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Vizinhos na estante

por Luís Naves, em 28.07.13

Os livros têm afinidades uns com os outros e por vezes formam na nossa cabeça famílias estranhas, devido à vizinhança que partilharam na sequência de leitura. Dito de outra maneira, cada leitor cria uma memória literária única a partir da cronologia dos livros lidos ou de uma outra associação puramente fortuita entre dois volumes, por exemplo, o facto de terem vivido lado a lado numa determinada biblioteca.
Estava a divagar na meia sonolência e recordei pormenores de Spartacus, um livro de Howard Fast que li na adolescência. Então, misturaram-se lembranças difusas de outro romance sem relação aparente com o primeiro, O Pavilhão dos Cancerosos, de Alexander Soljenitsine. E ao ficar intrigado com tal casamento, envolvi-me na busca de uma relação entre os dois livros que pudesse explicar a associação de ideias.

 

Não gosto particularmente de romances históricos (adoro romances no cenário da História), mas li Spartacus talvez aos 15 ou 16 anos e aquilo mexeu comigo. Talvez fosse o trabalho de definição das personagens, talvez o sentido épico das peripécias e das batalhas, o realismo bruto e o erotismo, enfim, o conjunto era impressionante para um jovem leitor. Ainda hoje gosto de temas romanos e Howard Fast (um escritor entretanto esquecido) é provavelmente o culpado.
Mas como é que daqui fui parar ao Pavilhão dos Cancerosos, mais literário e repleto de personagens complexas, em situações ambíguas, um romance difícil de visualizar e que esconde a informação? Julgo que na minha memória os dois livros estão associados por uma razão simples: eles estavam juntos na estante e devo ter feito a sua leitura em sequência, um a seguir ao outro, Spartacus antes do Pavilhão, o empolgante e depois o misterioso.

 

No tempo em que despertei para estas leituras, começavam a ser conhecidos os horrores do gulag e Soljenitsine era um gigante. O Pavilhão dos Cancerosos é um excelente romance e acho notável a forma como o autor conseguiu juntar a sua galeria de personagens, um microcosmos da sociedade soviética, numa situação de tal fragilidade, onde cada um enfrenta o abismo da morte. Temos até certa compaixão pelos que denunciaram e que um escritor menor teria transformado em figuras perversas.
Neste aspecto, Spartacus é mais simples. Fast escreveu o livro como acto de resistência ao macartismo. O romance foi adaptado ao cinema e muitos críticos dizem que este é o pior filme do realizador Stanley Kubrick. Talvez seja, mas estamos a falar de um dos maiores do cinema.
Soljenitsine está nesse patamar dos génios. Já escrevera o seu livro mais importante, Um Dia na Vida de Ivan Denisovitch, que devo ter lido por esta altura, mas mais tarde do que o Pavilhão. Li-o certamente quando era demasiado jovem, pois não entendi bem o sentido daquele sofrimento. Só na segunda leitura, anos depois, vi a obra-prima. Para além da pureza na construção da novela, o golpe de asa está no facto daquele dia ser triunfal: o protagonista, Ivan Denisovitch, consegue vitórias ao longo do dia, a dose extra de sopa, os cinco minutinhos de calor, as trocas bem sucedidas, evitar sarilhos, enfim, a sequência de batalhas ganhas que representam a sua sobrevivência dá a verdadeira dimensão da brutalidade do sistema.

 

Os seres humanos têm necessidade de histórias, provavelmente por estas serem tijolos de aprendizagem sem os quais não haveria verdadeira sabedoria. O processo narrativo existe em todas as culturas e a nossa civilização criou um acervo literário de alta complexidade, que pode ser lido de muitas formas, em sequências diversificadas, que moldam pessoas diferentes entre si. Esta tradição é a nossa maior riqueza e cada um de nós, tantas vezes de forma involuntária, cria e recria em cada leitura a sua própria consciência.
Os leitores crescem e mudam. A sua memória dos livros também se transforma. Os volumes alinham-se numa biblioteca mental onde se casam objectos que, para outro leitor, estarão estranhamente associados.
Ah, estes dois não deviam ficar juntos, dirá alguém. Mas estarão sempre, pelo menos para mim. Foram lidos numa tal proximidade que na minha imaginação se tocaram e contaminaram. Vendo bem, os dois livros têm temas próximos, a luta pela libertação da escravatura e o combate inglório pela verdade. Em qualquer circunstância ou universo, os homens sonharão sempre, mesmo que estejam consumidos pela morte ou esquecidos após as suas derrotas.

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publicado às 20:09




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