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O triunfo de Errol Flynn

por Luís Naves, em 24.10.13

Os portugueses têm a noção de que o seu País foi relevante na História da Europa, mas são os únicos europeus a pensar dessa forma. A difusão da cultura popular é hoje um dos aspectos mais evidentes da globalização, fenómeno que está a perturbar sociedades tradicionais um pouco por todo o mundo e a criar uma espécie de consciência universal do passado. Ora, esta visão comum excluiu completamente os portugueses ou transformou-os em caricaturas de facínoras.
Há numerosos exemplos, mas lembro-me de uma série na televisão, popular na época, Shogun, onde havia os europeus bons, ingleses e holandeses, os bons e maus japoneses e os muito além de péssimos portugueses, fanáticos religiosos cheios de superstições e cupidez. Nos êxitos literários ou no cinema de Hollywood há versões dos portugueses entre libidinosos e perversos, quase sempre estúpidos e manhosos, sempre detestáveis.
Na cultura popular triunfante, anglo-saxónica e agora também politicamente correcta, o estereótipo do português confunde-se com a ruindade e a ignorância. O nosso império foi maléfico e sobre ele outros povos construíram obras um pouco mais dignas, repletas de direitos humanos e valores democráticos. É preciso ser justo e dizer que estas ideias não se confinam ao mundo da cultura popular. Elas estão na base de teses académicas segundo as quais os impérios anglófonos constituíram uma civilização distinta das (obviamente inferiores) civilizações ibéricas, que sendo europeias pela geografia, nunca o foram no pensamento.
O ibérico velhaco e déspota tornou-se obrigatório na cultura popular dominante. Não é preciso ir mais longe do que o típico traficante de droga do cinema contemporâneo, nitidamente inspirado nos capitães espanhóis que o justo espadachim Errol Flynn atacava pelos sete mares fora. O corsário bom ficava sempre com a beldade nobre que, apesar de espanhola, o público aceitava como excepção, por não ser demasiado recatada e beata ou não ter bigodinho muito óbvio.


 

Apesar de tudo, em Hollywood respeitava-se a diferença entre espanhóis e portugueses: os primeiros eram geralmente de casta elevada; os segundos, apenas povo indiferenciado e pouco lavado. Aliás, a ideia de sujidade está ligada à imagem que Hollywood sempre transmitiu dos portugueses. De resto, Portugal foi quase invisível, como aliás é invisível o Brasil, esse país que os europeus não aceitam como seu descendente e que os americanos não entendem como seu meio-irmão.


Os ingleses, que nos aceitam um pouco melhor do que os americanos, sempre fizeram o possível por negar a existência das ruínas de Portugal. Por exemplo, na guerra peninsular, relevante para a auto-estima britânica, o exército anglo-português surge nos romances populares como exército anglo-inglês e, se houver portugueses na história, serão contrabandistas que não desejam envolver-se nos problemas do herói.
A simplificação e o revisionismo podem ser explicados pelas necessidades da ficção, que não se compadecem com explicações alongadas. Assim, o nosso passado foi desaparecendo e as nossas maiores figuras passaram a poeira das estrelas. Perdemos a memória de que entre as elites de cientistas, artistas e exploradores do século XVI e XVII havia muitos portugueses. Instalou-se a ideia falsa de que os jesuítas no Brasil, na Índia, na China e no Japão eram fanáticos, que nada ensinaram aos povos nativos. E, sem mais heróis, ficámos os maus da fita, não havendo outro povo que se nos compare nessa qualidade, à excepção do turco, que costuma fazer de saco de areia nas ficções americanas.


A autenticidade e o rigor pouco importam para a cultura mediática triunfante. E como estamos também a ficar anglo-saxónicos, pois não se vê pessoa culta que não use palavras inglesas para afirmar banalidades, lá nos vamos identificando com as personagens muito britânicas que vemos na TV, tal como os ingleses as imaginam. E veremos mais filmes sobre como os americanos venceram a guerra galáctica e como foram eles os únicos vencedores da segunda guerra mundial e da primeira e de todas as anteriores guerras mundiais, ganhas a uns tipos que tinham capacetes esquisitos e falavam inglês com sotaque.

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publicado às 15:18




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