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A testemunha (conto da semana)

por Luís Naves, em 18.12.13

Pouco depois, começou a falar. O agricultor Fonseca ouvia, mas distraído. O velho estava a lamentar-se com amargura, mas quem é que, por estes dias, não possui razões de queixa?
   − Tenho muito medo do que aí vem − disse o velho.
   Por um instante, o vizinho Fonseca saiu da sua distracção, lamentando não ter fixado na memória o que ele dissera antes daquela frase. As palavras finais tinham surgido de uma maneira um pouco diferente, como uma dor de alma que era apelo, aviso ou ameaça. Perguntou ao velho que era isso de ter medo, mas recebeu em troca um olhar de desprezo, quase de ódio. Insistiu, queria uma explicação, isto não anda fácil para ninguém, mas a resposta foi o silêncio e, por isso, ficou a matutar que o tom de voz usado tinha sido preocupante, não houvesse ali uma história mais complicada.
   Pelo menos foi isto o que o agricultor contou mais tarde ao comandante dos bombeiros; com aquele aparato todo na aldeia, parecia-lhe importante a frase que ouvira do velho e que fizera tocar as sinetas de alarme, embora sabendo que àquela conversa faltava o início, pelo que nunca as palavras ditas o tinham levado a algum sítio concreto, como aliás acontece com a maioria das conversas em cafés à hora de fecho. Que era isso de ter medo do que aí vinha, tio Jerónimo? Mas o velho ficara calado, a olhar para ele, talvez zangado, ao perceber que falara para uma parede e que essa parede não compreendera nada. E, de súbito, levando o copo à altura dos olhos, o velho dissera “à nossa” e bebera o último bagaço de uma só vez.
   − Mas ele andava preocupado com alguma coisa? − Perguntou o bombeiro.
   − Que eu saiba, não.
   − E o senhor contou a alguém o que ouviu?
   Fonseca respondeu que não e o bombeiro encolheu os ombros, subitamente desinteressado. Deu umas ordens: para que ninguém passasse uma linha imaginária que tentou desenhar com as mãos, pois tinham de esperar pela polícia. E assim se fez, esperaram pela polícia, que chegou quase uma hora depois. O corpo ficou todo esse tempo ali torcido, grotesco, à vista dos curiosos, a cara desfeita pelo tiro, de tal forma que já não se reconhecia o velho, senão pelas roupas.

Foi assim o suicídio do velho Jerónimo. Bebeu o último bagaço no café, depois de ter desabafado com o Fonseca, foi para casa, pegou na caçadeira, sentou-se à porta e premiu o gatilho. O disparo esmagou-lhe o queixo e o céu-da-boca e a base do cérebro. Toda a aldeia ouviu o tiro e houve quem corresse segundos depois do estrondo, para encontrar o triste espectáculo do cadáver, que parecia um boneco com a espinha partida, os miolos espalhados na porta e a desenharem um arco, como se fosse vómito.

   O tempo passa sempre devagar nestes lugares. Durante uns dias, não houve outra conversa na aldeia. A maioria pensava que o velho era má rês e não se dava com ninguém, que se matara à vista de todos para os agredir de alguma maneira. Era o seu último insulto à comunidade que antes o rejeitara e essa ideia, por si só, foi tranquilizando os espíritos. Passadas algumas semanas, quando o incidente era comentado, havia certo desprezo pelo velho, cuja loucura bem podia ter levado alguém inocente. Depois, deixou de se falar no assunto, e o tempo foi passando sem mais tropeções memoráveis.
   Foi nessa época de inverno que Fonseca começou a beber mais, sobretudo nas últimas horas da noite, antes do fecho do café onde os homens da aldeia passavam os serões. Os amigos viam que o agricultor andava diferente, mais metido nos seus problemas, e pensaram que havia questões de dinheiro ou talvez divergências em casa, matérias em que ninguém deve meter o bedelho.
   Depois, o agricultor começou a fazer uma coisa estranha. Quando o café ia fechar, saía do silêncio, dizia “à nossa”, erguia o copo de bagaço à altura do olhar e, num gesto rápido, engolia o líquido de um trago. Só então deixava os outros, sem dizer boa noite. O seu primo Duarte, que andava preocupado, seguiu-o uma vez e descobriu que, para ir para casa, ele fazia um desvio pela habitação onde morara o velho Jerónimo, e que estava abandonada na escuridão, sem mais vestígios de quem a habitara de forma tão trágica. Era ali que Fonseca parava, fizesse frio ou estivesse a chover. Ficava quieto, junto ao muro, a um metro do local onde o velho se matara, e permanecia uns dez minutos a falar sozinho.
   Foi assim que aconteceu durante semanas e até meses. Então, deixou de suceder e, para alívio dos seus amigos, Fonseca parecia de novo igual ao que se conhecia dele. Ninguém se ofereceu como voluntário para lhe perguntar o que se passara e o que havia naqueles monólogos em frente à porta do suicida. Uma alma mais impressionável chegou a dizer que aquele caso revelava demónios e possessões de seres de outros mundos, mas a questão foi morrendo, sem mais ruído, e deixou de ser tema de conversa.
   Que se saiba, só por uma vez Fonseca aceitou companhia nas suas saídas nocturnas. Foi na última destas peregrinações de expiação. Nessa noite, o café estava fechado e o agricultor fez o percurso até à casa abandonada com a sua cadela de caça, a Morena. Em frente ao muro, virado para a porta onde meses antes tinham ficado restos humanos dos quais já não havia vestígios, Fonseca repetiu pela centésima vez a oração que inventara. E explicou tudo à sua cadela, que o olhava com curiosidade.
   − É a última estação da minha penitência.
   Benzeu-se e, pela centésima vez, o agricultor pediu perdão ao velho por não ter escutado o que ele lhe dissera, pois que as últimas palavras de um morto devem ser lembradas por todos aqueles que as ouviram e ele, na sua qualidade de testemunha, só recordava a última frase, não por desprezo ou maldade, mas por não ter dado a devida atenção ao que devia ser tão importante.

publicado às 19:41




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