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Um pouco de crítica literária

por Luís Naves, em 24.08.13

Foram publicados na capital do império Klingon alguns clássicos da literatura terrestre. A iniciativa inédita da editora ‘A Palavra é um Chicote’ de traduzir para Klingon os melhores livros do planeta Terra, por enquanto limitada a seis volumes, causou uma pequena sensação nos meios culturais. Os livros terrestres têm merecido recensões nos principais jornais klingonenses. Damos conta de vários excertos das críticas publicadas:

 

A Bíblia
“Livro fastidioso e confuso, com cenas interessantes, por exemplo, a destruição de Sodoma e Gomorra. (…) Esta obra arrasta-se penosamente e os terrestres imaginam um Deus que faz lembrar o nosso Krelkarrar (…) Algumas personagens são sólidas, como Moisés ou o apóstolo Paulo, mas a figura central, um tal Cristo, recusa-se a incinerar os israelitas mais indisciplinados (…) Sinceramente, fiquei intrigado ao saber que este livro é muito apreciado no planeta Terra”.

 

D. Quixote
“A história de um guerreiro que se comporta como um palerma, atacando turbinas movidas a vento. Esta obra vale pela personagem de Sancho Pança, um humano sem teias de aranha na cabeça, que conhece bem as regras da fidelidade e do sacrifício. Este Pança, apesar de tudo, parece estar em má forma física e revela alguma preguiça, que uma rápida consulta da klingopedia demonstra ser uma das principais características dos terrestres”.

 

Ana Karenina
“Na literatura terrestre parece existir uma obsessão pelo sexo feminino, o que não passará de enorme desperdício de papel. É o caso deste Ana Karenina, a história de uma fêmea humana que não sabe o lugar que ocupa. O livro arrasta-se com enormes dificuldades através de uma floresta das chamadas ‘paixões’, palavra sem tradução para Klingon, mas que estará relacionada com aceleração cardíaca, febre, transpiração e dilatação das pupilas, ou seja, uma espécie de constipação. A personagem principal deste livro é, felizmente, atropelada por um comboio”.

 

O Processo
“Livro sobre um personagem chamado senhor K. que é alvo de um processo judicial. Trata-se de uma obra intrigante, que roda permanentemente em torno da circunstância de K. não conhecer a acusação do processo. Lemos este romance com certa estupefacção, interrogando-nos a cada página qual seria o problema, pois teria de haver outro motivo mais sério para criar a intriga. Não havia, era mesmo aquilo. Qualquer réu que se preze sabe que nunca há inocentes. Era só o que faltava, agora, os arguidos conhecerem a natureza dos seus crimes. Não haveria administração de justiça. É evidente para qualquer leitor que K. deve ser condenado, pois se existe processo, alguma coisa fez. Por isso, apreciámos o final mais do que justo”.

 

Os Miseráveis
"A figura central deste romance é um humano de grande estatura que não cumpre a pena a que foi condenado e tenta escapar de um polícia que o identifica. O enfoque do romance devia estar no agente da autoridade, que persegue corajosamente o foragido da justiça, mas por razões que desconhecemos o autor preferiu centrar-se no condenado, a ponto de termos uma suspeita de que o escritor terrestre, chamado Victor Hugo, estava na realidade a defender a possibilidade de um foragido reconstruir a sua existência no seio da sociedade. Uma ideia absurda, naturalmente".

 

Peregrinação
"Entre os terrestres havia uma facção entretanto quase extinta, os portugueses, que terá conquistado partes do planeta Terra num período anterior da história humana. Se este grupo tivesse hoje maior importância, o império Klingon poderia estar em grandes dificuldades, pois segundo se conta neste livro os portugueses tinham uma actuação muito semelhante aos bandos dos nossos adolescentes. Daí que este livro seja de leitura recomendada, excepto os últimos capítulos, onde o autor começa a delirar com conceitos morais de duvidosa utilidade, o que talvez explique a posterior quase extinção da facção dos portugueses".

publicado às 13:59




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