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O milionário frívolo

por Luís Naves, em 20.08.13

A blogosfera assanhou-se contra a entrevista de Judite de Sousa a um milionário e tenho lido comentários que transformam a jornalista numa verdadeira delinquente e o entrevistado num delicado anjo sacrificado no altar do preconceito social. A hipocrisia nacional nunca deixará de me surpreender, sobretudo a das nossas elites. Claro que o preconceito social é ao contrário: quem é esta Judite para criticar um bom milionário português ou luso-brasileiro, ou lá o que é?

Já abordei a questão mediática em post anterior, esquecendo-me de adiantar que a jornalista fez as perguntas que devia fazer, incluindo o tom de agressividade adequado, tendo em consideração que o motivo da entrevista era o facto de Lorenzo dar festas luxuosas e ostentar a sua riqueza. No início da década de 70 houve um caso de uma festa opulenta que escandalizou o País, portanto a entrevista tinha relevância noticiosa.


Os nossos blogues liberais têm defendido parolamente que os milionários fazem o que quiserem ao seu dinheiro. É a tese de que no sistema capitalista não há responsabilidade social. Os pobres podem gastar os seus subsídios de desemprego em vinho e escusam de poupar, os capitalistas podem gastar em festas, que isso será útil para as pujantes indústrias do catering e da limpeza de piscinas.

Há muitas razões para o nosso atraso e uma delas está patente nesta polémica. O milionário Lorenzo teria sido sacrificado na TV alemã ou sueca, se fosse alemão ou sueco, pois nestes países os ricos também têm responsabilidades e não podem andar a dissipar depressa o seu património. Os liberais deviam admirar apenas aqueles milionários que se transformam em bilionários, porque pouparam, investiram e criaram riqueza e empregos.
Antes desta entrevista desconhecia a existência do milionário frívolo que estoira a sua fortuna num momento de crise aguda, mas acho mais preocupante a tendência de alguns para desculpabilizar comportamentos que nunca são tolerados aos pobres. Se eu gastasse o meu subsídio de desemprego em festas de 900 euros, isso não era adequado, pois não? Não podia ser considerado um comportamento responsável, porque as pessoas têm de facto de ter cuidado na forma como gastam o seu dinheiro, para não serem um peso para os outros ou para fazerem alguma coisa pelos outros. O dinheiro não cai do céu: os desempregados devem cortá-lo às fatias pequenas para durar até ao fim do mês e os trabalhadores devem poupar o que puderem. Os ricos, esses, têm obrigação de investir e de criar riqueza, têm obrigação de não ostentar, têm obrigação de pensar na comunidade.

publicado às 12:04


6 comentários

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De Carla Ferreira a 20.08.2013 às 17:15

A responsabilidade social está mortiça, conjuntamente com tantos outros valores. A culpa? Da sociedade no geral. Há coisas que nos incutem desde o berço, eventualmente pela vida fora. Quando os ensinamentos são contrários, chegamos onde estamos. Há tanta crise para lidar, além da financeira...
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De José a 20.08.2013 às 17:38

Não sei se conhece pessoalmente a Judite de Sousa, mas digo-lhe que ela é terrível (como pessoa, não como jornalista). Infelizmente já estive numa empresa que trabalhava com ela e reconheço que nunca vi ninguém com uma mania de superioridade tão grande como a Judite. Praticamente todos os funcionários da empresa eram espezinhados, sinceramente, acho que só não fui maltratado como os outros porque ela sabia que o contrato dependia de mim (eu era um dos membros da direção daquela empresa, na altura, e a RTP não queria que ela fizesse asneira). Quando aquele contrato da empresa onde trabalhava com a RTP chegou ao fim, jurei nunca mais trabalhar com a Judite de Sousa. Tudo isto para lhe dizer que até aceito o seu ponto de vista, mas não acho que Judite de Sousa tenha qualquer dignidade para falar das frivolidades dos outros, quando ela faz o que faz.
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De Luís Naves a 20.08.2013 às 18:08

Conheci Judite de Sousa em trabalho e fiquei impressionado com o seu profissionalismo, mas o debate não é sobre as qualidades pessoais dos intervenientes nem sobre frivolidades. O que está aqui em causa é se um comportamento ostentatório de um rico pode ser considerado inócuo. Terá o milionário responsabilidades para além das normais, como pagar impostos e cumprir as leis? Eu considero que sim, que tem a obrigação de não ostentar a sua riqueza e de respeitar a comunidade em que vive.
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De carla a 21.08.2013 às 00:23

É certo que todos nós podemos fazer o que queremos como o nosso dinheiro, mas é vergonhoso tendo em conta a situação do país alguem gastar uma fortuna em festas e coisas sem utilidade nenhuma.
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De Paulo Júlio a 21.08.2013 às 18:47

Tomei a liberdade de partilhar este comentário na minha página do facebook.
Afinal não estou sozinho, por momentos pensei que sim com tantas criticas à Judite de Sousa e tanta idolateria a um rapazito desconhecido...
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De Mariposa Coloridav5skzcu a 21.08.2013 às 20:25

Só venho aqui dizer-lhe que foi a crónica mais adequada e consciente que li sobre este assunto. No meu blogue pessoal defendi exactamente esta posição. Parabéns. Excelente post.

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