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As mulheres dos jihadistas

por Luís Naves, em 23.05.18

Quando expulsou o movimento Estado Islâmico do seu território, o exército iraquiano, com a assistência das milícias curdas, capturou centenas de familiares dos jihadistas, sobretudo mulheres e crianças, muitas das quais terão sido certamente vítimas da brutalidade dos combatentes radicais. Os tribunais iraquianos estão agora a condenar à morte as mulheres dos jihadistas, que foram desde o início tratadas como criminosas, não como vítimas. Já foram decididas dezenas de condenações à morte por enforcamento, isto no âmbito de uma repressão mais vasta que inclui os militantes sobreviventes, que estarão a ser executados. Claro que o enforcamento destas mulheres é uma barbaridade inaceitável, uma injustiça absurda que só criará mártires e órfãos. Não me ocorre um exemplo de conflito militar contemporâneo que tenha dado origem ao extermínio dos familiares dos derrotados. Estas mulheres devem ser entregues aos países de origem (Turquia, França, Alemanha), com as suas crianças, e tiradas daquele inferno, mas os países de origem estão a protestar apenas suavemente. O Ocidente tem esta obrigação e uma das coisas que mais me custa é o silêncio, a indiferença, a hipocrisia. Onde estão os indignados do costume e as feministas? onde estão os protestos dos intelectuais politicamente correctos e as manifestações contra este ultraje? onde estão os jornalistas, os defensores de direitos humanos, as Nações Unidas, a União Europeia e a comunidade internacional? porquê o silêncio?

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publicado às 12:48

Contemporâneo

por Luís Naves, em 21.05.18

O mundo contemporâneo? bem, isso é como a pescadinha de rabo na boca que se fechou num círculo de futilidade, a minha volta de 360 graus em torno de mim mesmo, tal como o ponteiro dos minutos, sempre às voltas e em busca de rumo, que é uma espécie de norte magnético a deslocar-se à velocidade geológica na direcção do sul, dando durante milhões de anos voltas em redor do planeta inteiro pois, lá no profundo, circulam fluidos sobre si próprios, enquanto em órbita voam estações espaciais que desenham círculos imperfeitos, como um carrossel sempre às rodas dando a ilusão de velocidade e em que as pessoas estão sentadas no mesmo sítio, ao contrário do que faz o peixe do aquário mais a sua ilusão do infinito, a apalpar paredes e a abanar barbatanas num movimento perpétuo, aventurando-se sempre em frente, e tal como estas palavras que por aqui andam às rodas, a frase a abrir a boca e a engolir as palavras seguintes, que assim formam uma fila indiana de gente em que o primeiro encontra o último e deixa de haver primeiro e de existir último.

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publicado às 12:51

Doce ilusão

por Luís Naves, em 18.05.18


A sociedade portuguesa anda muito doente e a melhor analogia que me ocorre é a da diabetes. Uma sociedade diabética, lentamente envenenada pela doce ilusão de um bem-estar que se acumula em todos os tecidos e sistemas, destruindo os órgãos, a visão, a própria inteligência. A nossa realidade é a de velhos obesos, sem futuro e com memória imprecisa, que morrem devagar sob o efeito tóxico de um mal subtil, que lhes invade e contamina as células, sugando a vontade de viver, adormecendo a razão, comprometendo a fertilidade. O narcótico que separa as classes, o sonho do consumo infinito, ainda degrada a natureza e destrói o clima. Este corpo envelhecido, inseguro, pressente e teme o declínio, embora esteja viciado no conforto do prazer efémero e no suave embalo de um tédio sem desígnio.

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publicado às 19:30

Miopia

por Luís Naves, em 02.05.18

Uma elite minúscula domesticou a sociedade civil, através do domínio de parte da comunicação social, da justiça e das universidades. Durante duas décadas, ninguém progrediu a criticar más políticas, sobretudo as do PS. Os processos eram amaciados, as notícias escondidas nas páginas pares, os intelectuais não alinhados eram mandados para o deserto das ideias e os juízes atrevidos eram transferidos para o cu-de-Judas. Estamos agora a ter os primeiros vislumbres de quanto isso nos custou; e ainda pode custar mais, se o país cair nas mãos dos populistas que vão deitar as culpas para a democracia. O certo é que este regime fabricou uma classe política míope e falhada, de onde saíram poucos que se atreveram a agir, geralmente ditando assim o fim das suas carreiras.

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publicado às 19:28

Journal

por Luís Naves, em 01.05.18

A minha abordagem à escrita de um diário é jornalística e não é por acaso que este género em inglês se chama journal (o mesmo em francês). Interesso-me sobretudo pelos factos em meu redor, faço pequenas observações do quotidiano, coloco aqui as minhas opiniões e dou conta das notícias relevantes, à maneira de um testemunho do meu tempo. Admito que isto seja pouco interessante daqui a dez anos, como acontece com muito jornalismo. Ninguém se irá interessar pelas minhas opiniões menos certeiras ou por acontecimentos que faziam parte da espuma da minha época. Por outro lado, um diário sobre a intimidade ou sobre as pessoas que conheci seria uma perfeita sensaboria. A minha biografia não tem interesse, mas acredito que o relato do presente possa ser para mim uma boa leitura dentro de alguns anos, já que o futuro promete ser bem diferente daquilo que conhecemos. Ao ler estas páginas poderei olhar o passado entretanto esquecido, a espantar-me, dizendo em sussurro: «estão, isto foi assim»? poderei recordar que naquele tempo começava a falar-se da inteligência artificial e de vez em quando víamos um carro eléctrico a circular na estrada; foi quando começou a sério aquela cena do streaming nas televisões, ainda víamos canais à maneira antiga, mas só passavam intermináveis debates sobre futebol, em que indivíduos histéricos espumavam irritações a falar de um único lance durante horas; foi antes da terceira bancarrota, quase nem deu para recuperarmos da segunda; e lembras-te de como as pessoas se vestiam? do fast-food? dos sem-abrigo que se faziam acompanhar de cães e gatos de estimação? do presidente que era só beijinhos e selfies? (parece tão ridículo hoje, tão fora de moda, isso das selfies); e lembras-te de como se usavam tantas palavras em inglês (só neste texto já vão quatro palavrinhas)? e os filmes eram maus à brava e a excitação que havia com coisas péssimas, ao mesmo tempo que não percebíamos o que era bom; e os pedantismos que agora nos soam cómicos, os turistas parvos, a morte dos jornais, a especulação imobiliária, os terroristas barbudos que se lançavam de carro contra multidões, a ingenuidade pacóvia das conversas intelectuais? o pensamento mágico dos que ainda estavam no século anterior (ouço-os daqui, cgtp unidade sindical), a vaidade dos artistas que hoje já ninguém recorda, e ainda havia primaveras mas já eram mais curtas do que antigamente, lembras-te? passávamos do oito para o oitenta no tempo em que o diabo esfregava o olho?

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publicado às 12:41



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