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Sobre os anjos caídos

por Luís Naves, em 08.11.13

Em Delito de Opinião, Pedro Correia evoca a memória de Albert Camus, escritor que segundo alguns será pouco lido nos nossos dias (imagino que os leitores portugueses prefiram fast food)*.
O post do Pedro fez-me reler A Queda, novela extraordinária que contém no seu interior dezenas de pequenas histórias perturbadoras. Dou apenas um exemplo: em apenas três linhas, Camus descreve o pequeno episódio de um cãozinho no metropolitano de Paris que leva o narrador a aproximar-se da resistência, não por convicção, mas pelo facto desse cão, desamparado e em busca de companhia humana, podendo escolher entre ele e um soldado alemão, preferir o soldado ocupante, seguindo-o com canina alegria. O livro tem passagens notáveis e mantém-se actual, aliás, extremamente actual nestes tempos de inquietação e desvalorização da humanidade.
“Uma pessoa das minhas relações dividia as pessoas em três categorias: os que preferem não ter nada que esconder a serem obrigados a mentir; os que preferem mentir a não ter nada que esconder e, finalmente, os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo”, escreve Camus, em A Queda, numa notável síntese.


 

O livro é de uma complexidade inesgotável e, aparentemente, é também muito simples. A minha anterior leitura foi de uma novela diferente e julgo que esta é uma das marcas da grandeza literária. A cada nova leitura, a obra ganha dimensões que não tinham sido compreendidas pelo leitor, na sua anterior incursão.
Há uns anos, o Pedro emprestou-me a tradução portuguesa de l’Exil et le Royaume, pequeno volume que contém alguns dos melhores contos que já li, incluindo um que me impressionou de forma brutal, pois parecia o preâmbulo de um dos meus romances favoritos, O Céu que nos Protege, de Paul Bowles. Tenho à minha frente o pequeno livro de bolso em francês de O Exílio e o Reino, que comprei mais tarde. Está ao lado de um outro livro, Le Feu Follet, de Pierre Drieu la Rochelle, autor trágico que, durante a ocupação nazi, teve um papel dúbio, próximo da colaboração. Afectado pelos combates durante a Primeira Guerra Mundial (tal como Céline), marcado pelas drogas e preso num labirinto político, Drieu suicidou-se antes da libertação. Le Feu Follet (Fogo-Fátuo) está repleto de uma ambígua agitação moral que de alguma forma antecipa a tensão das personagens de Camus, entre revolta e indiferença, entre ansiedade e agonia, entre desejo e desinteresse.
Em barricadas opostas, os dois escritores pressentiam as mesmas divisões na sociedade e nos homens, anjos caídos e fogo-fátuo. Não quero fazer comparações, mas a leitura de dois livros seguidos leva-nos a tentar estabelecer padrões (sei que são ilusões de óptica). Drieu é um escritor competente, de boa leitura. Por seu turno, Camus pertence a outro patamar e consegue em poucas linhas atingir o âmago do espírito humano. Há ali qualquer coisa de essencial que nos ultrapassa e ficamos de pensar melhor naquilo até à leitura seguinte, que será de um livro inteiramente novo.


Ou talvez estas linhas estejam sob o efeito hipnótico da música de J. S. Bach. Cometi um erro de principiante e aproveitei demasiado a tecnologia avançada à nossa disposição. Enquanto lia A Queda, ia ouvindo uma ária da Paixão Segundo São Mateus, Mache Dich mein Herze rein, num momento da peça cujo significado é o de ter o coração tão limpo que se estará pronto para enterrar Jesus nesse coração e deixar o mundo. E, para transmitir uma ideia tão pura, Bach atingiu um dos píncaros da criação humana. E eis que o mundo é feito de contradições. Enquanto lia sobre abismos da alma, a música transportava-me para as fímbrias do paraíso, essa zona do firmamento que, não sendo luz ou escuridão, é sobretudo mistério.
    
 * Tenho ‘pancada’ por livros de bolso franceses (apenas os de lombada flexível) e na minha versão de La Peste, da Folio, diz-se na contracapa que a tiragem em França foi de 2,5 milhões de exemplares. Pouco lido? Talvez entre nós e, sendo assim, é pena.

publicado às 00:28




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