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Berlim deixa Portugal sem palavras

por Luís Naves, em 05.12.13

Novo texto* da minha autoria publicado no site alemão Geolitico:

 

Visto a partir de Portugal, o acordo de coligação na Alemanha é um enigma. Alguns observadores não conseguem compreender a razão dos políticos alemães não quererem mudar de estratégia na crise europeia. Aqui, todas as notícias sobre a questão foram curtas e pouco detalhadas, mas tanto a esquerda como a direita criticaram o acordo.
Um dos comentadores mais influentes, Vasco Pulido Valente, escreveu no diário Público: “O SPD conseguiu alguns limitados gestos a benefício da populaça mais pobre. Merkel conseguiu que não se mexesse no resto, nomeadamente na política europeia: nada de dívidas soberanas, nada de défices para esconder a miséria de cada um e, principalmente, nada de eurobonds para obrigar o contribuinte alemão a pagar a irresponsabilidade e a incúria de estranhos (...) Do que Merkel mais gosta na Alemanha são janelas bem calafetadas". Em estilo muito literário, o autor explica a ideia simples de que o acordo visou resolver apenas questões internas.
A esquerda portuguesa ficou desapontada com o resultado da negociação. Antes das eleições alemãs, a esquerda dizia à opinião pública nacional que com os social-democratas alemães no poder seria possível reduzir a austeridade e até introduzir eurobonds. O SPD perdeu as eleições e isso representou uma enorme desilusão para este quadrante político.

 

Espaço para respirar
Os comentadores pró-governamentais disseram durante todo este tempo que a estratégia alemã dificilmente mudaria mas, de facto, os governantes estavam à espera de alguma folga. Agora, o governo terá de defender o aumento da idade da reforma ao mesmo tempo que na Alemanha estas regras são flexibilizadas.
Em Portugal, a discussão sobre o aumento do salário mínimo está a entrar no segundo ano, sem resultados. Existe um salário mínimo de 485 euros mensais e muitos políticos defendem a sua subida para 500 euros. O Governo está dividido sobre isto, mas depois do acordo na Alemanha será difícil manter a recusa do aumento do salário mínimo, mesmo que isso custe empregos.
A política nacional muitas vezes ignora os eventuais impactos europeus das decisões. A esquerda portuguesa sentiu-se descartada por François Hollande e agora sente-se abandonada pelo SPD alemão. O governo, provavelmente, tinha menos ilusões sobre a solidariedade dos líderes europeus.
A equação mantém-se relativamente simples: o programa de resgate será terminado sem grandes alterações. Portugal terá de reduzir ainda mais a despesa pública e não haverá dinheiro para investimentos estatais. Os salários e pensões terão de continuar a cair e, com toda a probabilidade, os nossos credores dirão que um aumento no salário mínimo é bom para a Alemanha e mau para nós. Em Janeiro, a idade da reforma neste País vai subir para 66 anos, com poucas excepções. Ninguém explica como é que isto vai ser feito.
Cortes nas pensões estão a afectar os mais idosos. É injusto cortar na pensão de reforma de alguém cuja vulnerabilidade é mais elevada e que precisa de mais dinheiro para pagar facturas dispendiosas de medicamentos. Eles não se podem defender: quanto mais velhos são, mais vulneráveis.

 

Produzam alimentos
Leitores dos meus textos anteriores têm feito comentários do género: vocês devem sair da zona euro, devem voltar para a agricultura. Provavelmente, muito alemães acreditam que Portugal é um país agrícola. Na realidade, alguns portugueses estão a regressar à agricultura, mas este sector emprega menos pessoas do que na Alemanha (em percentagem), na sua maioria idosos. Portugal não beneficia muito da Política Agrícola Comum, pelo contrário, em proporção recebe menos do que a França ou a Alemanha.
O País tem florestas e não é muito adequado à produção de alimentos: embora possua muita água e luz solar, tem solos pobres. O mesmo se pode dizer da pesca, a zona económica exclusiva é extensa, mas consiste sobretudo em oceano profundo com pouco peixe, pois a plataforma continental é demasiado estreita.

Portugal tinha indústrias de trabalho intensivo, mas a entrada da China na Organização Internacional do Comércio levou ao encerramento destas fábricas. A base industrial nunca recuperou totalmente. A economia portuguesa encontra-se na realidade baseada em serviços, como turismo, telecomunicações e banca. O País é competitivo em diversas áreas, mas a crise do euro implica uma grande falta de confiança.

 

Continuem o bom trabalho
O programa de resgate foi demasiado curto e brutal. Está a criar um problema político que poderá ainda anular tudo o que foi conseguido. A Europa elogia o governo pelo bom trabalho e depois pede mais sacrifícios. Podia mostrar-se mais flexível perante um país que fez tudo aquilo que os credores exigiam. A economia está a melhorar, mas os políticos no poder são de tal forma impopulares que os partidos de centro-direita que apoiam o governo vão com toda a probabilidade ser derrotados nas próximas eleições (as europeias de Maio).
Dois terços do País perdem a sua população, transformados em espaços vazios, pois os serviços públicos estão a ser encerrados nas pequenas localidades do interior. O desemprego começa a reduzir-se, mas está em nível recorde. Os mais novos e mais qualificados continuam a emigrar em grande número. A nossa sociedade sofre um poderoso choque que levará muito tempo a cicatrizar.

 

 

*Este artigo foi escrito originalmente em inglês. A versão portuguesa tem algumas pequenas adaptações.

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publicado às 20:07




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