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Vígaros em lá menor

por Luís Naves, em 14.07.13

Em O Conto do Vigário, um filme de Federico Fellini realizado em 1955, três pequenos bandidos enfrentam a angústia da culpa. Na aparência, são grandes senhores (fingem ser um bispo, o seu secretário, o motorista), desembarcam num carro americano, mas de facto não passam de fracassados, que se dedicam a enganar gente simples. É especialmente cruel a cena em que prometem ‘acelerar’ o processo das casas novas da câmara, vindo ao bairro de lata recolher as rendas adiantadas. O filme subverte a mitologia católica e parece seguir a sequência de pecado, expiação e redenção, mas aqui não há a última fase, apenas castigo. Augusto, a personagem central (o actor americano Broderick Crawford) é desmascarado em frente à filha e pensamos que se envergonha das falhas, mas estamos enganados: ele não pode sair da sua própria fraqueza de alma.
Uma curiosidade: na cena do clube nocturno, onde verificamos a profunda solidão de Augusto, ouve-se em fundo uma música, Coimbra, num arranjo de Nino Rota em forma de mambo.

 

O segundo filme de Fellini é uma comédia amarga sem a qualidade de obras posteriores. O realizador italiano inventou um estilo muito próprio, onde a mistura da realidade e da fantasia lembram os mecanismos literários a que hoje chamamos de realismo mágico, embora a designação recente ignore autores que praticavam esta forma de contar histórias muito antes da expressão ser inventada. Estou a lembrar-me de Gyula Krudy, um escritor húngaro ‘felliniano’ (um absurdo, o que escrevi, pois ele nunca viu nenhum filme de Fellini), mas cuja obra, sobretudo anterior à Primeira Grande Guerra, está repleta de sonhos, símbolos, impressões, falsas realidades.
É estranho como tudo isto, sem relação aparente, mergulhou da mesma forma no esquecimento. A canção Coimbra de Raul ferrão perdeu importância e está ligada à nossa memória do passado distante ou vive em forma de mambo. O escritor húngaro só é conhecido na sua pátria. O próprio Fellini é hoje uma sombra do que foi, sendo desconhecido das gerações mais jovens.

Os filmes de hoje, dominados pelo triunfo total da linguagem de Hollywood, têm a tentação de abandonar os territórios literários e apostam sobretudo no fogo-de-artifício tecnológico. As histórias são débeis e a indústria entregou às séries de TV a ficção séria.


Estamos porventura numa transição para algo melhor. A arte é como uma tela em que cada época pinta constantemente uma nova camada, escondendo quase tudo o que estava à superfície. Nem sempre a pintura que fica é melhor do que a anterior, pode mesmo ser bem pior, mas é estranho como desaparecem tantos elementos admiráveis da pintura anterior, agora escondidos sob a nova camada. Podemos procurá-los debaixo da tinta opaca, ainda mal seca, mas muitos destes elementos nunca mais serão relevantes. É triste que o passado glorioso vá ficando cada vez mais invisível, mas ele já foi feito assim, ele próprio escondeu uma camada outrora brilhante à sua maneira.
Esta ideia é explorada em vários filmes de Fellini. Nunca me esquecerei de um diálogo da Cidade das Mulheres, em que um coleccionador explica a Marcelo Mastroiani que a grande arte é concebida na fase decadente das civilizações.

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publicado às 18:16


2 comentários

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De Luís Naves a 27.07.2013 às 10:17

Agradeço muito esta rectificação e peco desculpa aos leitores pelo meu lamentável erro. Teria bastado uma simples consulta ao google.

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