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Lisboa em 2100: Uma Reportagem (5)

por Luís Naves, em 21.11.13

 

Os profetas são apenas vento *

Os lobos são hoje simples curiosidades amansadas, mas dizem as crónicas que no passado eram animais ferozes e indomáveis. Na sua alma selvagem havia uma parte que os humanos invejavam, que era a impiedade natural. Foi isso que sobrou deles, o que lhes foi arrancado ao coração e que passou para alguns de nós. No deserto de cimento e mármore, vogam hoje caçadores indomesticados e brutais, matilhas que há muito perderam a humanidade. Do outro lado, estão as vítimas, a esmagadora maioria destes seres que, sem saber, andam à deriva.

Aqui em baixo, nesta parte da cidade onde me encontro, vejo sobretudo as ovelhas: as legiões de desocupados, os clubes onde se mata o tédio com bebida, as almas vazias e os dias intermináveis. Lisboa, imensa nas suas multidões, podia chamar-se solidão e engano.

É fácil caluniar e ofender estes indefesos e humilhados. Faz parte da caça. Vejo aqui abutres que se alimentam da carne inactiva: os gananciosos e os usurários, os que se vendem por um punhado de nada, os avarentos que se agarram freneticamente ao entulho, os mentirosos que ainda acreditam no que dizem. São esses os verdadeiros pobres de espírito, os miseráveis e dignos de pena. Vejo os estúpidos que sonham com o poder e, lá em cima, os que têm poder e se riem deles. Vejo os velhacos de emboscada, os que juraram destruir-me a mim também.

Lisboa é luz e desejo, é ansiedade e fome, inveja e cobiça, uma espécie de morte no meio da perda. Lisboa é o futuro prometido, uma miragem e uma cegueira. É isso que vejo, mas as profecias são apenas vento e aquilo que somos não é mais do que poeira viva, embora à espera do desenlace.

 

Os habitantes da lama olham para os castelos de cristal e contemplam invejosamente a beleza perfeita dos que lá vivem. Mas eu vejo apenas o inchaço da soberba e a sua nulidade, o cadáver das elites. Se estivesse mais próximo, veria também os apodrecimentos da alma, os gritos desesperados dos seres que se deixaram aprisionar nesses labirintos tristes do orgulho.

De certa forma, estou entre os desprezados, faço parte deles, estou a seu lado, sou um deles, mas lamento os que vogam no limbo do delírio.

Em baixo, as vítimas arruinadas, os feios e desaproveitados, os que sofrem a injustiça e se calam perante ela. E depois existe essa outra cidade: a do esplendor. Máquinas voadoras e inteligentes. Luz à noite como se fosse dia. O homem separado em tal grau da doença que tem horror à mínima sujidade. As máquinas que fazem todo o trabalho, sem salário e ambições, e o homem que descansa na sua eternidade entediante. A sabedoria altíssima não lhe ocupa o tempo, pois ainda não a sabe utilizar. A nossa arte é decadente, não queremos ser incomodados, preferimos o fogo-fátuo, que é uma forma de decomposição do corpo.

Aqui, no purgatório, até as massas indolentes têm suficiente para comer. Os pobres sem perspectiva e os ricos a quererem sempre mais. Vivemos na abundância e a miséria é geral.

 

O que escrevo é inútil, sei disso. A falsidade triunfa. A pureza não é do nosso tempo. Vivemos numa era em que a verdade passa por mil filtros. Esqueceremos para sempre a dignidade e preferiremos a vida da escravidão, submetidos pelo medo, pela mentira e pela repugnância. Temos a sociedade perfeita, totalmente equilibrada, segundo dizem os governantes. Eles são clones uns dos outros: só nos mostram o superficial, enquanto nos enganam com entretenimento, como fazem os malabaristas, ao explorarem as imperfeições do olhar.

Sim, falei apenas da imperfeição do olhar. Quando subimos a um lugar elevado, podemos ver esta cidade a expandir-se até ao horizonte, até ser um borrão luminoso. É um mar de luz artificial e de gente a fingir. Com ovelhas e lobos, a floresta de prédios erguendo-se como pilares de uma catedral iluminada pela glória, os receios do desconhecido e os rumores misteriosos, o dia eterno e a noite nos espíritos. Lisboa é a utopia adormecida que os ventos do passado já não acordam. 

 

*Jr 5:13 

publicado às 20:40




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