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Indignação

por Luís Naves, em 06.12.13

 

Ao sair de casa, logo de manhã, já a conspiração contra ele assumia contornos preocupantes. Três operários estavam a abrir uma vala no caminho, o que obrigava os habitantes do prédio a saltar quase um metro, o que não foi fácil no seu caso, mas lá conseguiu manobrar as muletas sem dar um malho no passeio. Um dos cavadores olhou na sua direcção com interesse e, pelo sorriso que lhe adivinhou no ar de gozo, o tipo estava mesmo à espera de ver um cidadão a estatelar-se. Parecia dizer: “É para isto que abrimos as valas no teu caminho”.
   Quando desatou a chover e o autocarro não chegava, foi crescendo no peito de Arlindo uma indignação poderosa. Era de propósito. Os motoristas faziam o caminho a pisar ovos, os outros passageiros colocavam-se na paragem em lugares estratégicos, para entrarem primeiro do que ele. E ninguém parecia notar as muletas que o sustentavam, o pé enfaixado, as mazelas que ainda tinha na cabeça, da sova da semana anterior. Pois, viam bem que ele estava inválido e, mesmo assim, ignoravam a triste realidade e tentavam meter-se à sua frente.
   Ainda pensou que era dia de greve, mas não era: o autocarro vinha uma lata de sardinhas. Lá apareceu na esquina o amarelinho pimpão, em câmara lenta, cheio de tempo e num vagar sorna. Os passageiros já colavam a cara ao vidro da frente, não cabia ali nem mais uma agulha. Mesmo assim, houve uns afoitos que se espremeram lá para dentro, mas Arlindo, sustentado nas duas muletas, só conseguia ver as costas dos heróis e, depois, pumba, fechou-se a porta.


 

Agora, que chovia a sério, crescia-lhe a raiva no coração e sentiu que um sangue feroz era bombeado para cada fibra do seu corpo. Queria desfazer alguém, gritar a indignação, revoltar-se com fúria ou mostrar ali mesmo o ódio, mas conteve-se, guardou a ira para si. Estava frio, algumas pessoas tinham desistido e seguiam a pé pela avenida abaixo. Um dos desistentes tentara entrar no autocarro e, na ocasião, dera-lhe uma cotovelada para o afastar, mas também fracassara. Agora, ia a pé, era bem feito. Preso pela perna ferida, Arlindo não tinha escolha e esperou pelo autocarro seguinte. O tempo foi passando, distraiu-se com alguns pensamentos que a memória nem sequer fixou. E, de súbito, surgiu outro autocarro; vinha bastante cheio, mas porventura talvez ali coubesse mais alguém; foi subindo, conseguiu segurar-se, ninguém o ajudava na tarefa e, quando avançaram, ainda deu para ver o homem da cotovelada, a caminhar na rua, só um bocadinho mais à frente, a ser ultrapassado pelo autocarro.
    − Quem não espera, nunca alcança, − disse Arlindo, dirigindo-se à pessoa a seu lado, mas falando do tal homem do cotovelo, que se tramara por desistência, indo pelo seu pé.
   − Essa tem graça, − disse o vizinho, que estava bem seguro a um varão metálico. E, depois, a interessar-se pelos ferimentos: − Veja lá se lhe dão lugar lá mais à frente.
   − Não dão, é inútil.
   − Se fica aqui, ainda cai.
   − Isto é cada um por si, a lei da selva.
   − Os lugares sentados são para quem precisa. Exija os seus direitos.
   − Não vale a pena, isto não é nada.
   − Atropelamento? − Perguntou às tantas o vizinho, após uma pausa, a apontar para as muletas e para o pé enfaixado.
   − Foi assalto, − respondeu Arlindo.
   − E roubaram-lhe dinheiro?
   − Não, só bateram, mas eram quatro e deixei três deles muito maltratados.
   Quando conseguiu encarar o vizinho, Arlindo percebeu que este não acreditara na história. Era mentira, aliás. Não tinha sido vítima de assalto, mas espancado por um namorado ciumento. A Inês era um docinho, uma tentação, ele deixara-se levar por um entusiasmo nervoso e por uma imprudência tonta. O namorado dela era imbecil mas a Inês queixara-se dos avanços de Arlindo. O tipo aparecera-lhe assim do nada e nem teve tempo para reagir: levou logo três pensos nas trombas, mas aquilo era só o aperitivo. Aquela besta continuou a malhar e deixou-o bastante maltratado na perna direita, felizmente sem ossos partidos.
   O autocarro chegou ao destino, fez uma travagem mais brusca e a multidão precipitou-se; houve um pânico breve, um efeito dominó, o grito de uma senhora comprimida entre dois cavalheiros. Para se agarrar no vazio, Arlindo fez um movimento brusco com a canadiana e colocou-a sobre o pé do vizinho do lado. Deve ter doído:
   − Irra, que você é mesmo bruto − disse o vizinho, muito alto: − Mandou três para o hospital e agora quer mandar-me a mim também.
   Era fim de conversa, as portas abriam-se e a multidão saía do sufoco. No tumulto, nem deu para ripostar, o homem já desaparecera e Arlindo tentava desenvencilhar-se dos que empurravam. Aquele comentário irritara-o. O que é que ele queria? Pensou, com imensa força, que sim, mandara três para o hospital e podia mandar mais um, mas já não valia a pena gastar o latim, o cobarde escapulira-se.
   Ainda faltava um pedaço até ao escritório e lá se arrastou no piso molhado, com ajuda das muletas. Só resmungava, entre dentes, “malditos, malditos”; queria desfazê-los a todos; era uma vergonha. Só sofria humilhações, desconsideravam-no, não avaliavam os seus talentos, uma cambada de medíocres, de facínoras. Sentiu o punho a ganhar força, como se a todo o momento pudesse desatar aos murros, para os calar a todos, para os vencer com a sua força.
   O elevador estava avariado. Era insuportável.
   Subiu ao segundo andar e sentou-se pesadamente na secretária. Ligou o computador mas, antes de recomeçar o trabalho pendente da véspera, fez uma curta visita ao facebook. Entreteve-se com aquilo, sem dar conta da passagem do tempo. A sua disposição acalmara, até que ouviu a voz firme do chefe da repartição:
   − Arlindo, pode vir ao meu gabinete?
   Era o tom zangado. Atravessou a sala o mais devagar possível, como um Cristo a arrastar a cruz. Uns esgares de dor, para acentuar o sofrimento. A lesão na perna era grave, a mobilidade muito restringida pela luta heróica que mantivera contra um bando de ciganos. Deviam ter pena dele. E o chefe também devia ter pena dele, mas nem o mandou sentar.
   − Não se sente, isto é rápido. Feche a porta.
   Arlindo fechou a porta e o chefe perguntou-lhe se fora ele a fazer um documento que o outro lhe mostrou no próprio momento. Pois, tinha sido ele, confessou Arlindo. E o chefe explicou-lhe que já procurara esclarecer o caso na véspera, mas entretanto não o encontrara, até percebia, estava inválido, saíra mais cedo e saía geralmente o mais cedo possível, chegava o mais tarde possível e depois estava tudo mal nos papéis que produzia, e portanto era inválido crónico, não era só nesta conjuntura, e então o tom de voz foi crescendo e Arlindo deixou de ouvir e só via a boca do chefe, que mostrava alguma indignação e até certa raiva, sem que houvesse possibilidade de lhe explicar o demasiado óbvio, que o mundo era uma injustiça pegada.
   Quando o chefe acabou de libertar toda aquela maldade pura, deixou-o sair. Ao regressar ao seu lugar, Arlindo conseguiu um movimento mais gracioso das muletas. Já se desembaraçava mais depressa. Os colegas olhavam para ele e percebeu alguns sorrisos nas caras do costume. Uns sonsos, que não escondiam a inveja. Pensou, com muita força: um dia, veriam todos a crueza da sua vingança. Quando fosse ele o chefe, veriam todos como elas doíam, no corpo e na alma, veriam, pois. 

publicado às 19:10




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