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Arte da vida

por Luís Naves, em 02.11.13

Muitos autores são brindados com uma comparação mortífera, ao estilo ‘este é o novo Saramago’ ou o ‘moderno Flaubert’ ou o ‘sucessor de Tolstoi’. No excelente blogue Biblioteca, que me habituei a ler regularmente, Bruno Oliveira Santos faz referência a uma simplificação bastante difundida, a propósito de Vassili Grossman e da publicação em português do seu derradeiro romance, Tudo Passa, livro que o escritor russo deixou incompleto mas cuja leitura vale bem a pena, pois tem passagens de grande beleza (e dureza).
Todas as comparações são injustas, sobretudo aquelas que envolvem grandes artistas. Os escritores originais são todos diferentes por definição e julgo que a simplificação jornalística de comparar dois autores tenta abordar as afinidades que resultam da tradição. Alguns escritores têm uma compreensão especialmente profunda da obra dos mestres anteriores, introduzindo nos seus livros elementos cruciais do trabalho que os precedeu. Cada artista tem assim uma espécie de ADN, um código genético acumulado a partir de leituras que, obviamente, são as suas leituras, uma visão parcial e altamente distorcida da História da Arte.

Vassili Grossman é sem dúvida muito diferente de Lev Tolstoi, no sentido de toda a sua vivência ser profundamente distinta. Vida e Destino é uma obra-prima, que muitos comparam com Guerra e Paz, pela definição das personagens, pela dimensão das vistas, pela crueldade das situações e os limites de horror a que o leitor é conduzido. Embora tivesse experiência de combate, Tolstoi escreveu o seu romance muito depois das invasões napoleónicas; Grossman, por seu turno, foi um extraordinário repórter da Segunda Guerra Mundial e testemunhou os piores momentos do conflito. A leitura dos seus cadernos de guerra é brutal. Assim, Guerra e Paz brota do interior, da inquietação metafísica; Vida e Destino tem a autenticidade da vivência e sabemos que aquilo foi mesmo assim. Os dois livros são igualmente universais.

O código genético da tradição funciona um pouco como a árvore evolutiva, que se divide em ramos, divergindo do tronco nuclear na direcção do sol e do desconhecido. Sem fortes raízes no passado, uma literatura não existe, daí ser espantoso ouvir artistas que falam como se tivessem descoberto continentes selvagens. São eles próprios que se comparam a Cristóvão Colombo, caindo no ridículo.
Grossman tem originalidade, fruto das vicissitudes que acompanharam a sua obra e, se queremos comparações, Alexander Solzenitsine parece muito mais próximo dos ideais de Tolstoi e sob a sua influência.  Curiosamente Grossman e Solzenitsine são contemporâneos, mas devia existir um mundo entre eles e isso é visível em Tudo Passa. O autor tinha conhecimento dos campos, mas em segunda mão, pelo que fugiu aos pormenores desse período da vida da personagem. O que lhe interessa é o regresso.

A originalidade é uma questão paralela a esta. Sem autenticidade, ela não é possível. O autor precisa de coragem para se confessar em público. Tolstoi nunca teve de esconder os seus manuscritos.

 

Por outro lado, confunde-se a originalidade da obra com a personalidade original do artista. Se o artista for mediático e fizer ‘coisas’, poderá entrar na bola de neve do sucesso. O problema da nossa era pós-moderna é a confusão crescente entre a produção artística e o ‘fazer coisas’.
Isto leva ainda ao problema paralelo dos grupos e das amizades. Escritores que se conheceram, que conversaram, têm certamente muito mais em comum do que dois desconhecidos. E o que os atraiu a uma amizade foi certamente o que possuíam de diferente. Os grupos são importantes para definir a genética dos autores. Infelizmente, estão em extinção.
Também parece que, do ponto de vista do autor, a tradição é sobretudo uma escolha. A perspectiva nunca é a de historiador de arte, que tem de colocar os movimentos na posição correcta, dentro da árvore da vida. O historiador classifica cada elemento como se fosse um botânico e estuda a função de todos os ramos. O artista tem mais liberdade, pode ter gostos e embirrações, pode rejeitar ideias ou abraçá-las com entusiasmo, pode no fundo fabricar o seu próprio código genético, alterando-o a meio do caminho, fazendo descobertas inesperadas, mudando de direcção subitamente, escolhendo ser outra mistura. O autor pode exercer sobre o seu próprio corpo poderes semelhantes aos do doutor Frankenstein. O objectivo é, afinal, o mesmo: animar o que é desanimado; dar vida ao que está morto.

publicado às 15:25




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