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Não somos diferentes

por Luís Naves, em 21.03.18

Os homens primitivos precisavam de saber o que estava para lá da montanha mais alta ou do rio caudaloso e, para isso, ouviam histórias daqueles que tinham explorado essas fronteiras. Não eram relatos factuais, mas exageros distorcidos pela imaginação, e só assim funcionavam. Não somos tão diferentes dos nossos antepassados, só mais organizados em rede, por isso, também gostamos de coboiadas, de histórias de aventuras e crimes, por isso necessitamos de ler, ou seremos apenas formiguinhas embaladas em caixas. E, no entanto, a ambição provocada pelos exercícios da imaginação vai desaparecendo da arte contemporânea, sobretudo devido à domesticação imposta pelo dinheiro. Estão a matar aquele um por cento de literatura que a humanidade ainda possuía. Ou talvez não, de vez em quando ouvimos pequenos testemunhos daqueles tios que ainda vão escrevendo: esforçam-se por explicar que a arte é uma ilusão em movimento e tentam extrair das realidades toda a essência que não se consegue dizer por palavras, tudo o que na experiência humana possa ser mais obscuro, indomável e desmedido.

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publicado às 14:08

Dissonância

por Luís Naves, em 13.03.18

Uma das características mais subtis da política contemporânea tem a ver com a distância crescente entre as elites e o povo, uma dissonância que se vai espalhando pelos meios intelectuais e que ocorreu no passado antes de grandes convulsões. Não há jornalista que não repita aquelas beatitudes quase religiosas sobre os valores liberais ou que se atreva a fazer uma leve crítica aos excessos ideológicos dos bem-pensantes. A academia, essa, entrou mesmo no delírio da torre de marfim, numa separação radical em relação ao mundo lá fora. Os políticos usam a linguagem de pau e têm tanto maior êxito quanto menos tentam mexer nas alavancas da sociedade. Os governos parecem cada vez mais impotentes para fazer o mínimo. Tudo é aparência, de conhecimento, de poder, de arte, mas na realidade oculta-se a acção do estado profundo e dos interesses oligárquicos, condenando as sociedades à paralisia e à mediocridade. Cresce a intolerância perante a mínima contestação da ortodoxia e todos os que têm algum acesso aos meios de comunicação limitam-se a dizer inanidades sem contacto com a vida dos outros. É o mundo do castelo: já ninguém pode compreender os mecanismos do poder, a democracia representativa tornou-se desnecessária e a elite, para além da crescente falta de transparência, tem intenções misteriosas.

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publicado às 14:07

Escândalos de Hollywood

por Luís Naves, em 04.03.18

Em véspera da cerimónia dos óscares, não é possível ignorar a extraordinária decadência a que chegou Hollywood. Não sei se é o infantilismo da Marvel, o politicamente correto, a violência ridícula ou algo de mais sério, mas olhamos para a lista dos óscares de melhor filme e não encontramos um vencedor de jeito desde 2003. Longe vão os tempos áureos, entre 35 e 44, onde nunca houve menos de duas obras-primas a disputar cada troféu. Em 1942, no óscar de melhor filme, venceu O Vale Era Verde e o derrotado principal foi Citizen Kane. Venha o diabo e escolha! Num único ano, concorreram duas obras inesquecíveis, que devem constar em qualquer lista honesta dos dez melhores filmes americanos de sempre. Em contraste, a partir de meados dos anos 70, o cinema americano passou a exibir uma mediocridade geral, pelo menos na lista de vencedores. Em 1975, o histórico Barry Lyndon perdeu para o histérico Voando Sobre um Ninho de Cucos. Em 76, imagine-se, Taxi Driver perdeu para Rocky. E em 1979, Apocalypse Now perdeu para a xaropada Kramer vs Kramer. A última película de qualidade indiscutível a ganhar o óscar de melhor filme foi O Senhor dos Anéis, em 2003, e o último escândalo remonta a 2006, com a derrota de Cartas de Iwo Jima por um filme chamado The Departed. Entre os vencedores, não há uma obra-prima marcante desde 1972, ou seja, desde O Padrinho, apesar das vitórias justíssimas de Imperdoável, em 1992, e do já referido Senhor dos Anéis, dois filmes brilhantes que, apesar de tudo, não têm a mesma importância do primeiro. Para mim, é um mistério: qual a razão do declínio? Hollywood já foi a grande máquina ideológica do mundo ocidental, mas agora é apenas uma maquinaria sem ideias. Há dinheiro, tecnologia e talento, mas os melhores produtos são apenas sofríveis ou engraçados; os piores, embora intragáveis, são muitas vezes os premiados.

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publicado às 14:00



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