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Do Tratado sobre a Mudança

por Luís Naves, em 07.01.14

A esquerda contemporânea enfrenta o problema de parecer cada vez mais conservadora. Isto significa que ganhou a imagem de resistir às inovações sociais e até de contestar a modernidade. O mundo tornou-se financeiro e a esquerda resiste; o mundo está globalizado, mas a esquerda é contra. Nos últimos anos, os grupos mais radicais tornaram-se intransigentes em relação à própria liberdade de pensamento, contestando aquilo que classificam de ideias retrógradas, como a religião. Para citar apenas um exemplo, tornou-se frequente a ridicularização de cristãos e isso é geralmente aceite pela intelectualidade, onde a esquerda é preponderante.
O fim da Guerra Fria tornou a ordem mundial mais fluida. Havia duas superpotências e a sua relação era rígida e perigosa; agora há só uma, mas acompanhada por três potências e um bloco de aliados. O sistema deixou de ser inflexível. A China comunista, por exemplo, pode garantir a sua capacidade de acção a médio prazo, se ficar próxima da Rússia e não hostilizar os Estados Unidos. A estratégia das nações libertou-se de considerações ideológicas. Quando o mundo tinha idealismo, os partidos de esquerda defendiam princípios. Agora, ao explicarem a sua versão do interesse nacional, parecem muito mais cínicos.
Nas sociedades fragmentadas em que vivemos, a esquerda resiste ao desaparecimento das ideologias e tenta inventar uma nova linguagem baseada em causas, a que se costuma chamar o ‘politicamente correcto’. Estas ideias mobilizam apenas pequenos grupos, mas tornaram-se obsessivas. E os activistas têm levado a defesa de causas limitadas a extremos que a população não compreende. É por tudo isto que os partidos de esquerda parecem hoje mais iliberais e moralistas do que os de direita. A esquerda é hoje menos tolerante e mais crispada. No tempo da Guerra Fria era bem diferente.

publicado às 11:55




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