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O Esplendoroso Declínio (9)

por Luís Naves, em 29.09.13

O poder do amor

Existe um mito segundo o qual a Europa é um continente em decadência acelerada e, portanto, sem futuro. Certos teóricos, alguns lidos avidamente em Portugal, não escondem o desprezo pelo que classificam de irrelevância política e declínio económico. Estes autores têm sempre dificuldade em apresentar uma solução para o problema, havendo duas correntes principais: uns defendem que os países europeus devem constituir uma federação segundo o modelo norte-americano; outros defendem o inverso, que os países europeus devem abandonar a actual tentativa de integração. A possibilidade de um novo modelo nunca é considerada.
Algumas elites portuguesas adoptaram esta tese do fim da Europa, que julgam ser uma crítica à União Europeia, tal como ela existe. Apesar de tudo, não se vislumbra alternativa. Como seria Portugal sem a União Europeia? Certamente muito mais pobre e menos influente, talvez menos democrático e mais desigual.

O pensamento mitológico sobre o fim da Europa tem porventura a sua raiz numa angústia existencial comum aos principais povos europeus, alguns dos quais estiveram envolvidos em impérios que dominaram regiões vastas de outros continentes. Em meados do século XIX, os principais impérios europeus controlavam 70% da Terra.


 

Segundo o estudo clássico de Angus Maddison, que estimou o peso relativo das economias regionais, em 1870 a economia da Europa Ocidental era duas vezes maior do que a da China. Em 1900 o desequilíbrio acentuara-se, para um peso económico europeu cinco vezes superior ao chinês.
Por seu turno, Kenneth Pomerantz usou a expressão ‘a grande divergência’, (título de um seu livro muito citado) para ilustrar o desfasamento euro-chinês que começou em meados do século XVIII e terá terminado apenas na década de 80 do século XX, quando a China começou a crescer a taxas anuais estonteantes.
A diferença tecnológica entre a Europa e algumas das regiões colonizadas era abissal na Era dos impérios. A civilização europeia levou o pensamento científico, o capitalismo e o Estado de Direito a regiões primitivas, mas a ideia judaico-cristã de que todos os homens são feitos à imagem de Deus ou os fundamentos da democracia grega (ambas na origem do princípio da igualdade) acabaram por consolidar-se nas colónias. Veja-se por exemplo o caso da Índia, onde existe tradição de eleições democráticas, o que não impede que a colonização europeia seja lembrada com aversão, o que aliás muitos europeus não entendem.
As narrativas nacionais dos impérios são relativamente benevolentes. Houve vantagens para os colonizados, pelo menos nos ‘nossos impérios’, já que os dos vizinhos eram geralmente brutais.

O triunfo da Europa foi conseguido com crueldades. Em certas regiões de África, o tráfico humano implicou guerras devastadoras provocadas com o objectivo único de se obterem os cativos que depois eram vendidos. No tráfico transatlântico calcula-se que estiveram envolvidos 12 milhões de escravos, aos quais podem ser somados outros tantos no tráfico transariano. O número total de vítimas dos conflitos africanos ligados à escravatura, durante três séculos, pode ser muito superior a 50 milhões de pessoas, entre cativos e mortos. 

 

O triunfo do Ocidente não é algo que possa ser colocado apenas no passado. Pelo contrário, ele mantém-se em dois planos: de forma bem visível, no poder financeiro que domina as sociedades contemporâneas; e num plano mais subtil, no poder cultural.
Dou um exemplo que parece trivial: a Europa exportou para todo o mundo a ideia do casamento por amor, mas em muitas sociedades tradicionais ela é fracturante. Assisti, na cidade paquistanesa de Quetta, a um protesto violento contra o Ocidente, durante o qual grupos de fundamentalistas islâmicos destruíram agências bancárias e cinemas que passavam filmes de Bollywood. Porquê estes dois alvos da fúria? Os bancos praticavam juros, proibidos pelo Islão, e os cinemas exibiam filmes indianos com histórias onde um rapaz pobre e uma rapariga rica (ou vice-versa) tentam casar por amor, contrariando o casamento combinado pelos pais (o noivo do casamento combinado é sempre o mau da fita). Esta ideia tão banal é subversiva em sociedades tradicionais, como a dos Pastunes, daí a revolta*.

 

A globalização não é apenas económica. O processo mais importante decorre na conquista das mentes. Os ocidentais exportam valores que constituem uma poderosa ameaça para sociedades que antes pertenciam a outras civilizações e que agora estão numa espécie de zona de ninguém. Ideias como Estado de Direito e Estado secular, valorização das mulheres, multipartidarismo, uma pessoa um voto, meritocracia ou liberdade religiosa estão a causar profundas divisões em países que, em apenas uma geração, foram expostos a este tipo de subversões. O extremismo islâmico é provavelmente uma reacção à invasão de valores externos.
Com a sua insistência na democracia, na educação, na liberdade religiosa, no ambiente e nos direitos sociais dos trabalhadores, a Europa é especialmente influente nesta globalização das mentes, que está a transformar o mundo com grande rapidez.

 

 

*O exemplo de Bollywood pode não parecer adequado ao argumento, pois os filmes são indianos e com actores geralmente muçulmanos, mas a ideia forte dos argumentos é nitidamente ocidental e foi levada para a Índia por europeus. 

     

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publicado às 12:20




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