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Outro duelo decisivo

por Luís Naves, em 15.08.13

O agravamento da situação no Egipto parece ter poucas saídas, com a possível radicalização da Irmandade Muçulmana, o aumento da tensão religiosa e o endurecimento da repressão do exército. Os próximos dias serão decisivos para determinar quem vencerá este braço-de-ferro, que ameaça comprometer as hipóteses de democratização do mundo islâmico e destruir uma economia já de si demasiado frágil.
O exército seguiu o seu instinto histórico e tomou o controlo, derrubando o presidente eleito, Mohamed Morsi, e tentando ao mesmo tempo anular a Irmandade Muçulmana, que parecia incapaz de compromissos mínimos, ao avançar com o que muitos egípcios consideram ser a excessiva islamização da sociedade. Os militares formam um Estado dentro do Estado e existe a tradição do seu domínio, mas neste caso podem ter dado um passo maior que a perna. Se inicialmente o derrube de Morsi não desagradou aos ocidentais (Europa e EUA), mais preocupados em evitar perturbações no Canal do Suez e no Sinai (com Israel), a recente violência terá alterado esta visão benevolente.


 

Não é possível negar o poder a uma força política que teve mais de metade dos votos em duas eleições livres e certamente não é possível continuar a fazê-lo matando centenas de civis nas ruas. Se quiserem anular a Irmandade, as forças armadas egípcias correm sério risco de enfrentar uma insurreição interna, de efeitos imprevisíveis.
A Irmandade terá de lamentar a própria inépcia e mudar de estratégia. Após viver 90 anos na clandestinidade, o movimento esteve perto da meta, mas estragou tudo ao não respeitar os partidos seculares. O Egipto saiu de uma ditadura, não tem a cultura do compromisso e as suas instituições são débeis, à excepção do exército, mas a radicalização do movimento será um erro ainda maior, pois a Irmandade não pode vencer os militares. Por outro lado, hostilizar a comunidade copta só aumentará as divisões e essa não é uma opção para quem deseje subir de novo ao poder.


Os ocidentais têm um dilema difícil de resolver: não podem tirar o tapete ao general Abdel al-Sisi nem deixar cair o presidente Morsi. Os militares terão de refrear a mão dura e abrir um caminho qualquer que permita o diálogo. O partido da Irmandade, Liberdade e Justiça, terá de aceitar dialogar, o que implica disponibilidade para eleições antecipadas ou para uma solução de poder interino que inclua islamitas e seculares.
O Egipto não poderá funcionar por muito tempo nas actuais condições de violência crescente, pois este país é vital para a estabilidade do Médio Oriente e uma das referências culturais mais importantes para os árabes. A solução é o diálogo, mas para isso é necessário que os dois lados deste conflito compreendam que têm mais a perder com a continuação do duelo nas ruas.

publicado às 23:13




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