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Análise política

por Luís Naves, em 30.04.18

Um dos problemas da análise política é a falta de imaginação. Muitos analistas olham para a realidade como algo de estático e procuram os sinais de equilíbrio, mas quando olhamos para o presente percebemos sempre uma enorme diferença em relação ao passado. Há uma lei segundo a qual o futuro é quase inimaginável: o que hoje nos parece equilibrado não é mais do que uma situação precária cuja fragilidade nos escapava. Leio os textos de opinião sobre a situação política nacional e os autores detectam apenas a inflexível resistência de um governo minoritário que todos acham impossível retirar do poder. Escapa-lhes porventura o carácter eminentemente instável da situação: a táctica de dançar à vez com duas namoradas pode ter momentos saborosos no tempo que dura um baile, mas acabará inevitavelmente em ressaca e conflito.

publicado às 19:25

Que restará de tudo isto?

por Luís Naves, em 22.04.18

Que restará de 2018 daqui a mil anos? Admitindo que a civilização ocidental resolve os seus maiores problemas, trinta gerações são uma eternidade, a ponto de nessa altura sermos incompreensíveis, como os bizantinos são para nós. Partindo do princípio de que a nossa civilização encontrará formas de progredir sem passar por colapsos traumáticos, talvez se consiga resolver a limitação das viagens espaciais, prolongar a vida humana e desenvolver máquinas inteligentes, talvez se encontrem soluções para os problemas da energia, ambiente, água e alimentação da humanidade, que será mais numerosa e transformada. Em 3018, haverá cem mil milhões de seres humanos dispersos por trinta planetas habitáveis em 80 sistemas solares explorados, cujas ligações levarão trinta a cinquenta anos a concluir entre si. Sendo necessário para cada viagem um décimo da longevidade média dos astronautas geneticamente modificados, haverá aventureiros famosos a concluir a sua sétima ou oitava viagem (os passageiros estarão em hibernação, para consumirem o mínimo de recursos, e a maioria dos sistemas terão inteligência artificial). Cada pequeno núcleo de viajantes levará consigo embriões humanos. Com núcleos populacionais tão distantes entre si, a linguagem estará a fragmentar-se a partir de uma língua franca baseada em inglês, castelhano e mandarim, cujas formas arcaicas, tal como eram faladas no início do século XXI, serão compreensíveis só para peritos, como o latim pertence hoje a uma elite de sábios. Para historiadores especializados em assuntos arcanos, o ano de 2018 terá uma sensaboria interna que os obrigará a vasculhar velhos arquivos nas camadas mais profundas do conhecimento, consultando informação que ninguém terá procurado desde o centenário anterior. Entre o que não se perdeu entretanto, por causa das tecnologias obsoletas dos arquivos, será possível recuperar imagens e factos, com dúvidas sobre o respetivo grau de relevância: por exemplo, qual o motivo de determinado conflito num país obscuro que se chamava Síria ou o que pretendiam as potências da época, Estados Unidos, China, aliança europeia (seria este o nome?), os impérios russo ou japonês, núcleos políticos que se desintegraram ou reconfiguraram ao longo dos dois séculos seguintes, para não falar daquelas pequenas nações extintas com nomes poéticos, como Portugal, cujos problemas não passarão de enigmas quase insolúveis, a exigir especulação histórica. Das artes, pouco restará. O pós-modernismo foi uma transição em que se privilegiou a moda e o fogo de artifício, que por definição não resistem à tradução e à poeira do tempo. Mesmo para eruditos, será difícil distinguir entre 2018 e os anos à volta (o que terá sido aquela crise de 2008?); e alguém, mesmo culto, terá dificuldade em perceber se 2018 foi antes ou depois da Guerra Fria, precisando de fazer contas de cabeça para compreender que já tinham passado gerações após os grandes tiranos do século XX, cuja fama misteriosa será o que para nós é a celebridade de Átila, o Huno. O cidadão comum terá dificuldade em lembrar-se que 2018 ocorreu depois da primeira viagem à Lua, que por sua vez os estudantes mais cábulas tentarão colocar no século XXI, levando os tutores robóticos à impaciência. Talvez os historiadores ortodoxos concordem em chamar ao nosso tempo o breve período do liberalismo complacente ou terceira fase capitalista arcaica, ainda antes da pré-robotização e da ascensão das máquinas, certamente um momento pouco fértil do lento progresso rumo ao início do século XXII, o da segunda renascença, aí sim, com aceleração da História e coisas interessantes para estudar.

publicado às 18:33

Declínios

por Luís Naves, em 21.04.18

A sociedade laica parece estar a desenvolver uma forma de pensamento mágico que a faz desviar-se de todos os problemas, como se eles não existissem ou pudessem milagrosamente resolver-se pela inacção. Talvez isto seja próprio daqueles países que envelhecem sem se dar conta ou seja próprio daquelas oligarquias à beira da revolução ou catástrofe e que ainda se entretêm numa existência alheada e aparentemente doce, onde os ódios são contidos e as palavras estão sempre cheias de ambiguidade educada ou de um vazio encantador. Assim eram as bolhas aristocráticas antes da revolução francesa ou da burguesia europeia antes de 1914: o reino da hipocrisia, cheio de regras para iniciados e onde já ninguém dizia o que pensava, mas falava em código. Agora, existe algo de semelhante: triunfa uma classe global que jamais diz o que pensa e deseja apenas que o sumptuoso declínio permaneça sob uma belíssima iluminação crepuscular.

publicado às 12:39

Pequenos soldados

por Luís Naves, em 12.04.18

Nos jornais já não se escrevem crónicas de jeito e nos jornais online este género jornalístico está extinto. Há, pelo contrário, grande profusão do género opinativo, que também não é para todos, sendo apesar de tudo fácil fazer uma boa imitação. Para a reportagem não há dinheiro e a que se faz é sobre temas leves, quase sempre com a tese já programada. De facto, e por muito que me custe esta opinião, começa a ser difícil justificar a existência de jornais em papel. Para ler as notícias de ontem? Mas já vimos tudo nos portais de informação na internet, já lemos até os comentários nas redes sociais, demos uma vista de olhos na imprensa estrangeira online, vimos as televisões, por isso temos uma ideia muito precisa do noticiário básico. O que podia ainda diferenciar os jornais foi aquilo que desapareceu: a boa prosa, a história original que nenhum outro órgão apanhou, a opinião heterodoxa (mas certeira) e a crónica capaz de nos fazer ver a realidade de outra forma. Os jornais suicidaram-se e julgo que esta morte começou naqueles anos da concentração dos meios de comunicação em grupos económicos, como pequenos soldados em grandes exércitos ao serviço de enormes interesses.

 

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publicado às 18:39

É tudo demasiado frágil

por Luís Naves, em 10.04.18

No centro da cidade, há um constante inferno de ambulâncias que passam com as sirenes numa chiadeira assustadora. Isto aconteceu ontem à tarde: uma ambulância de bombeiros aproximava-se da avenida em velocidade cautelosa, num grande chinfrim, a tentar passar o vermelho; de súbito, em sentido perpendicular, houve um guincho de travões e o som horrível do choque brutal entre dois veículos, que ainda vi parcialmente: uma mota de grande cilindrada estatelara-se contra a traseira de um táxi que travara no verde para deixar passar a ambulância. Não me virei a tempo de ver o que acontecera ao motociclista, que foi a minha preocupação, o que acontecera ao condutor da mota? e só percebi toda a cena quando o táxi saiu do cruzamento, para parar um pouco mais à frente. No solo, jazia um homem e o insólito era o fatinho completo, a gravata encarnada, a cara atrás do enorme capacete preto, onde apareciam uns óculos com ar entre o aflito e o confuso. O homem estava estendido ao contrário do que eu pensara, tentou erguer-se e desfaleceu. Suspirei de alívio, porque ele parecia consciente e não fora atropelado por outro carro. Os homens da ambulância ficaram imediatamente no local, tudo se passou de forma civilizada, sem pressas nem pânico: estabilizaram o ferido, o taxista colocou o triângulo do seu veículo atrás da mota desfeita, no espaço de minutos chegou a polícia e o homem do fato permaneceu no solo sob a atenção dos socorristas. Não fiquei para ver se foi levado para o hospital, mas presumo que isso era lógico. Assisti apenas a isto, talvez a um acidente sem consequências, só mais tarde fui pensando no que não testemunhei: o motociclista estava estendido no solo com a cabeça virada para a mota, o que significa que terá dado um salto mortal completo no ar, com as pernas a rodarem 250 graus; isso também significa que caiu no solo desamparado e provavelmente de costas, com risco de partir ossos da bacia, um braço ou alguma vértebra. A vítima estava consciente e mexeu-se (bom sinal), mas não conseguiu pôr-se de pé. Talvez os ferimentos fossem ligeiros, mas era impossível não admitir mazelas mais graves e estive todo o dia a pensar na fragilidade de tudo: uma motona cara, o fato elegante, a vida cheia de sucesso, mas isso pode mudar em segundos, num qualquer acidente estúpido, porque travar uma mota é difícil e um táxi queria deixar passar uma ambulância que podia ter esperado pelo verde.

publicado às 12:32

Carta da minha sobrinha-neta Flora

por Luís Naves, em 06.04.18

Carta da minha sobrinha-neta, Flora, escrita em 2100, enviada pela máquina do tempo que ela mesma inventou, na sua primeira experiência. A carta apareceu-me hoje assim, manuscrita, na minha secretária:
«Querido tio, gostava que aqui estivesses, para poderes ver o meu mundo, tão diferente daquele que imaginaste. Não posso dizer que somos todos mais felizes do que no teu tempo, pois isso seria exagero e mentira, mas vivemos numa sociedade que, apesar dos seus defeitos, é mais justa do que aquela que conheceste, mais rica e progressiva, mais optimista e segura. Somos mais sábios? Não me parece, mas sabemos mais coisas, o que não é o mesmo. Os problemas da tua época não têm a mesma forma na minha, mas persistem neste tempo alguns dos defeitos menores da nossa espécie, a inveja, desprezo, medo, ambição e os chamados erros humanos em geral, que resultam das fraquezas correntes e que seria apesar de tudo uma grande pena perderem-se pela inevitável e progressiva modificação da nossa natureza. É talvez o problema que mais nos apaixona: até que ponto queremos manter a natureza humana, prolongar a vida, aumentar as nossas capacidades mentais e físicas, incluir uma parte maquinal nos nossos corpos, viver em comunidades de consciência alargada, entre outras amplas possibilidades tecnológicas que dificilmente poderias entender. Os meus pais ensinaram-me a gostar e cuidar de pessoas e assim vivi todos estes anos, já não vou mudar, embora me preocupe a longevidade e, claro, tudo farei para atrasar o meu próprio envelhecimento e a miséria da decadência. Tenho 82 anos, o que nesta época ainda é ser jovem, por isso viverei mais umas décadas. No ano em que nasci, em 2018 (lembras-te quando me pegaste ao colo?) sei pelos teus apontamentos que imaginaste um futuro com viagens mais velozes, energia abundante, gente em demasia, crises sociais e poderes oligárquicos. No fundo, olhavas para a tua realidade e pensavas como ela iria evoluir através de mais do mesmo: haveria aviões, mas mais rápidos, computadores mais pequenos, pessoas mais saudáveis, conflitos com mais fogo-de-artifício, um capitalismo mais selvagem. Não aconteceu exactamente assim, houve saltos súbitos e mudanças profundas, sobretudo quando acabaram os combustíveis fósseis e descobrimos a forma de viajar entre as estrelas e de construir autómatos capazes de fazer todo o trabalho mecânico. Não, não concluas que somos indolentes e preguiçosos, dispomos de um exército de escravos robóticos, mas cada indivíduo pensa em ser útil e, na realidade, vivemos uns para os outros. Dedicamo-nos à fantasia e à busca da felicidade, libertámo-nos da ideia de utilização finita de recursos (usamos sempre menos do que está disponível), explorámos outros sóis na galáxia e levámos connosco o esplendor da vida, com nova compreensão da mortalidade e melhor entendimento do universo. Tudo aquilo que entre nós te poderia horrorizar (as experiências de mente colectiva, por exemplo, ou a minha máquina do tempo), possui também alguma coisa de milagre; as nações diluíram-se e as culturas misturaram-se, não há fronteiras (excepto em alguns locais que escolheram manter-se isolados), temos mais liberdade e tolerância. Pensarias porventura que, para as nossas idades, somos infantis, ingénuos e demasiado irreverentes, certamente ficarias surpreendido com a sofisticação artificial e algo pedante das conversas que mantemos à hora do chá. Talvez te fizéssemos rir e talvez nos ríssemos de ti, meu tio-avô, que estás tão sério neste velho retrato da tua meia-idade, uma imagem diluída que tenho à minha frente e me leva, através da espessa névoa que cobre o oceano do tempo, a vagas memórias da tua existência»

publicado às 18:42



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