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Que se passa na América Latina?

por Luís Naves, em 31.08.18

O que se passa na América Latina? Ainda não ouvi uma boa explicação, mas o cenário é preocupante: colapso na Venezuela (e talvez na Nicarágua), a Argentina a pedir ajuda ao FMI, o Brasil numa crise política alarmante, talvez à beira de uma eleição catastrófica. Se juntarmos a isto os problemas financeiros na Turquia (um dos canários da mina) e a crescente guerra comercial entre potências, está a formar-se um daqueles momentos de alta volatilidade que terminam em rebentamentos de bolhas ou quedas bolsistas. Há pelo mundo dívidas insustentáveis, países que mergulharam em súbitas dificuldades de liquidez, regimes à beira do fim, democracias presas por um fio, mas se ocorrer por contágio uma súbita crise financeira, Portugal não tem muitas hipóteses de escapar à queda das exportações e ao aumento de taxas de juro e serviço da dívida, não dispondo de instrumentos para contrariar uma recessão — não é possível baixar impostos e não é possível aumentar a despesa. Se isto acontecer, veremos que o governo acreditou de tal forma na própria propaganda que não terá boa maneira de explicar à população como é que estamos de novo a olhar o abismo.

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publicado às 12:09

Estado de insegurança

por Luís Naves, em 30.08.18

Na Europa Ocidental começou uma transição política que pode até ser o início de uma grande transformação. Esta mudança é alimentada pelo descontentamento de uma franja assinalável do eleitorado, a metade mais pobre da chamada classe média, que foi a parte derrotada na recente crise. Os motivos da insurreição são complexos e levarão anos a ser compreendidos, mas podem estar relacionados com o impacto de novas tecnologias, a contracção dos generosos sistemas de protecção social, a degradação dos serviços públicos, a insegurança física que muitas pessoas sentem nas próprias cidades e a pressão salarial dos migrantes. É fácil observar que cada um destes fenómenos tem maior efeito sobre pessoas mais pobres, as que vivem em bairros sociais ou as que dependem de empregos menos qualificados, a antiga classe operária, que os partidos de esquerda abandonaram. Em todos os países ocidentais, parte substancial da classe trabalhadora empobreceu, as fábricas mudaram de local e os novos empregos são mal pagos. A revolta que se designa como populista será a resposta destes eleitores à crescente insegurança, mas é também uma reacção a problemas concretos que as chamadas elites se recusam a reconhecer. Quando falo em elites, refiro-me ao conjunto de partidos tradicionais, burocracias e organizações, hierarquias académicas, grupos de influência empresarial, de intelectuais e vedetas mediáticas, ou seja, a bolha do topo, cuja narrativa da realidade rejeita qualquer argumento dos descontentes, desprezados como xenófobos, nacionalistas, irracionais, até como fascistas.

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publicado às 12:07

Frequências desencontradas

por Luís Naves, em 24.08.18

Chegámos a Lisboa há uma semana e já dá para sentir o desânimo. Em Portugal, parece que se infiltra no corpo a vontade de não bulir um músculo. Tudo está pré-determinado. Julgo que estamos a assistir ao final de uma época: representados e representantes divergiram de tal forma, que passaram o ponto de não retorno. A situação lembra a de um filme razoavelmente mau, com John Wayne, que vi na televisão, Inferno Branco, onde um avião que aterrou no gelo é procurado por uma frota de aparelhos que procuram seguir sinais de rádio cada vez mais fracos. A metáfora aplica-se à realidade contemporânea: por vezes, é possível ouvir as mensagens de um lado ou do outro, mas no essencial as duas partes do conflito falam em frequências desencontradas. As elites no poder estão dispostas a não ceder um milímetro e não vão aceitar a legitimidade de qualquer revolta eleitoral; os eleitores, por sua vez, já não acreditam em nada do que ouvem, e estão cinicamente alheados, à espera de que o edifício se desmorone. Julgo de daqui a uns anos vamos discutir se votar é assim tão importante. Até lá, as instituições vão separar-se das populações que deviam servir, dirigidas por elites iluminadas que não respondem perante os eleitores. Estes só terão direito a escolhas rigorosamente idênticas. O povo perderá a voz. Portugal infelizmente já funciona desta forma, tornou-se um protectorado da União Europeia, que por sua vez é o triunfo do Castelo de Kafka, indiferente ao que acontecer aqui, desde que haja obediência a uma hierarquia com agenda misteriosa. Portugal é hoje um país a fingir, o pátio das cantigas no seu esplendor.

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publicado às 12:04



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