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Coisas ultra-modernas

por Luís Naves, em 21.07.18

Vladimir Nabokov antecipou o triunfo geral da banalidade e do mau gosto, do moralismo e do lugar comum. Estes eram alguns dos elementos que ele detestava na literatura do seu tempo e que encontramos de maneira abundante na nossa época: a simplificação excessiva, o pedantismo, numa palavra o «fake» (uso a expressão inglesa por ser melhor do que falso, com sentido mais subtil, que tem a ver com a falta de sinceridade e a aparência enganadora das coisas). Os nossos tempos são como a literatura que Nabokov detestava: tudo bonitinho, com falsa poesia, sem autenticidade, embrulhado em belas frases. Gostamos de coisas moralistas, politicamente corretas e suficientemente hipócritas para manterem sempre certa leveza inócua. Somos pela verborreia sentenciosa, a pompa vazia, a ignorância atrevida. Raramente encontramos alguém que diga mesmo aquilo que pensa. Sebastian Knight, em particular, tem muitas pistas sobre a arte da literatura, no conceito de Nabokov, veja-se esta passagem, em que o narrador se refere a um poeta modernista russo: «o grosso da sua obra parece hoje tão fútil, tão falso, tão antiquado (as coisas ultra-modernas têm a estranha característica de envelhecerem muito mais depressa do que as outras)».

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publicado às 19:59

Clima tóxico

por Luís Naves, em 13.07.18

Escrevi um pequeno texto para o Delito, com uma análise sobre os EUA que até me parecia catita, e apareceram logo os comentários ferozes, com gente espantada por ler algo que divergia das opiniões gerais sobre o assunto. Portugal está a ficar com um clima tóxico, onde só são permitidas determinadas visões do mundo. Começam a surgir com frequência os artigos que defendem a existência de uma meritocracia e, para seu desgosto, um eleitorado populista mal informado que, levando a lógica até ao fim, nem deveria ter direito a voto (a República Velha defendia a mesma tese e protegeu o regime do voto de centenas de milhares de eleitores analfabetos, sendo que a ideia ressuscitou logo a seguir ao 25 de Abril, quando muitos comunistas defenderam as assembleias populares). Nestes nossos dias cinzentos, há um cinismo manhoso e provinciano a tomar conta das pessoas que se instalaram nos poleiros intelectuais. Com o desastre à porta, começam a desenhar-se as lamurias que vão servir para tirar o cavalinho da chuva, ilibar os responsáveis e continuar com a vil tristeza que nos afunda. Por tudo isto, começo a ficar sinceramente farto da perda de tempo de escrevinhar umas opiniões avulsas, boas ou más, que extraio sobretudo da minha reflexão, e pouco me importa esta quase desistência, pois há muito que o país desistiu de tanta coisa. Já poucos distinguem uma opinião trivial de outra diferente, um bom romance de um mau, uma interpretação musical culta de outra fora do estilo, e ainda menos se preocupam com isso. O respeito pela tradição, que é um dos pilares da arte, está definitivamente perdido a favor da colagem, da imitação e do gosto das sensações frívolas. A política, aliás, não é mais do que um espelho particularmente cruel destas tendências.

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publicado às 19:50

Uma frase de Agustina e outra de Torga

por Luís Naves, em 12.07.18

Li mais crónicas de Agustina, de um de três volumes onde se reúnem centenas de textos geralmente muito bons, e a certo ponto encontrei uma crónica (parvamente não anotei a data, mas julgo que era do DN) onde a escritora falava de uma visita da famosa actriz Cicciolina ao parlamento nacional (sem necessitar de explicar que a coisa correra mal) e a prosa rematava com uma frase que cito de cor, qualquer coisa como: até a pornografia tem de ter carácter. Lembro-me de uma segunda visita de Cicciolina a Portugal (devo ter escrito alguma coisa para o Tempo) e ocorreu-me a abordagem que o artista plástico Jeff Koons fez do seu matrimónio com a actriz, com imagens pornográficas onde imperava o kitsch, o exagerado, grotesco, fantasista, voyeur, banal e até ordinário, mas com sentido de humor e sem filosofia ou pretensões poéticas. No Diário de Miguel Torga, encontrei uma entrada em que o autor se insurgia contra o que considerava ser o exagero erótico da literatura da sua época, com a excessiva exposição da intimidade — julgo que ele estava a referir-se a livros que hoje nos parecem inocentes ou pudicos, mas o essencial desta entrada de Janeiro de 1950 é bem interessante: segundo Torga, havia quem escrevesse «palavrões» e descrevesse «cenas sexuais com toda a pornografia». E rematava: «Deixá-los! Os livros não têm força, nem verdade. Em medicina, o órgão que se sente, é um órgão doente. Estes escritores sentem demais o pénis”. O Diário — um caderno de apontamentos que não pretende entrar na intimidade do autor ou em críticas individualizadas, «não sou delator, nem meu, nem dos outros», por isso não sabemos que livros lhe despertaram a crítica — tem reflexões úteis sobre literatura e várias entradas sobre o romance português, que o escritor considera pobre, devido ao atraso nacional e à falta de imaginação.

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publicado às 10:33

Dias esponjosos

por Luís Naves, em 11.07.18

Os dias esponjosos da longa primavera húmida deram lugar a um calor ventoso, de calma aparente, mas com algo de intranquilo no seu interior. As pessoas andam nervosas, sem saberem bem o que as espera. Há pequenos sinais pelo ar, de gente com pavio curto ou com pressa em excesso, gente sem tempo para escutar o que as envolve. O país está insuflado de almas impacientes e sem esperança, que se arrastam, num cansaço deprimido, à espera de uma pausa para respirar. Certa revista trazia na capa a vedeta a confessar o seu desespero; é do que mais vende, a exposição da tristeza alheia. Ao lado, as capas dos jornais festejavam o salvamento de uma equipa de futebol juvenil numa caverna da Tailândia e a transferência milionária do símbolo futebolístico da nação; é também do que mais vende, a boa notícia sobre a felicidade dos outros. Sim, estes são tempos de cinza, dos quais não ficará quase nada, excepto aquilo que mais vende, que é também o que possa reunir as qualidades do artifício, do exagero, do agressivo e do perverso, de preferência disfarçadas de contestação superficial à ordem burguesa (ou será desordem?).

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publicado às 10:28

País sem problemas

por Luís Naves, em 10.07.18

Os canais televisivos de notícias dedicam horas e horas a discussões intermináveis sobre futebol, onde se repisam informações perfeitamente inúteis ou perfeitamente especulativas. O fenómeno está a assumir proporções de loucura: desapareceu o noticiário convencional e fala-se sem cessar do nada. Isto não é inteiramente novo: a cultura já sofrera uma extinção semelhante à dos dinossauros, as notícias sobre dinheiro tinham forçosamente de transmitir optimismo aos agentes económicos e a informação internacional resumia-se a banalidades inócuas de um suposto conflito entre bons e maus. Vendo as notícias de hoje, o País transformou-se num gigantesco centro de estágios futebolísticos e deixou subitamente de ter problemas. A única ideologia permitida é a da auto-estima levada à hipérbole.

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publicado às 10:25

Literatura photoshop

por Luís Naves, em 08.07.18

Escrever ficção é difícil devido às escolhas que o autor deve fazer em nome do compromisso que procura a verosimilhança e o imediatamente inteligível. Devemos pensar excessivamente nas deficiências do leitor, que não tem culpa de ser subestimado. Além disso, vivemos numa época medíocre e fútil, auto-centrada em excesso, que aprecia ideias mastigadas — que a doutrina afirma serem meramente «ideias depuradas». Em resumo, temos de escolher a dose certa de pureza nos conceitos, retirando o que possa pesar, como se a matéria magra fosse a única possível. Procuramos a imagem idealizada do humano, do excessivamente belo, já que tudo o resto incomoda. Detestamos imperfeições e fazemos literatura Photoshop, a suavizar arestas e sombras, a embelezar ou a retirar os defeitos da espontaneidade das coisas vivas, deixando apenas a juventude eterna, de preferência devidamente cómoda e adocicada.

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publicado às 12:02

Boa definição

por Luís Naves, em 07.07.18

Experimentei testar uma ideia de Agustina Bessa-Luís, que li ontem num dos magníficos volumes que reúnem centenas de crónicas da escritora: «Um bom livro tem de agarrar o leitor numa qualquer página, ao acaso». Há naqueles textos muitas outras pérolas semelhantes, a desmentir quem afirma que a crónica é um género menor.

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publicado às 10:18



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