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A Europa extinta

por Luís Naves, em 07.08.13

A memória é uma das matérias-primas da literatura, mas as biografias de escritores são sempre inferiores à sua obra e isso é mais verdadeiro quanto melhor o escritor.

Aos textos biográficos falta muitas vezes a autenticidade que se torna mais fácil no romance, onde as vivências podem sempre usar o disfarce das personagens. Há casos em que os episódios da vida real ajudam a explicar um determinado livro ou o enriquecem, mas também existem exemplos inversos, onde os autores têm vidas de tal forma pacatas que a sua verdadeira força está na imaginação.

Enfim, o diário e a autobiografia são construídos à volta daquilo que o escritor pode omitir, pois o papel não é o melhor confessionário.

Apesar destas limitações, há autobiografias interessantes, nomeadamente as descentradas do autor, quando este não é o sujeito da história, mas uma espécie de repórter comprometido. É o caso de A Vida de Ontem, de Stefan Zweig, onde se encontram notas sobre personagens famosas e descrições muito vivas da transformação que a Europa sofreu nos primeiros trinta anos do século passado.


 

Este livro é também uma profunda reflexão sobre a extinção da cultura burguesa e do estilo de vida europeu a que uma pequena elite se dedicava antes da Primeira Guerra Mundial. As observações de Zweig permitem entender que o idealismo dos intelectuais era superficial e depressa as pessoas mais brilhantes se tornaram nacionalistas. O autor assistiu incrédulo à destruição do espírito europeu, à ascensão das ideologias totalitárias e ao anti-semitismo, finalmente ao fim da sua Áustria. O livro torna-se progressivamente mais pungente e difícil, ao tombar essa cruel escuridão sobre a Europa dilacerada.

Qualquer europeu ou crente na União Europeia dirá hoje que vive num estado de paz eterna, tal como o jovem Zweig julgava viver. O mundo encheu-se de inovações que surpreendem e é governado por elites cultas e esclarecidas. O desenvolvimento económico criou vastas classes médias. As pessoas vivem em conforto e segurança. No mundo de Zweig, as pessoas espantavam-se com o zeppelin, aplaudiam os feitos do aeronauta Bleriot; nós também assistimos a uma espantosa mudança nas comunicações e comovemo-nos da mesma forma com as injustiças e desordens económicas.
A crise a que assistimos está a afastar os países europeus, tal como a ambição imperial os separou antes de 1914. Só que, agora, as divisões são diferentes, entre ricos e pobres, sul e norte, leste e ocidente, periferia e centro.

 

Na autobiografia, Stefan Zweig explica a sua própria obra literária, dizendo que via sempre o “trágico nos vencidos”. Os grandes autores com quem convivera não eram reconhecidos fora de um pequeno círculo. O escritor austríaco refere que, entre 1900 e 1914, não vira qualquer referência nos jornais franceses aos três grandes escritores da França, Paul Valéry, Marcel Proust ou Romain Rolland, que “tinham mais de 50 anos quando um primeiro raio ainda tímido de renome os atingiu”.
Depois da guerra, houve uma mudança nos gostos literários e o autor austríaco, que começou a escrever tardiamente, tornou-se famoso. Sempre tivera uma vida de privilégio, não devia considerar-se vencido, mas por ser judeu Zweig começou a sentir-se um corpo estranho, com os livros queimados nos territórios de língua alemã. A biografia não inclui os anos posteriores a 1938 quando, transformado em apátrida, Zweig foi um dos desesperados refugiados que vaguearam pela Europa, até chegarem a Lisboa, para depois partirem na direcção da América.
O escritor austríaco fugiu para o Brasil e foi ali que se suicidou com a mulher, em 1942, pouco depois de terminar este O Mundo de Ontem, cujo manuscrito enviara pouco tempo antes aos editores. O autor não quis ficar para ver o fim da sua própria história, pois não acreditava que a Europa pudesse sobreviver à grande tempestade.


Em pano de fundo, vemos toda esta tragédia dos vencidos, mas estamos longe de imaginar a terrível situação do autor daquelas linhas e a sua profunda depressão. O desencanto transformara-se em desistência, mas isso é ainda invisível para o leitor, pois as autobiografias costumam omitir os gritos mais desesperados e os silêncios mais insuportáveis.

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publicado às 19:34




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