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Sem-abrigo criminalizados na Hungria

por Luís Naves, em 02.10.13

Em jornalismo só não erra quem não escreve notícias. Ao longo de minha carreira de 25 anos, cometi erros engraçados, todos involuntários, sendo um dos mais famosos ter chamado ‘principado’ ao ‘grão-ducado’ do Luxemburgo. Isto foi antes da existência da internet, que terá modificado o tipo de erros cometidos. Agora, eles são curiosamente padronizados e sistemáticos, criando subtis distorções da realidade.
Veja-se esta notícia sobre a Hungria, lida no Público (e os comentários). Até ao último parágrafo, há pouco a dizer sobre o texto: sei que é um assunto antigo, de lana-caprina, penso até que se trata de um tema anterior ao actual governo, foi certamente discutido antes da chegada ao poder dos conservadores, em 2010. Houve uma altura em que se viam muitos sem-abrigo no centro de Budapeste, sobretudo ciganos que andavam pelas zonas turísticas a pedir esmola. Foram enxotados para a periferia da cidade. A questão existe, aliás, noutras capitais, onde a discriminação dos sem-abrigo é comum.

 

O erro da notícia está no último parágrafo, não sendo claro se estamos apenas perante má redacção, erro ou ambos. Mas a informação é falsa: ao ler-se a frase, parece que o Governo húngaro resulta de uma coligação entre o partido do primeiro-ministro Viktor Orbán, Fidesz, e a formação de extrema-direita Jobbik. Quem ler a notícia ficará com a convicção errada de que a direita se aliou à extrema-direita fascista.
 

O aspecto que considero grave é o facto da confusão surgir sistematicamente em muita comunicação social portuguesa e em muitos comentadores na blogosfera. Vejamos os factos: o governo húngaro resulta de uma aliança pré-eleitoral que engloba partidos da direita conservadora (julgo que três), mas onde apenas um deles conta: o Fidesz, União dos Jovens Democratas. A esmagadora vitória de 2010 permite-lhe gozar de maioria constitucional (dois terços do parlamento, caso único na Europa). Este partido contestou o anterior regime e participa na política húngara desde o início da transição e das primeiras eleições livres. Constituiu governo entre 1998 e 2002. O seu líder, Viktor Orbán, é uma figura controversa, que foi afastando as facções vagamente social-democratas ou liberais. O Fidesz é hoje um partido conservador e nacionalista, profundamente anti-comunista e com tendências populistas. Integra a família do Partido Popular Europeu e as comparações internacionais devem ser feitas com o Partido Conservador britânico, a CSU bávara (formação irmã da CDU de Merkel), o CDS-PP, o Partido Popular espanhol, os gaulistas franceses ou o Partido da Lei e da Justiça polaco, de Jaroslaw Kaczynski.


Orbán é um líder extremamente popular no seu país e, estando apenas a sete meses das eleições legislativas, domina as sondagens com metade das intenções de voto. Há ainda muitos indecisos e a oposição socialista organizou uma plataforma para disputar as eleições, mas a vitória dos conservadores em Abril é altamente provável.
Curiosamente, o maior problema de Orbán está à direita, na formação extremista Jobbik, que o Público colocou dentro do governo. Trata-se de um partido da oposição. Aqui, as comparações têm de ser feitas com a Frente Nacional francesa ou o FPO austríaco. O partido tem uma franja lunática anti-semita e, sobretudo, anti-cigana, mas o Jobbik disputará as eleições com os seus dirigentes mais ‘moderados’ (digamos assim), populistas e anti-europeus, a tentar explorar sentimentos racistas da população contra ciganos e as perseguições (reais ou imaginárias) de populações étnicas húngaras na Transilvânia ou no sul da Eslováquia. Outro dos temas será o das hipotecas em moeda estrangeira, problema que este governo não conseguiu resolver totalmente, apesar de ter entrado em conflito com o sector bancário.

 

O contexto devia ser claro para alguém que escreva uma notícia sobre a Hungria, mas existe um preconceito ideológico que paralisa as mentes. Muitas pessoas bem informadas estão genuinamente convencidas de que aquele é um país fascista, porque leram textos onde isso era insinuado. Como estamos na era da internet, é fácil ocorrer a amplificação de informações falsas ou ligeiramente distorcidas. Neste caso, funciona também a barreira da língua, pois os jornalistas não consultam fontes originais, repetindo as mesmas fontes secundárias que lançaram distorções e que permanecem na internet durante muito tempo.
A propagação destes erros é um problema grave para pequenos países como Portugal ou a Hungria, incapazes de demonstrar a sua inocência perante a opinião pública de nações mais relevantes no mundo mediático. Isto é tão válido para o preconceito sobre o fascismo húngaro como para a percepção alemã ou finlandesa de que os portugueses não trabalham e não estão a fazer os sacrifícios necessários para sair da crise.
O preconceito politicamente correcto e a simplificação jornalística juntam-se nestes dois casos para acentuar as divisões europeias. Há os do leste, onde a História não pode motivar certas atitudes políticas, e há os do sul, sempre de mão estendida e pequeníssima auto-estima. Estas divisões ameaçam a prazo a estabilidade da própria União Europeia, só não percebe quem não quiser: basta olhar para a campanha (e para os resultados) das eleições austríacas para constatar que a era da internet permite propagar visões reduzidas dos outros, marcadas pela xenofobia e crendice. Só é preciso fazer resumos ligeiros, jornalismo de causas e propagar assim  os erros subtis que alimentam a ignorância.

publicado às 12:46




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