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Um fado português

por Luís Naves, em 23.08.13

Boa argumentação de Mr. Brown, em Os Comediantes, e aqui seguem algumas notas soltas sobre o tema:


1. As notícias sobre a crise de financiamento da Cinemateca não são claras sobre as receitas perdidas pela instituição, mas sugerem que a redução rondará 15%. Há situações piores. Já discordo do que é escrito sobre Manoel de Oliveira. O seu Aniki-Bobó é uma obra-prima do cinema mundial e uma das glórias do nosso século XX. Como é que se diz a alguém que fica na história do cinema que não há dinheiro para ele filmar?
 
2. A propósito, julgo que a cultura tem mais a ver com a glória das nações e é interpretada dessa forma por outros países. A Espanha, por exemplo, sabe que a sua projeção internacional implica uma literatura pujante, cinema criativo, património arquitectónico preservado. Na Hungria existe enorme preocupação com a sobrevivência da língua e todas as cidades médias têm teatros e óperas. Quando entramos numa livraria húngara, a parte da literatura nacional é sempre maior do que a internacional. Os leitores conhecem os grandes autores mundiais, mas não dispensam os escritores húngaros.
O contraste com Portugal é evidente: cidades a caírem de podres, o não aproveitamento de uma língua de 200 milhões, jornais sem secção cultural ou com esta dedicada a espectáculos, além de polémicas saloias, enfim, a pobreza franciscana.

 

3. Em relação ao cinema europeu, existe um factor que perturba o tal mercado de bens culturais. Refiro-me à ditadura da linguagem de Hollywood, fenómeno que está a secar todas as outras formas e que poderá expandir-se para a literatura na forma dos híper-best-sellers, algo que só ainda não matou a escrita porque publicar um livro é mais fácil do que produzir e distribuir um filme. Se as pessoas só virem filmes americanos, serão incapazes de compreender a linguagem de um filme de Oliveira. Se só lerem Dan Brown [nenhuma ligação a Mr. Brown] serão incapazes de apreciar Tolstoi.

 

4. Alguns filmes americanos custam 250 milhões de dólares e usam exactamente três neurónios, nenhum deles do autor do filme. Por vezes facturam milhares de milhões, apoiados em campanhas de marketing que usam a técnica do bombardeamento de tapete.
Hollywood é um bom exemplo de imperialismo cultural que não se combate com quotas. Há comentadores que atribuem as baixas receitas do cinema português (e europeu) a uma alegada falta de qualidade, mas a explicação não permite compreender esta tabela. Reparem no filme ‘português’ que teve a melhor receita e depois olhem para o fundo. Como é que se explica que um filme tenha 32 espectadores em 15 sessões de exibição e uma receita bruta de 177 euros?
Talvez haja explicação racional ou o filme foi assassinado pelo distribuidor ou não teve marketing, mas este quadro é eloquente sobre o estado da cultura portuguesa. Se virmos com atenção, as receitas são diminutas, tendo em conta que a exibição cinematográfica representa um negócio anual de 70 milhões de euros. Os filmes são todos assim tão maus ou não chegam às pessoas? Havendo aqui dinheiro público, do Estado português e da Europa, isto é ainda mais incompreensível.
Será que fomos deliberadamente afastados dos nossos autores? O facto é que estamos viciados em televisão e o nosso consumo de bens culturais resume-se a livros estrangeiros comprados na língua original inglesa, a séries importadas faladas em inglês e a televisão por cabo, de preferência com overdoses de bola. Ignoramos e desprezamos o que alguns persistem em fazer, por resistência, pelo que em breve não teremos nem cinema nacional, nem literatura, nem visão própria do mundo.

 

5. (Fartei-me de usar palavras inglesas...). Só uma frase mais, para justificar a imagem em cima: estamos a falar de um país com fortíssima identidade nacional, o que torna tudo ainda mais bizarro.

publicado às 18:26




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