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Velhas fotografias

por Luís Naves, em 12.08.13

Sem uma história que as possa explicar, estas velhas fotografias deixam de fazer sentido. Quem eram estas pessoas que sorriam ou que enfrentavam a objectiva com tanta desconfiança? Nem sequer reconheço as fatias de paisagem em pano de fundo. Seriam destas aldeias ou de outras? E as casas, a quem pertenciam?
A mistura entre roupas ricas e pobres diz aparentemente muito, mas escapa-me o sentido do contraste. Uma das caras parece familiar, parente minha, certamente, mas com que grau de parentesco? Seria a tetravó ou uma das suas primas?
Sem uma história que suporte as imagens, elas parecem desarticuladas e um pouco inúteis. Era um almoço de aniversário ou o casamento de alguém, vejam, este iria casar com aquela mas ainda nenhum dos dois sabia ou talvez já toda a gente o adivinhasse por ser inevitável, estava escrito na sua felicidade.

Vejam, aquela velhinha no canto esquerdo morreria pouco depois de posar e isso era já visível no esgar de dor contida, o cancro e as suas metástases. Vejam aqui este homem satisfeito, com os dedos no colete e o sorriso rasgado, perderia tudo na praga de filoxera que matou as vinhas, vejam ainda este casal triste, olhem com atenção, estão quase na sombra do grupo, tiveram uma história de amor trágico, mas só lhe conheço farrapos, foi contada em sussurros por uma tia, quase clandestinamente, muitos anos atrás, e vejo-os agora nesta outra imagem, mas ainda imprecisos, pois a sombra da oliveira altera-lhes as feições. Como seriam mesmo? Belos? E o que aconteceu?


E esta mulher, como se chamava? Precisaria de mais imagens para perceber quem era. A irmã de alguém, a filha de alguém, talvez a namorada de alguém. Sim, isso explica. Não era da família, nunca foi, não passou de um sonho.
As pessoas olhavam de frente para a câmara. Não há perfis, nem riso nem choro, e todos se escondem na roupa que vestem e, se ninguém me contasse, nunca saberia quem eram estas sombras de sépia desmaiado. Um avô aqui, ali o pai dele, mas sem que isso seja visível, diria que eram contemporâneos, ou até o primeiro anterior ao segundo. E vejo muitas mulheres que nunca casaram, cujos nomes desconheço.


Não há vento nas imagens, nem cores, nem odores, nem vozes. Imagino que com as vozes tudo seria diferente. Ouviríamos comentários, as breves banalidades que explicam tudo, o riso dos pequenos, as gargalhadas e o vozear da brisa e o ruído de fundo dos animais, o relinchar de um cavalo que não se vê na fotografia.
Há uns rabiscos nesta, são letras, talvez números, mas não os compreendo.
Vejo todas estas imagens e interrogo-me sobre o que se estaria a passar nelas. Que memórias queriam agarrar? Visitas, encontros, passeios, casamentos? Tudo passa, mesmo agarrado.
Sei que são os homens e as mulheres anteriores a mim, mas não os consigo colocar na grelha do tempo. As suas histórias estão esquecidas, verdadeiramente mortas para sempre. E em breve, um dia, vou juntar-me a eles, serei mais uma história anónima, um sorriso vago, o olhar desconfiado na direcção da câmara, e o instante que ninguém conseguirá descodificar. Serei um tio afastado, talvez um primo ou talvez nem parente fosse, uma fotografia a preto e branco entre um monte delas. 

publicado às 19:15




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