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A competição de pulos

por Luís Naves, em 16.06.18

Os principais dirigentes políticos estão envolvidos numa espécie de competição de pulos sobre quem é que mostra maior fervor pelo clube da pátria. Se o país não tivesse outros problemas, não havia nada de mal, mas o grande F deste regime, o futebol, permite apagar a luz durante demasiado tempo e, acima de tudo, cria um clima de ilusão e de pensamento mágico. Quando cairmos na realidade, um pequeno abalo será vivido como terramoto, a mínima perturbação social ou económica será interpretada como calamidade. O folclore da auto-estima, a teoria das vacas voadoras e a fé que vê miragens estão a conduzir o país para o território das desilusões insuportáveis.

publicado às 12:00

Tudo ao contrário

por Luís Naves, em 15.06.18

Alguns comentadores não entendem que uma grelha de análise errada torna impossível a compreensão dos acontecimentos. Nos países de leste, a política não pode ser descrita como liberais versus nacionalistas, como acontece actualmente, pois os chamados liberais são na realidade pós-comunistas e os nacionalistas são exactamente os mesmos que na transição eram definidos como liberais, ou seja, aqueles que defendiam um tipo de sociedade com instituições democráticas. Ironicamente, os fariseus da Europa criaram uma narrativa que coloca tudo de pernas para o ar, transformando democratas em autocratas e pós-comunistas em liberais.

publicado às 11:59

Sobre a mediania

por Luís Naves, em 12.06.18

O romance está muito avançado, falta a ponta final e as emendas, a parte mais difícil. Entretanto, mergulho na impaciência, com a crescente sensação de vazio e cansaço, pois todo o meu esforço se revela desnecessário e até ridículo. É bastante evidente que este livro não será publicado ou, se sair à luz do dia, parece-me óbvio que poucos o lerão e que ninguém se irá incomodar com ele. Posso estar a escrever para outra época, mas é duvidoso (isso é para uns raros), o mais certo é não estar a escrever para época nenhuma, como aqueles artistas que se esforçaram sempre imenso, mas jamais se distinguiram da mediania, que em arte é a zona insuficiente. Sim, na arte, na ciência, a mediania é menos que medíocre, não acrescenta coisa alguma, de nada serve, é apenas mais um bocadinho de ruído no imenso concerto do inútil.

publicado às 11:57

Mudanças políticas

por Luís Naves, em 10.06.18

Está a ocorrer uma alteração política na Europa, com a crescente aproximação entre conservadores e populistas, ou seja, o centro-direita a fracturar-se, resultando igualmente no reforço do centro federalista que já absorveu parte dos social-democratas. A dicotomia direita-esquerda parece esgotar-se. Como dizia o outro, isto agora é a três: temos o bloco conservador-populista, que quer travar as migrações e despertar os sentimentos nacionalistas; o centrismo liberal-federalista, favorável ao multiculturalismo e à globalização; e a esquerda neo-marxista, que lidera as guerras culturais e desconfia profundamente do capitalismo, da globalização e do federalismo europeu. Portugal, para variar, anda fora destas coisas, entretido com a bola e o folclore da auto-estima.

publicado às 11:56

A minha vida de molusco

por Luís Naves, em 06.06.18

Percebo um pouco melhor o que significa viver na concha. Tenho uma existência de molusco bivalve, com curtos vislumbres da vida exterior e gasto o meu tempo nestas escritas, que se destinam ao inútil, e em longas reflexões sobre os farrapos da realidade que me chegam através dos filtros da mediação televisiva. Sei cada vez menos sobre o que se passa nos meios onde se tomam decisões, desconheço as discussões das elites e ouço com crescente cepticismo os poucos debates tolerados, onde os políticos do costume repetem as banalidades que se esperam deles. Gasto demasiado tempo a ver notícias na internet, a tentar descortinar para além da agreste paisagem do meu aquário, do qual aliás só vejo uma parte ínfima, pois da minha concha tenho um ângulo de visão limitado. Em compensação, há mais tempo para pensar: ninguém me telefona (este texto foi interrompido pelo telefonema de alguém que se enganou no número e assustei-me com a chamada), posso ler ou passear, entretenho-me com tarefas domésticas, vou anotando o que escrevi em cada dia numas tabelas estatísticas que revelam ritmos um pouco absurdos de trabalho; muitos dos meus amigos desertaram. A vida na concha tem os seus momentos de conforto e os seus problemas. Posso fechar completamente as valvas do exoesqueleto, até não ouvir nada do que venha do exterior, posso abrir ligeiramente e olhar, sempre com receio, a agitação incompreensível lá fora. Oscilo entre esta vontade de viver protegido e a necessidade de sair da casca.

publicado às 11:54

Isto hoje está lento

por Luís Naves, em 05.06.18

Passei seis horas nas finanças, na companhia de outros pobres, descontentes e frustrados, onde se incluíam muitos estrangeiros. Com as bases de dados, os computadores, as novas tecnologias, gerir o país devia ser cada mais simples, mas acontece o contrário, o Estado tornou-se incapaz das mais pequenas tarefas (e as finanças até funcionam razoavelmente, em comparação com outros organismos). O excesso de leis é um labirinto onde muitos se movem com extrema dificuldade. Quando insisti com um funcionário para que desse prioridade a uma senhora de 88 anos que estava por ali abandonada, ele proferiu uma frase lapidar, que julgo ser a que se ouve nestas situações: «isto hoje está lento». Portugal é mesmo assim, «isto hoje está lento», ninguém sabe bem porquê, nem interessa.

publicado às 12:46



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