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Portugal é um protectorado?

por Luís Naves, em 23.11.13

O texto que se segue foi publicado esta semana no site alemão Geolitico, onde chegou a estar em destaque:

 

 

A crise política portuguesa tem um curioso paradoxo: há um descontentamento universal e, no entanto, nada acontece. Na última semana, um político de esquerda tentou lançar um novo partido, mas apenas 150 pessoas apareceram no evento. Se os portugueses não gostam da actual classe política, seria lógico que aparecessem novos grupos e novas caras. Se existe descontentamento geral, então as ruas deviam estar repletas de protestos sociais e de indignação. E, no entanto, nada acontece.
Os media estão furiosamente contra o Governo, mas os dois partidos no poder continuam de forma teimosa a aparecer nas sondagens com um terço do voto potencial. A maior formação da oposição, o Partido Socialista, parece estagnar nos 36%, com um líder que provavelmente perderia uma eleição primária no seu próprio partido, se houvesse uma. Os comunistas continuam a crescer e são a força mais coesa no espectro politico, mas à custa do outro partido da extrema-esquerda. São ambos contra o memorando com a troika e têm 20% dos votos potenciais.

 

Suspensão da democracia
O vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, usou por diversas vezes a expressão “protectorado financeiro” para descrever a situação do País. Na minha opinião, ele poderia ter usado simplesmente a expressão “protectorado”, pois esta paralisia não diz respeito apenas a dinheiro. Na realidade, o futuro político de Portugal não está a ser discutido em público.
Todos os dias, a oposição e os sindicatos apelam a eleições, mas sabendo que elas não são possíveis agora. O governo podia ser totalmente diferente e ninguém daria por nada, porque teria de realizar as mesmas tarefas. Os ministros raramente aparecem em público e os que nunca aparecem são os mais populares.
No início do programa de austeridade, imposto pelo resgate em 2011, algumas pessoas disseram que o ajustamento era impossível no plano político. O memorando da troika era inconstitucional, mas isso foi ignorado pelas mesmas pessoas que agora esperam que o Tribunal Constitucional consiga torpedear e afundar o programa de austeridade. Não houve alterações constitucionais, nem sequer foram discutidas, e acabar agora com o programa seria loucura, pois estamos a sete meses do seu fim e com os primeiros sinais de recuperação económica.

 

Fogo lento
Como membro da zona euro, Portugal teve crescimento lento durante uma década. Ninguém teve a coragem política para fazer as necessárias reformas: pelo contrário, todos os governos deitaram dinheiro para a fogueira lenta. Em 2010-11, Portugal estava brutalmente endividado, por isso os mercados financeiros deixaram de nos emprestar dinheiro. Os bancos franceses e alemães eram os nossos credores, estavam cheios de obrigações do tesouro portuguesas que, em caso de bancarrota, valeriam zero. Temendo um segundo colapso ao estilo da Lehman Brothers, os governos europeus garantiram o resgate, o que os Tratados europeus proibiam expressamente.
Vamos simplificar mais um pouco: os contribuintes alemães emprestaram dinheiro à República Portuguesa, evitando a bancarrota. Isto permitiu aos bancos alemães a venda atempada da dívida portuguesa na sua posse e que perdera todo o valor. Esta passou para os bancos portugueses, pois estes tinham dívidas a bancos alemães. O crédito europeu está a ser pago pelos contribuintes portugueses, com lucro para os credores. As obrigações recuperaram algum valor e Portugal deve ser capaz de regressar aos mercados dentro de alguns meses, mas uma coisa é certa: graças aos contribuintes alemães, os bancos alemães estão seguros.

Os portugueses queixam-se muito, tinham uma dívida e o resgate salvou-os da bancarrota. Os alemães também se queixam muito, pois salvaram os seus próprios bancos e o custo foi o de agora terem um pequeno protectorado nas costas atlânticas. Ter um protectorado não é simples questão de posse. É preciso lidar com ele. Não é algo que se possa abandonar.

 

Esperar até Junho
Portugal não é inteiramente soberano e o seu futuro dependerá em grande parte da Europa. Este país não poderá ir para eleições antes de Junho e não pode mudar de governo neste momento. Terá de encontrar uma forma de convencer os mercados de que pode pagar as suas dívidas. Os yields das obrigações a dez anos estão em 5,8%, mais de dois pontos acima das irlandesas. Nos próximos seis meses deveriam baixar esses dois pontos percentuais e, se isso não acontecer, continuaremos um protectorado europeu.
Até lá, não pode ocorrer nada de verdadeiramente importante. O governo continuará a ser muito impopular, a oposição falará imenso, o país tentará tornar-se mais credível no exterior, o povo sofrerá mais cortes e mais impostos, a economia vai arrastar-se como um caracol e toda a gente será mais pobre, estará mais cansada e mais próxima do desespero.

 


Este texto foi escrito originalmente em inglês. Tem pequenas modificações na tradução, para ficar mais claro, pois há frases que não funcionam na língua portuguesa. O texto referia a situação política antes da cena das escadarias e da Aula Magna. Mantenho a análise. Julgo que estas tentativas de incendiar a situação não passam de retórica forte, embora com risco sério de cumprirem a sua própria profecia.
O País tem três opções neste momento: programa cautelar, segundo resgate e saída do euro. Os leitores alemães continuam a escrever, nos comentários aos meus textos, que Portugal só tem uma alternativa viável, a saída do euro. Isto corresponde provavelmente ao que pensa a opinião pública alemã e esse aspecto não é muito conhecido em Portugal. Continuarei a defender, no Geolitico, que o programa cautelar é a melhor opção e que este deve ser razoável, com imposições que o País possa cumprir e sem o estúpido delírio de nos impor medidas politicamente impossíveis e socialmente ruinosas.

publicado às 13:26


3 comentários

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De AEfetivamente a 24.11.2013 às 10:22

"e toda a gente será mais pobre, estará mais cansada e mais próxima do desespero." - Só sei que isto é verdade. E, portanto, o que fazer? Eu cá gostei do cheiro a revolução na quinta feira à noite. E não é só pela questão económica, é que o cansaço e o desespero na educação são avassaladores, a paciência esgotou-se(-me). Por isso, por momentos, empolguei-me com aquele cheiro que, infelizmente ou não, não chegou à manhã.
Bom domingo
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De Carlos Faria a 24.11.2013 às 11:39

Excelente análise da situação de que Portugal está refém, sei que poucos o lerão, menos ainda aceitarão a realidade dos factos e outros continuarão a tirar proveito deste pântano.
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De joshua a 25.11.2013 às 11:32

Bela análise. Pela minha parte, divulgá-la-ei pelo máximo da Rede que eu alcanço. Abraço.

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