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Arte e censura

por Luís Naves, em 29.09.18

Discute-se muito se os penduricalhos de Mapplethorpe são arte ou censura. Podíamos talvez discutir o estado da arte, os teatros vazios e os teatros fechados, as livrarias a abarrotar de subprodutos, a indigência do cinema, as instituições subfinanciadas, a falência imparável dos jornais. Devíamos questionar o estado da arte, se temos uma literatura exportável, se as bibliotecas renovam as coleções, se os museus estão seguros, se os artistas nacionais trabalham de borla, se o ensino artístico melhorou ou se é melhor que os talentos procurem outros países. Podíamos discutir isto, mas mergulhámos numa espécie de sonambulismo, a debater os méritos da fotografia americana, tema que teria inegável interesse, se os bárbaros não estivessem já instalados deste lado da muralha.

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publicado às 11:46

Autenticidade

por Luís Naves, em 22.09.18

Se a literatura deve ser autêntica, então devíamos escrever sobre aquilo que sabemos. A autenticidade é um dos pontos, em oposição às rodinhas do meu bairro e outras tretas sentimentais. E, no entanto, a realidade não chega. Um livro de ficção, pelo menos no meu conceito (que é o melhor para mim), deve explorar a fantasia tanto quanto a memória, num equilíbrio que só cada um pode calcular. Julgo que este é o sentido da explicação incluída num diálogo de A Doida do Candal: o narrador (sempre o autor, CCB) explica o livro que acabámos de ler a uma das suas próprias personagens, a qual lhe pergunta se as histórias dos seus romances aconteceram mesmo. «É tudo verdadeiro, minha senhora», responde o escritor, «uns casos aconteceram, outros podiam acontecer; e logo que podiam, é quase evidente que aconteceram».

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publicado às 19:13

O que mudou

por Luís Naves, em 11.09.18

Os acontecimentos do dia 11 de Setembro de 2001 ficaram na memória de todos, mas o que verdadeiramente mudou as nossas vidas foi a crise financeira que começou em Setembro de 2008, com o colapso do banco americano Lehman Brothers. A partir daí, vivemos uma época da fragmentação, caracterizada pela estagnação económica (a década perdida), a aparente dissolução dos valores, a mediocridade da política, a crispação do discurso da intolerância, o estilhaçar das classes sociais, o antagonismo sem ideologia e a irrelevância das vozes moderadas. Nestes últimos dez anos, tivemos a sensação de viver numa espécie de época pantanosa, em que se acentuou a ideia do próprio declínio da cultura, como se não houvesse rumo e futuro. A grande recessão teve causas complexas e nunca li uma explicação convincente. Aliás, os académicos ainda hoje discutem as causas da Grande Depressão dos anos 30 do século passado e talvez seja preciso esperar um século para que se compreenda o fenómeno que nos atingiu. Ora, se ainda hoje não entendemos inteiramente o que aconteceu, quem nos garante que já terminou o ciclo? Podemos conceber novos espasmos do processo, em que se acentuam divisões sociais e cresce o fosso entre vencedores e vencidos, em que ocorrem novos episódios de segmentação, em que voam estilhaços das classes sociais e saltam pedaços de tribos e de clãs, acentuando choques e contradições da época. Depois da fragmentação, haverá outra tendência, talvez até a contrária, mas uma coisa é certa: o mundo que estamos a construir será muito diferente daquele de onde saímos.

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publicado às 19:09

Telescópios imprecisos

por Luís Naves, em 03.09.18

Os escritores são solicitados para falar sobre tudo e um par de botas, mas normalmente nem sabem o que os faz escrever e desconhecem o mecanismo que os leva, por vezes, a conseguir tocar ao de leve em alguns dos mistérios essenciais do seu mundo. Isto funciona um pouco como os telescópios. Há telescópios ópticos que captam a luz visível, há outros aparelhos que detectam infravermelhos ou radiação ultravioleta. Cada um destes equipamentos permite ver uma versão da realidade, mas apenas parte limitada do universo. Assim funcionam as ciências sociais e a filosofia, cada uma a captar determinado espectro da luz. E, no entanto, sabe-se que no universo existe matéria escura, que continua invisível para a tecnologia. Ora, a literatura pode explorar o que as ciências não atingem. Perguntar aos autores pela matéria visível não tem grande lógica, pois eles são melhores a detectar matéria escura, ou seja, a parte enigmática da humanidade, e piores a pensar sobre aquilo que já é conhecido. Sem perceberem ao certo como o fazem, os ficcionistas podem entender uma parcela da essência do seu tempo, mas sempre no território do enigma e do que se oculta nos interstícios da realidade. Quando os interrogam sobre matéria que possa ser estudada, como a explicação de um país ou a descrição da sociedade, têm geralmente telescópios imprecisos.

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publicado às 17:56

Regras absurdas da vida

por Luís Naves, em 02.09.18

Parece ser uma daquelas regras absurdas da vida, mas quando uma pessoa está na mó de baixo recebe sempre mais críticas, seja de desconhecidos, de familiares ou de amigos com boas intenções. Dizem eles que deve haver alguma coisa de errado com alguém que pareça um óbvio fracasso: esforços inúteis, esforços insuficientes, ilusões ou caminhos que não dão em nada. Enfim, algo estará errado, e então aparecem aqueles conselhos que já foram explorados, aquelas observações que já foram pensadas, as ligeiras críticas veladas que mandam a auto-estima ainda mais abaixo. Não tens talento para o que tentas fazer ou vives numa estúpida mania de grandezas, enfim, não te sabes avaliar e quando insistes num plano estás a bater com a cabeça na parede. Se a tua vida é um buraco, então pára de escavar, dizem os amigos; se não funciona este caminho, não insistas, mas por outro lado não fiques a dormir a sesta, à espera que os teus problemas se resolvam sozinhos, embora isso (no teu caso, mas só no teu caso) não seja inteiramente má ideia, pois é preferível não dares nas vistas, fingires que está tudo bem, sorrir e confiar. A mó de baixo é culpa de quem lá está, portanto, é culpa tua. Para ti, a fasquia está sempre mais alta. Ah, e não critiques, porque é inveja.

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publicado às 17:53

Das minorias

por Luís Naves, em 01.09.18

Basta ler qualquer autor centro-europeu da primeira metade do século para se perceber que o mundo do presente nem sempre é uma melhoria em relação ao do passado. A sociedade austro-húngara era multicultural e desapareceu no tempo do diabo esfregar o olho. O argumento que justificou desmembrar o império austro-húngaro foi a necessidade de criar territórios sem as chamadas quintas-colunas das minorias, por isso os Tratados de Versalhes e Trianon (impostos pelos vencedores da I Guerra Mundial) deram origem a processos de limpeza étnica de grande violência. Nos anos 20 e 30, desenvolveram-se ideologias de exclusividade racial e nacional que originaram catástrofes. Nos últimos cem anos, os países que se formaram no antigo império lutaram pela homogeneidade cultural e étnica, mas agora são acusados de desvio nacionalista sobretudo aqueles que já nasceram homogéneos contra a sua própria vontade. É uma ironia cruel. Durante o império, havia nas mesmas localidades populações sérvias, ciganas, húngaras, alemãs ou judias, ou outra qualquer combinação de cinco ou seis línguas e três religiões, mas nesse tempo as pessoas viviam em tranquilidade. O desmembramento do império serviu sobretudo as elites nacionais que, antes, teriam menos hipóteses de ascender ao poder. As expulsões das culturas erradas duraram duas gerações e decorrem ainda, sobretudo por emigração, pois não desapareceu o impulso de discriminar minorias. Entretanto, no resto da Europa, quando hoje se fala nas vantagens do multiculturalismo, isso significa aceitar culturas não europeias e considera-se irrelevante a continuação da discriminação política ou cultural dessas minorias internas, as que ficaram do lado errado das novas fronteiras e que continuam a resistir à assimilação. Há também o curioso caso dos migrantes dentro do mesmo país, cuja aceitação nunca foi fácil, sendo o caso catalão o mais evidente.

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publicado às 12:19



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