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Lisboa em 2100: Uma Reportagem (3)

por Luís Naves, em 11.11.13

Este povo tem um coração indócil e rebelde
O velho aeroporto deixou de ser necessário na década de 30, mas continuou a funcionar durante anos, recebendo os aviões a jacto que as frotas de transportes mantiveram até meados do século. Depois, não houve dinheiro para construções e aquele imenso espaço foi abandonado progressivamente pelo Governo; ao mesmo tempo, foi sendo ocupado por multidões de comerciantes informais. O antigo aeroporto, designação que muitos ainda utilizam, tornou-se obsoleto e transformou-se numa vasta zona comercial sem regras aparentes e onde tudo se vende e tudo se compra. O povo, aqui, é diferente do que existe no resto da cidade: há mongóis, negros, indianos, mil línguas distintas, numa babel a perder de vista.
O mercado da Portela tem cinco quilómetros de comprimento e três de largura. Terá mais de dez mil pequenos comércios, mal iluminados e por vezes sujos, alguns com pequenos tesouros no interior. É um labirinto de ruas e avenidas que formam quadriláteros imperfeitos, onde se dispõem as vendas individuais. Paga-se pouco (não consegui saber a quem) para montar aqui uma barraca com produtos. Ninguém paga impostos. Isto é duty-free (como existia no velho aeroporto, segundo rezam as crónicas) mas agora está à disposição de quem não deseje viajar mais do que uma caminhada. Segundo alguns, também há negócios antiquados de off-shore e de hawalla, mas pode ser fantasia.

 

O espaço continua a ser de viajantes. Só vendedores mongóis, contei mais de uma centena, e desisti. Dizem que os indianos são mais de mil, cada um viajando desde longe com o seu contentor e a casa móvel. Mas há russos e japoneses, chineses e vietnamitas, iranianos e arménios. Encontra-se aqui o mundo inteiro, na sua abundância de formas e cheiros, vendendo desde pequenos objectos de plástico a todo o tipo de material sofisticado; alimentos raros; medicamentos de contrabando; cutelaria, temperos; velharias e imitações; órgãos artificiais sem marca, bálsamos sem certificação, licores perfumados; máquinas obsoletas do século XX (mas novas e sabe-se lá onde serão fabricadas); roupas e quinquilharias, inutilidades e jogos virtuais; impressoras tridimensionais e células de hidrogénio miniaturizadas, ao lado de bagatelas sem relevo ou de aparelhos de colecção. E tudo a preços tão baixos que nos interrogamos como pode esta gente viver do comércio com tão ínfimas margens de lucro.

O que pode ser traficado é traficado, mas ainda ninguém conseguiu confirmar as lendas sobre produtos mirabolantes que se podem encontrar neste bazar. Os que fazem o comércio, guardam o segredo: há robôs de aparência feminina e até pessoas vivas, para uma discreta escravatura por aluguer.
Este é o local certo para nos interrogarmos por onde caminha a economia da extravagância e até que ponto haverá recursos para manter a abundância de produção que permite a alguns ter tudo.


Se tentamos falar com vendedores nesta feira, as nossas perguntas começam depressa a esbarrar com a sua desconfiança. De onde vem este produto? Quanto custou na origem? Eles escondem o jogo. Veio da China? Pergunto em cinco línguas e nunca me respondem. Devem ser chineses, ou uzbeques ou afegãos, mas a sua cara permanece impenetrável.
Em zonas especiais do imenso bazar encontramos os cachos de restaurantes e aqui é possível comer quase de tudo, pois a feira é também uma cidade de alimentação, com talhos e matadouros, comidas exóticas. Num dos núcleos secretos, bem no interior da amálgama, existem pequenas bancas especializadas em aranhas. Há também iguarias à base de insectos que me parecem ser gafanhotos e que estão vivos, dentro de sacos grandes. Só os asiáticos frequentam esta parte da feira, que descobri por acaso.


Na mancha abandonada, que vista das alturas parece um rectângulo pouco iluminado, não existe polícia nem justiça do estado; aqui mandam os feirantes, uma tribo difícil de identificar; é preciso tempo para nos apercebermos destes homens e mulheres que decidem onde ficam os vendedores e como se agrupam, que decidem todos os conflitos entre eles e, por vezes, os resolvem usando da força. Na feira da Portela há 25 homicídios diários e nenhum é jamais esclarecido, pois segundo dizem são ajustes de contas e execuções de membros de bandos que tentam interferir na operação dos feirantes que controlam o recinto. Ai de quem não pagar ou de quem se intromete.
Pela violência, os ricos da cidade não se atrevem a vir aqui. A feira é usada em exclusivo pelos pobres. Não é sem risco, pois uma pechincha pode suscitar a cobiça de pessoas sem escrúpulos. Os assaltos são frequentes, apesar de serem desencorajados pela segurança invisível. É também o que se diz, mas não o pude provar: alguns dos pequenos traficantes e larápios de Lisboa acabam as suas carreiras de crime nesta imensa feira, vítimas de morte violenta e inexplicável. Num caso que me interessou, um pobre diabo de 19 anos, órfão, chamado Luciano H., apareceu morto com uma facada no coração, algures neste dédalo de lojas; não houve testemunhas da sua morte, excepto o amigo, que escapou daquela vez, no meio da confusão gerada, mas que desapareceria no mesmo local dias depois, com tempo ainda para me dizer que tudo o que os dois amigos tinham feito fora roubar transeuntes, mas sem os molestar. Dificilmente merecedor de pena de morte, mas aqui não se aplica a clemência. Julgo que os dois jovens foram apanhados pelos ‘polícias’ informais da feira que, segundo o rumor, nem sequer são portugueses, mas chechenos, árabes e russos.


Assim, paira sobre a zona rebelde uma aura de mistério. Aqui, só vêm os desempregados e os pobres, metade da população de Lisboa, que assim ganha acesso a muitos dos produtos que, de outra maneira, seriam apenas para ricos. Não estou a falar das bugigangas e da electrónica barata, mas de objectos tecnológicos de luxo, como robôs, componentes de inteligência artificial, memórias, transplantes, armas e remédios inacessíveis.

Apesar de muitos dos clientes pobres já não possuírem direito de voto, as pressões políticas para encerrar a feira têm falhado. Se metade da população não tem trabalho e vive de biscates e arranjos, que outra forma havia de aceder à abundância? E que efeitos teria o fim da feira ou o bloqueio total da ascensão social? Muitos desocupados passam aqui o dia e tentam fazer pequenos negócios. Especula-se também que os lucros sejam distribuídos através de uma cadeia alimentar em estrutura piramidal, que acaba nos bolsos dos grandes tubarões da finança. São especulações, afirmações sem provas irrefutáveis, mas explicam a sobrevivência do lugar e a resistência à imposição da lei.
A grande feira do antigo aeroporto não é sítio para fazer demasiadas perguntas. As que fiz a simples vendedores valeram-me ser seguido por dois homens com ar ameaçador. A certo ponto, levei uns encontrões e alguém me segredou um aviso de amigo: ‘saia daqui, depressa, antes que lhe aconteça alguma coisa de mal’. Não sei se foi um samaritano ou alguém que me pretendia apenas assustar. Não me pareceu que houvesse condições de segurança e saí, com a impressão ainda viva do ruído da multidão, do medo, da cobiça e do complexo cheiro de mil especiarias. 

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publicado às 17:39




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