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O nosso tempo

por Luís Naves, em 23.01.18

O nosso tempo compara com o final do século XIX e viragem para o século XX, época com desenvolvimento acelerado, descontentamento das classes trabalhadoras, crescimento das desigualdades sociais, equilíbrio de poderes entre as grandes potências, império sobre as restantes. É curioso verificar que as elites de 1890 encaravam o exercício do poder da mesma forma que as actuais, como se houvesse uma ordem natural que tinha de ser respeitada, independente da vontade eleitoral dos povos. Isso talvez explique a disciplina dos interesses (políticos, financeiros, mediáticos) que dependem da estabilidade política. As duas épocas também coincidem nos elevados índices de bem-estar da oligarquia, na melhoria acentuada das condições de vida da classe média, na explosão de ideias científicas, na pujança da cultura popular e na enorme diversidade de propostas artísticas. Distantes um do outro em cerca de 120 anos, estes dois períodos coincidem na euforia financeira, no entusiasmo pelas inovações, no optimismo inocente de quem acredita no progresso infinito, também nas divisões entre liberalismo e populismo, entre nacionalismo e internacionalismo, no conflito entre a vontade das elites e das massas, na tensão entre abertura ao comércio e fecho de fronteiras. No final do século XIX, rejeitava-se tudo o que parecia velho e clássico, abraçava-se o que fosse novo, incluindo a ideia de criar um homem melhorado, antes pela educação, agora pela genética. As duas épocas talvez acabem por se distinguir uma da outra nos resultados: no passado, após três ou quatro décadas de grande aceleração económica, artística e científica, as potências europeias entraram em guerra e suicidaram-se. A civilização bateu com a cabeça no tecto. Desta vez, as elites tentarão escolher outras estradas, passando entre as gotas da chuva, ultrapassando os obstáculos, fazendo cedências, talvez descobrindo tecnologias que nos permitam subir de patamar. Em 1914, as desvantagens de uma guerra eram de tal forma evidentes, que ela parecia impossível. Agora, diz-se o mesmo, mas talvez seja verdade.

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publicado às 11:33

Um enigma

por Luís Naves, em 13.01.18

Muitas das inovações sociais dos últimos cem anos têm sido sobretudo americanas e, de repente, toda a gente desatou a discutir as peripécias de uma campanha nascida nos Estados Unidos contra o assédio sexual dos poderosos. A campanha nasceu em Hollywood e está a espalhar-se na política e nas artes, com momentos de MacCarthismo e caça às bruxas, outros que dão que pensar. Entre nós, obviamente, só se discute o mau-carácter dos actores de Hollywood apanhados na rede, porque em Portugal nunca houve assédio sexual dos poderosos e os maus exemplos limitam-se à técnica do piropo na construção civil. O tema é pertinente, mas na ausência de prevaricadores nativos e com base nos americanos, a esquerda puritana quer transformar o debate numa teoria de guerra entre os sexos (já agora, como estamos a destruir a pátria, a religião, a família, a arte e todas as restantes tradições, enfim, vamos também proibir a sedução e o sexo). Esta tentativa reaccionária de criar um arquipélago conventual de carmelitas e monges capuchinhos exclui todas as tentativas de ser razoável, como aconteceu nas críticas que choveram imediatamente a uma carta moderada de cem mulheres francesas, alertando para as consequências do exagero desta campanha e para as nuances puritanas que a alimentam. É sem dúvida um dos grandes enigmas nestes nossos tempos falsos: a esquerda ortodoxa está cada vez mais reaccionária e assumiu as principais lutas do conservadorismo.

publicado às 11:29

Excesso de estilo

por Luís Naves, em 10.01.18

A literatura pode ser tudo aquilo que resta depois de ser retirado o que não adianta. Convém não confundir pintura com decoração, música com melodia de acalmar nervos. O fato serve para vestir alguém e, quando não leva em conta as dimensões do corpo, torna ridículo quem o veste. O excesso de estilo é como o fato demasiado longo que não obedece à personalidade de quem escreve. Certo jogador famoso nunca fazia um passe, corria com a bola nos pés como se ela fosse sua e ornamentava cada movimento com dribles adicionais. Nesse tempo, o excesso de estilo era muito apreciado e choviam os aplausos enquanto ele fintava um, dois, três adversários, até finalmente perder a bola. A imprensa dizia que ele era capaz de sair de uma cabina telefónica a jogar, mas funcionava ao contrário, era capaz de se enfiar inutilmente numa cabina telefónica, rodeado de adversários, e ficava lá a dar toques infinitos, até perder a bola e cair no relvado com grandes gestos de protesto a quem ninguém ligava. Um dia, as pessoas fartaram-se, achavam aquilo monótono, e dizia-se que o grande campeão nunca tivera verdadeira noção da baliza. Depois, foi esquecido, mas isso acontece a todos. Se percebemos isto no futebol, devíamos perceber na arte, mas depois lemos Proust e não é nada disto.

publicado às 19:29

Teoria da domesticação

por Luís Naves, em 09.01.18

Instalou-se a ideia perversa de que os jornalistas têm de ser bacteriologicamente puros, um pouco como acontece com os eunucos no harém, não lhes sendo permitida a opinião, a tendência, a defesa de uma causa ou a simples frontalidade, estando aberto somente o caminho da intriga e da dissimulação. Segundo esta tese, as notícias não têm preferência, como se houvesse fórmulas matemáticas para a sua escolha, como se o jornalista fosse despido de emoções, como se ele não tivesse o direito e até a obrigação de defender, por exemplo, a justiça e a liberdade. Em vez da prosa sem alma, o trabalho do jornalista consiste em estabelecer a relevância relativa dos factos e depois, tentar ficar o mais próximo possível de uma leitura autêntica do mundo, ou seja, contando a história com um máximo de honestidade e espírito livre. Quem não compreenda que o jornalismo é sempre uma versão da realidade acredita no futuro do jornalismo burocrático, supostamente equidistante de tudo, embora a equidistância de tudo seja um lugar inexistente. Claro que há na profissão quem confunda relevância com militância, mas fazer propaganda ideológica nunca teve nada a ver com jornalismo e os leitores têm sempre a liberdade de mudar as suas fontes de leitura. Ou seja, a crítica ao jornalismo de causas baseada em exemplos de acção militante é um tiro ao lado e transforma-se facilmente na defesa da escrita dependente e funcionária que os poderes desejam e que os leitores rejeitam. Esta teoria da domesticação dos meios de comunicação é o velho sonho das oligarquias e a polémica sobre as chamadas fake news não passa de mais um episódio sofisticado desse combate. Têm surgido pequenas tentativas de limitar noticiários ou de legislar sobre o tema, supostamente para aniquilar as chamadas notícias falsas, cujos exemplos, muitas vezes, não passam de interpretações inconvenientes. As elites acham o público estúpido e acreditam que ele necessita de condução inteligente, serão obviamente essas vanguardas políticas a decidir sobre a pureza dos noticiários. A fragmentação mediática (que tem complexos motivos económicos e tecnológicos) ainda está na sua infância e tornou mais difícil a tarefa de colocar mensagens do poder. Governar é hoje mais incerto e a opinião pública está mais dividida, mas a realidade é a inversa daquela que se discute: as fake news são tão velhas como a imprensa, pois sempre houve boatos, desmentidos e manipulação; o que é novo na comunicação contemporânea é a impossibilidade crescente de se esconder informação do público.

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publicado às 12:24

A desagrageção e os fracos

por Luís Naves, em 08.01.18

Há sinais crescentes do desvario entre os políticos. Deve ter um motivo forte e não pode ser apenas o extremo interesse dos meios de comunicação e redes sociais por tudo aquilo que se diz no universo tão peculiar dos dirigentes fracassados. É que não existe frase infeliz que não se conheça imediatamente. Talvez estes sinais de loucura provem a ascensão desproporcionada dos maus políticos, que impedem o aparecimento dos autênticos talentos que a sociedade contemporânea vai cilindrando em larga escala nos labirintos da mediocridade. É uma explicação razoável, que permite justificar a proliferação de tantas nulidades. Há também a hipótese de estarmos a assistir aos primeiros momentos da desagregação das democracias, dilaceradas entre ideias radicais e populismo. As classes médias que sustentaram os regimes liberais estão desiludidas porventura com a falta de liderança que encontram nos seus fracos governantes. E sabemos como fracos reis fazem fraca a forte gente. É por isso que tudo anda mais crispado e parece fragmentar-se, numa espécie de guerra civil de baixa intensidade que vai largando em pequenas doses toda a energia que a desilusão acumulou, a que se junta o medo da mudança repleta de ameaças. Talvez a melancolia contemporânea esteja também ligada ao envelhecimento precoce das sociedades, e não será toda a velhice uma mistura de esquecimento involuntário e memória nítida de um passado idealizado?

publicado às 19:26

Loucuras

por Luís Naves, em 06.01.18

Sinto crescente dificuldade em entender certas coisas que se publicam nos jornais, como a notícia austríaca sobre a primeira bebé do ano num hospital de Viena. Sendo filha de um casal de imigrantes muçulmanos, a recém-nascida teve direito a insultos anónimos, um dos quais (dizia-se no texto) a sustentar que ela merecia ser morta. Tudo isto vinha ilustrado por uma foto onde se via o simpático casal de progenitores (a jovem mãe de véu islâmico), ladeado por uma médica e uma enfermeira sorrindo também com ar simpático e, no centro da imagem, a pequena cria, a única que já estava com ar preocupado. O problema é que cada idiota tem hoje direito a dizer sem filtro as maiores barbaridades nas redes sociais, em nome da liberdade de expressão que essas cavalgaduras não aceitam senão para si próprias. Que alguns imbecis não vissem ali o milagre da vida diz mais que mil compêndios sobre a doença civilizacional que nos devora.

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publicado às 19:24

Overbooking

por Luís Naves, em 03.01.18

Cheiro horrível à entrada, da fossa, segundo explicou a responsável. Era um daqueles depósitos de velhos, com mensalidades caríssimas, num prédio adaptado, acanhado e labiríntico, com apenas um elevador manhoso, tão antigo como os pobres velhos que enchiam a triste sala do rés-do-chão e que ali tinham sido deixados, à espera do inevitável, sorrindo avidamente a cada novo recém-chegado. Quantos idosos têm dinheiro para pagar renda igual a um salário alto, recebendo em troca um serviço tão miserável? O cheiro da fossa entupida não era de admirar, pois havia demasiados velhos na instalação, uns vinte na sala de convívio, mais os que estavam na sala dos senis, fora os que se calhar dormiam borrados nas camaratas. Overbooking e pobreza para ricos, e não há lugares em lado nenhum, ficam para ali amontoados, talvez amaldiçoando o excelente indicador nacional da longevidade.

publicado às 19:19



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