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E no entanto move-se

por Luís Naves, em 13.08.13

A imprensa de hoje antecipa a divulgação de números oficiais que apontam para o crescimento da economia portuguesa no segundo trimestre. Este anúncio, a confirmar-se, será coerente com a recente divulgação de dados sobre o emprego, onde surge a primeira criação de trabalho após cinco anos de declínio que ocorreu a ritmo médio de quase dez mil empregos perdidos por mês ou 300 diários (durante cinco anos, sim).
Também amanhã, a nível europeu, serão divulgados números sobre o crescimento e tudo indica que a recessão acabou na zona euro. A Alemanha está a crescer de forma robusta e a própria Espanha revela indícios de recuperação, com as taxas da dívida soberana em queda.
Estas notícias serão certamente recebidas de forma céptica por uma esquerda que até agora acreditou na fábula da espiral recessiva ou que embarca facilmente em fantasias sobre call centers a competir com a Índia. O lado governamental, por seu lado, resistirá à ideia de atribuir o mérito a quem o tem ou de interpretar os números com o grão de sal que eles merecem.

 

Se estamos num ponto de viragem isso será em primeiro lugar a confirmação do acerto da estratégia da chanceler Angela Merkel, seguida pelo ex-ministro das finanças Vitor Gaspar. Será mérito igualmente do ex-ministro Álvaro Santos Pereira, que durante dois anos foi atacado pela oposição e pela imprensa de forma sistemática, para o despedirem como uma sopeira, por ser independente e não ter apoios partidários.
Os números confirmam as teses da troika de que era necessário fazer reformas ousadas e conter o crescimento da dívida, mas eles serão sobretudo usados para justificar o fim do processo de mudança. É tentador reduzir a dimensão da chamada “reforma do estado”, que não passará provavelmente de um conjunto de cortes substanciais na despesa, menores do que os previstos. Estes cortes serão cegos e, por isso, ao lado do alvo. A questão não está na quantidade, mas na qualidade, e um Governo em função há dois anos tinha obrigação de saber onde se encontram as redundâncias do Estado e as suas ineficiências. Depois, tinha a obrigação de não hesitar.

Na direita, alguns vão embandeirar em arco com os números positivos, mas Portugal ainda não resolveu os seus crónicos problemas estruturais. Haverá desemprego alto durante anos, sobretudo de longa duração, não se vislumbrando nesta matéria qualquer preocupação dos responsáveis, que só falam em desemprego jovem. Continua a não existir investimento ou crédito e, por isso, o crescimento será magro durante vários anos. Além disso, a diferença entre gastos e receitas do Estado continuará a ser deficitária, sobretudo se a reforma do Estado abrandar ou fracassar. Os nossos problemas económicos não foram resolvidos, como não foram solucionadas as tensões políticas da coligação.

 

O facto de haver crescimento e, provavelmente, uma inversão europeia contradiz o que muitos comentadores estiveram a dizer durante estes dois anos. A notícia será minimizada e atribuída a factores alheios à política: sazonalidade, efeitos temporários ou atrasados, puro acaso.
Os números vão exigir leitura europeia, pois eles sugerem que a estratégia da Alemanha para solucionar a crise na zona euro começa a dar frutos. Sobretudo, estamos a ver a luz no fundo do túnel e isso não pode nem deve ser desvalorizado, mas Portugal continua sob resgate e perigosamente endividado, pelo que qualquer erro, omissão ou hesitação resultará no prolongamento da situação de soberania limitada. Portugal só regressa aos mercados em 2014 se continuar a revelar a coragem e a determinação que mostrou nos meses mais difíceis do ano passado, quando parecia que a algazarra radical e a histeria dos comentadores iam mandar no País. 

  

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publicado às 12:20




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