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A arte do conto

por Luís Naves, em 10.10.13

O Prémio Nobel da Literatura 2013 foi hoje atribuído a uma autora canadiana, Alice Munro, cuja obra de contista impressionou o júri sueco (mais pormenores aqui). Em muitos países, o formato do conto é popular e há revistas especializadas que disputam os melhores autores. As editoras fazem antologias anuais que servem de montra para os seus catálogos.

Portugal tem problemas na matéria e talvez o prémio possa funcionar como alerta para a pobreza da situação do conto na nossa literatura. Um contista nacional desconhecido tem escassa probabilidade de ser publicado. Mesmo que esse autor seja conhecido, é certo que as vendas serão menores, o que aumenta o risco para o editor. Isto é válido para nomes estrangeiros: o conto não vende. Alice Munro também não vendeu muito em Portugal.
Desconheço as razões do preconceito que leva os leitores portugueses a desprezarem um formato que permite tanta diversidade estética. Esse preconceito estende-se a muitos intelectuais, que consideram o género menos sério ou mais fácil. Um crítico literário raramente se debruça sobre um livro de contos, talvez por considerar que se trata de um esforço menor do autor (que, ao sair com histórias pequenas, tem certamente romances nas livrarias).


Há excepções, naturalmente. Por vezes, surgem revistas especializadas, mas divulgam sobretudo autores estrangeiros. À medida que recuamos no tempo, vemos que havia mais oportunidades de publicação. Tive a sorte de publicar contos originais no saudoso DNA, um suplemento do Diário de Notícias concebido por Pedro Rolo Duarte. Era preciso coragem para apostar em textos de ficção sem limites de caracteres, publicando-os na revista cultural de um jornal diário, e julgo que essa coragem foi ignorada pelos escritores: a certo ponto começaram a faltar contos de qualidade e a divulgação de contos tornou-se menos frequente.
Na blogosfera surgem por vezes tentativas de ficção curta (faço isso há oito anos) mas os leitores não levam muito a sério e julgo que existe no público desconhecimento sobre as dificuldades técnicas da escrita de contos. Estes textos do Pedro Correia, em Delito de Opinião, formam um pequeno arquipélago na blogosfera. É uma série muito bem feita e podia haver mais pessoas a escrever com este nível sobre os contos lidos.
Publicar colecções de histórias tornou-se difícil e a saída em revistas é geralmente gratuita para o escritor (havia muito a dizer sobre este aspecto dos artistas que vivem do ar). Em resumo, não existe mercado e julgo que seria impossível termos hoje autores como Miguel Torga ou Urbano Tavares Rodrigues, dois especialistas no género que não se sentiam à vontade no romance. Mesmo assim, o primeiro é sobretudo lembrado pela poesia e o segundo foi pouco considerado no meio literário, talvez porque ninguém quisesse dizer que as suas melhores obras eram os contos e as novelas.


Em muitas literaturas europeias, no Brasil e nos EUA, os autores começam a revelar-se com a publicação de uma boa colecção de ficção curta e só mais tarde tentam o romance. Portugal só tem romancistas e julgo que muitos autores estão a morrer à nascença, nunca desenvolvendo a evolução natural do escritor, começando por universos contidos, mas intensamente explorados, só depois progredindo para a grande dimensão. Conto e romance têm um possível paralelo na música de câmara e na sinfónica: sem dominar a relação entre três ou quatro instrumentos é mais improvável que o artista consiga controlar uma massa com cem vozes; os dois géneros são diferentes no fôlego e no som que produzem, mas são idênticos na pureza e na intensidade das emoções; a música de câmara é mais subtil, em tantos casos pode até ser mais profunda; ela é também quase sempre mais inovadora, pois permite fazer experiências antes de se tentar o mesmo na sinfonia. No entanto, a muitos melómanos ocorre um preconceito semelhante ao literário: se não for música bombástica e complicada, com quatro andamentos, o público não gosta tanto. Agora, imagine-se que os compositores eram todos forçados a começar pela sinfonia.

 

 

A ilustração deste post é uma suposta referência às planícies rurais canadianas, a paisagem favorita de Alice Munro. A pintura será americana, mas o que conta é a intenção e o quadro é bonito...

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publicado às 18:15


1 comentário

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De AEfetivamente a 13.10.2013 às 23:37

Muito interessante, este post. Eu gosto de contos, confesso. :) Lembrei-me agora dos de Manuel da Fonseca de alguns de autores britânicos, que li, e graças a deus, por causa do meu curso. The Dead é o meu favorito de sempre...

Obrigada pela referência ali ao lado. :) E eu que ando tão sem tempo ( e sem cabeça) para escrever alguma coisa de jeito... :)

Boa semana.

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