Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Frios e provincianos

por Luís Naves, em 12.10.13

A crise portuguesa não pode ser compreendida sem o contexto europeu, mas infelizmente muitos autores ignoram esta dimensão ou transmitem à opinião pública visões irrealistas do problema. É o caso destes dois artigos, de Daniel Oliveira e Pedro Froufe, um de esquerda e outro de direita, ambos unidos numa retórica zangada e nacionalista. Nos dois textos, os nossos credores têm a obrigação de aceitar o ponto de vista português e não há qualquer esforço para entender o outro lado da equação.
O texto de Arrastão é o mais duro e o mais político. O autor comenta uma frase atribuída a um “alto responsável” do Eurogrupo, que criticou, sob anonimato, o Tribunal Constitucional português, que classifica de “activista”. Segundo Daniel Oliveira, os membros da troika “não hesitam em humilhar todas as instituições que criem dificuldades à sua agenda. Dirão que nada podemos fazer contra isso. Por mim, espero que não continuemos a falar das instituições que constituem a troika e o governo que domina duas delas como se fossem nossos aliados. Comportando-se como potências coloniais, é como potências coloniais que devem ser tratados”. Daniel Oliveira refere-se ao governo alemão e defende que Lisboa devia exigir um pedido formal de desculpas a propósito da tal afirmação anónima atribuída a alguém no Eurogrupo (será holandês, alemão, italiano?).
Em Blasfémias, Pedro Froufe ataca um politólogo estónio que defende (num texto sem link) a divisão da zona euro num sistema de duas moedas comuns. A frase do estónio que é citada não se compreende, mas Pedro Froufe considera que o politólogo revela ter falta de leituras e “profunda ignorância” da integração europeia. Na opinião do autor, os estónios “foram integrados em algo cujo significado histórico e objectivo político, realmente, desconheciam”. São, portanto, frios e provincianos. Há uma referência a uma intervenção do presidente estónio, numa reunião onde também estava Cavaco Silva, mas não se percebe se Froufe critica Cavaco por se manter calado ou se pensa que a posição do Estónio nos devia fazer reflectir.

 

No fundo, os dois autores que citei não consideram válida a opinião dos nossos credores. Um “alto responsável” do Eurogrupo está incomodado com o Tribunal Constitucional e isto é equiparado a colonialismo. A alternativa é romper com a troika e declararmos independência? Organizamos uma guerrilha e dizemos que não pagamos?
Sem o dinheiro da troika, nomeadamente o europeu, Portugal será forçado a sair da zona euro, pois não se poderá sustentar nos mercados. Este é um elemento crucial da equação que o autor de Arrastão simplesmente ignora. Por definição, quem nos empresta dinheiro é um aliado. É também natural que quem nos empreste dinheiro esteja preocupado em recuperar esse empréstimo. Podemos defender muita coisa, da reestruturação da dívida aos eurobonds, passando pela actual estratégia da Alemanha, ou sermos contra tudo isto ao mesmo tempo, mas não podemos defender a tese de que os países que nos emprestam dinheiro são inimigos. E era o que mais faltava o governo português exigir desculpas formais por declarações anónimas.

 

O texto de Blasfémias tem problemas semelhantes. Após ter atravessado uma crise profundíssima (a nossa é uma brincadeira em comparação) este pequeno país do Báltico entrou na zona euro em Janeiro de 2011 e participou em dois resgates de países muito mais ricos. É algo difícil de aceitar para um eleitor estónio: estamos a pagar o estilo de vida dos ricos, que nunca nos ajudaram quando precisámos? Ou seja, é de um insuportável paternalismo dizer a um estónio ‘vocês não sabem nada da Europa e não são suficientemente solidários connosco’.
A tese que defende o politólogo, aliás, é antiga. Trata-se de uma proposta muito discutida nos círculos europeus, em 2010 e 2011, no auge da crise na zona euro. Tem pelo menos três anos, mas julgo que já existia antes da criação da moeda única. A ideia consiste em dividir a zona euro em duas zonas, uma do euro forte e outra do euro fraco. A segunda moeda desvaloriza em relação à primeira, mas de forma controlada, permitindo realizar mais depressa a desvalorização interna de que países como Grécia, Portugal, Espanha e Itália precisam desesperadamente. É natural que os estónios defendam a ideia, pois tencionam ficar no euro forte.

A estratégia alemã é outra. Os alemães querem manter unida a zona euro e estão dispostos a defender essa unidade, que consideram um interesse vital do seu país. Mas os problemas não desapareceram e a política de austeridade (que muitos dizem não poder funcionar, embora tenha funcionado na Estónia) está no mínimo a causar fortes perturbações políticas nos países resgatados.

 

A equação não tem muitas saídas. Com a continuação da estratégia de sair do buraco a passo de caracol, o sul poderá ter desemprego em massa e salários em queda durante anos. A hipótese de haver inflação na Alemanha foi rejeitada por Berlim, pois implicava perda de competitividade. O norte pagar as dívidas do sul? Isso resolvia, mas como continuamos a chamar-lhes colonialistas e rejeitamos fazer a nossa parte para reduzir a sua factura, é pouco provável que isso aconteça. Existe naturalmente a última hipótese, que implica alterar a composição da zona euro: os relutantes saem, a Alemanha sai ou é criado um sistema com duas moedas.
Nesta última das quatro vias, há sempre a possibilidade dos países ricos perderem a paciência e decidirem acabar com a zona euro, mas isso implicava um risco excessivo de matar a União Europeia. Os eurobonds (norte paga as dívidas do sul) têm o problema já mencionado, os eleitorados não querem. Um plano Marshall também resolvia, mas era uma variante do norte pagar. Como é que se explica isto a um estónio? Ou a um eslovaco? A propósito de Eslováquia: só um governo caiu logo a seguir a um resgate, foi o eslovaco, que nesse caso era credor.
Pequenos passos, generosidade súbita dos credores, saída à bruta, divisão em duas áreas. Precisamos do euro para criar um vasto mercado único e ter disciplina orçamental, mas os choques assimétricos e as limitações políticas da UE estão a comprometer o projecto. Os que falam em falta de solidariedade referem-se a uma Europa de fantasia. Os que pedem acções anticoloniais estão de facto a defender a saída de Portugal do euro, o que seria uma calamidade bem maior.
Temos alternativa ao programa de ajustamento imposto pelos credores? É evidente que não temos.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 13:43




Links

Locais Familiares

Alguns blogues anteriores

Boas Leituras