Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Lisboa em 2100: Uma Reportagem (1)

por Luís Naves, em 03.11.13

1
Não haverá quem os sepulte
Na cidade interminável lutam duas forças opostas, uma que empurra para o alto e outra para as catacumbas de um mundo escondido da civilização. Podemos dispor de breves relances dessa realidade oculta, mas não devemos ter a pretensão de compreender os fantasmas que povoam o submundo. O que se segue são meras impressões, uma história incompleta, um vislumbre.
   O homem tem barba comprida, olhar furtivo, parece um ser algo selvagem, que fala de forma incompleta, numa linguagem que é só sua. Diz que se chama Chico Só, mas não sei se o só é um nome ou um atributo que carrega como distintivo. Diz-me que vive nas catacumbas há pelo menos dez anos e pergunto-lhe com que regularidade costuma ver a luz lá de cima. “Não vejo”, responde-me, “Nunca vou lá acima”.
   Creio que este homem não ficaria cego se visse de novo a luz solar. As catacumbas são iluminadas e há até zonas onde a luminosidade é regulada, simulando o dia e a noite. Este é um mundo inteiramente ligado à cidade da superfície, mas que tende a penetrar no interior da terra, a organizar-se de cima para baixo, como se fosse um caminho que se afunda.
   Entrei nestes corredores labirínticos na companhia dos voluntários de uma instituição humanitária, a Esperança, uma das muitas que operam nestes sectores esquecidos da sociedade. A polícia não entra aqui e são necessárias autorizações especiais até para os voluntários, pois cada camada tem os próprios códigos e organização. A parte subterrânea onde nos encontramos corresponde a um gigantesco parque de estacionamento construído nos anos 20 e que tinha sete andares. Os voluntários não podem ir mais fundo do que o terceiro andar e foi aqui que encontrámos este homem sem destino, que se diz chamar Chico Só e que nos conta a sua história.


 

Chico viveu junto ao mar, foi trabalhador, proprietário de uma casa, teve família e, um dia, perdeu tudo isso. Pergunto-lhe o que aconteceu e ele hesita, tenta primeiro contar-me uma versão onde é completamente inocente e vítima de uma fantástica cabala, mas depois percebo que teve problemas com a justiça e perdeu o emprego por roubar. A mulher separou-se dele. Assim, Chico Só juntou-se assim à legião dos deserdados que se escondem por estas paragens. Nenhum deles tem casa ou ocupação. Nenhum tem, efectivamente, alguma coisa para fazer. Apenas o tempo à sua frente.
   A garagem foi abandonada há mais de 30 anos e ocupada por sem-abrigo. Nos seus sete andares subterrâneos formou entretanto uma autêntica cidade, com políticos e autoridades, hospital e templos religiosos, portagens para subir e descer, para deixar passar cabos eléctricos ou canos de água. No espaço confinado, foram sendo construídos tabiques e bairros, corredores e lojas, pequenas oficinas de reparação e até tabernas e bordéis. Alguns traficantes controlam o comércio com a superfície. É assim que chega a comida, mas não há muito dinheiro a circular. Estes traficantes são pagos em biscates ou em géneros que eles próprios se encarregam de vender a pessoas de cima.
   A Esperança é uma das associações que tenta ajudar estas pessoas. Hoje, vieram dez voluntários com alimentos e remédios. Só quatro desceram ao terceiro piso e permitiram-me que os acompanhasse. Há aqui famílias inteiras e, segundo me explica um dos líderes da comunidade, o senhor Afonso de Albuquerque (não é brincadeira, é assim que ele se identifica), existe uma escola no primeiro piso. Uma das voluntárias, Madalena, confirma com um gesto da cabeça: “já lá estive, tem mais de 50 crianças”.


Questiono Albuquerque sobre o que se encontra nos pisos inferiores e ele perde o sorriso: “Não sei ao certo, nunca desci abaixo do quinto piso, mas sei que escavaram além do sétimo”. Pergunto-lhe quantos andares terá agora esta cidade escondida. Ele encolhe os ombros, mexe na longa barba branca: “Não sei ao certo, senhor jornalista, mas estão a escavar há 30 anos, talvez haja mais um piso ou mais três”.
   Esta cidade subterrânea, só ela, terá talvez mais de 10 mil habitantes. Aqui vivem os pobres entre os pobres, os totalmente excluídos, aqueles que Lisboa não quer ver. Há outras 50 como esta, geralmente ocupando antigas garagens desactivadas e talvez 200 de menor dimensão, ocupando antigos túneis ou caves de prédios sem uso.
   No nosso mundo, que junta Prometeu e Pandora, há segredos maléficos, que se escondem entre nós e que a tentação da curiosidade torna irresistíveis. Entreabri a caixa e incomoda-me subitamente a sensação claustrofóbica, ver esta sujidade acumulada, o cheiro denso, a atmosfera sempre morna que paira aqui dentro e que parece prestes a consumir-se de forma espontânea.
   Para meu alívio (e deles) os voluntários terminam a distribuição. Estamos na enfermaria improvisada e apenas neste momento compreendo que Afonso é o médico. Pergunto-lhe que doenças têm os pacientes que chegam de baixo.
   “Já chegam mortos”, responde-me de forma seca. Também se recusa a explicar como se encontra neste local.
   Chico Só ficou ao meu lado. Pergunte-lhe o que fazem dos corpos dos mortos. As pessoas morrem, onde as enterram?
   Ele olha para mim de forma estranha. Sinto um arrepio. Os voluntários observam a conversa, sem esconderem a ansiedade. Nunca fizeram esta pergunta. Chico Só fica em silêncio, mas percebo, numa impressão breve, que não haverá quem os sepulte e que talvez os corpos viajem para baixo.

 

publicado às 19:44




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras