redes sociais uma onda de comentários repletos de pura intolerância. Julgo que isto obriga a reflexão, pois mostra uma elite sem rumo e uma sociedade doente. No futuro, entre nós, o exercício da liberdade de expressão exigirá porventura maior dose de coragem, pois Portugal regressa a certo grau de ódio político, com o aparecimento de uma nova linguagem totalitária que nem sequer os mortos respeita.

Muitos preferem defender ideias fracas do que admitir um ponto de vista adverso. Para outros, a emoção do desprezo anda ligada à percepção da classe e isto é válido para as diferentes ideologias, tanto para preferências como para embirrações. Neste caso, para além dos insultos cobardes a uma pessoa que já não se podia defender, os comentários tinham uma natureza mais sinistra: houve regozijo, ironias de mau-gosto, frases absurdas, muita insensibilidade e raiva desajustada. Imagino que alguns, 24 horas depois, sintam enjoo pelo próprio rancor.

 

O ‘crime’ de Borges foi ter defendido aquilo em que acreditava. Aliás, ele nem parecia caber bem neste país: a sua carreira política foi fracassada e meteórica. Em Portugal perdoa-se quase tudo, menos a sinceridade. Perdoa-se quase tudo, desde que se faça um jeitinho. Perdoa-se quase tudo, menos aquilo que faz pensar pela própria cabeça. Perdoa-se quase tudo, menos a recusa do compromisso. Perdoa-se quase tudo, desde que não ameace a sonolência nacional.
Os portugueses detestam a franqueza e Borges tinha essa característica estrangeirada de dizer o que pensava, mas o delito não chega para explicar a histeria. As verdadeiras teses do falecido foram sempre distorcidas e esta é uma história demasiado antiga em Portugal: aqueles que a inveja anulou em vida, nem na morte se libertam da calúnia.

A indignação teve um tom de falso moralismo, mas isso já acontecera antes nos comentadores da imprensa.
Uma elite que aplaude a morte de uma pessoa com óbvias qualidades é uma elite incapaz e medíocre.
Temos a sorte de não existirem em Portugal fracturas étnicas ou religiosas, mas quando a política se transforma numa busca de bodes-expiatórios que explicam os nossos fracassos, o jogo está basicamente perdido. A seu tempo, seremos governados pelos hipócritas que dominam a linguagem da intransigência. Teremos protecção face à complexidade da diferença, mas seremos infinitamente mais pobres e menos livres.

 

 

Este post não é sobre António Borges, que conheci de forma superficial. Deixo aqui links para textos de qualidade e autores mais informados sobre o seu percurso:
Francisco Seixas da Costa, em Duas ou Três Coisas, descreve uma pessoa culta, inteligente e com humor.
Maria Teixeira Alves, em Corta-Fitas, elogia o economista e o político.
João Gonçalves, em Portugal dos Pequeninos, recorda a personagem polémica.

Mr. Brown, em Os Comediantes, lembra o economista.

e Tavares Moreira, em Quarta República, faz um elogio fúnebre.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:05




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras