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Outra vez o copo meio cheio

por Luís Naves, em 07.11.13

As estatísticas de emprego do INE relativas ao terceiro trimestre continuam a desafiar as explicações da oposição. Era sazonal, afinal não é sazonal. Era a emigração, afinal também não parece ser a emigração. Enfim, cada vez mais me inclino para a explicação que ninguém quer adiantar: a economia está a dar a volta e isso pode acontecer a um ritmo que vai surpreender toda a gente.

Foi criado um clima no País que insiste na tecla da desgraça. Estão todos indignados, mesmo os que continuam a ganhar bem e os que têm empregos seguros no Estado. Enfim, hoje ouvi na rádio uma senhora que tinha de fazer um largo trajecto a pé e estava toda contente, dizendo que a greve dos transportes era justa, “devíamos todos fazer greve”, adiantava. E lá seguiu a pé.

A narrativa da desgraça é tão poderosa que qualquer sinal de melhoria é imediatamente negado. Não é recusado com argumentos lógicos, mas de forma visceral e emotiva, mesmo agressiva. A comunicação social criou o mito e continua a alimentá-lo: isto é uma desgraça e o programa de ajustamento falhou. As televisões aderiram a uma visão insensata do futuro do País (não estamos falidos, a austeridade é uma loucura, os europeus endoidaram, cortar na despesa é impossível).

 

As estatísticas do INE são na realidade sobre emprego e uma análise desse ponto de vista mostra um fenómeno quase incompreensível: a economia portuguesa está a criar uma média de 15 mil empregos mensais. Repito, isto é quase incompreensível e desmente as balelas que ouvimos diariamente: 15 mil empregos mensais, 500 diários. Sei que a TV mostra os portugueses a embarcarem na Portela, rumo à Suíça, mas também existe esta realidade, 500 novos empregos por dia.

No último trimestre do ano passado, houve uma catástrofe no emprego, muito súbita e devastadora (nunca explicada pelos génios do governo), que se prolongou no primeiro trimestre deste ano. Foram destruídos mais de 230 mil empregos em apenas seis meses, tal como tentei explicar neste post de Agosto, onde já me referia às interpretações fantasiosas na Imprensa.

No segundo trimestre de 2013, a tendência de queda no emprego inverteu-se e foram criados 70 mil empregos. Os recente números do terceiro trimestre apontam para mais 50 mil. Repito: após uma destruição líquida de 230 mil, foram criados 120 mil.

A emigração está bem evidente na quebra da população activa (120 mil, em termos homólogos, que devem incluir desempregados de longa duração). Mas nas estatísticas sobre emprego, os emigrantes não aparecem e estamos a falar de novos postos de trabalho.

Há um ano, havia 4,65 milhões de portugueses empregados; agora, são 4,55 milhões. Perdemos mais de 100 mil empregos, em termos homólogos, mas a economia recuperou metade dos que se perderam na calamidade entre Outubro de 2012 e Março de 2013, quando o número de postos de trabalho atingiu o nível mais baixo de sempre: 4,42 milhões.

A análise mais fina dos números revela curiosidades. Por exemplo, a destruição de empregos naqueles seis meses foi sobretudo de trabalhos de baixa qualificação; agora, a criação de emprego parece estar a ocorrer no patamar intermédio de qualificações e até no superior.

Se isto não é dar a volta, então não sei o que dizer.

 

Há uma parte do País que está a sair da crise e isso já aparece nas estatísticas, embora seja invisível para os comentadores que dominam a opinião publicada. A recessão acabou e entrámos numa fase de transição com sinais do fim da crise ainda demasiado débeis, mas tudo indica que consistentes. O desemprego continua a ser alto? Claro que sim, mas a evolução do emprego manteve-se muito acima das expectativas durante pelo menos um semestre.

É muito evidente que estamos perante uma excelente notícia: nos últimos seis meses, 120 mil portugueses encontraram trabalho. Como é que isto pode ser mau?

Em Espanha, este tipo de informação é saudada com entusiasmo. Aqui, continuam a negar o óbvio, como se a criação de emprego estragasse uma boa história.

publicado às 19:08


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