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Jogo de biombos

por Luís Naves, em 20.09.13

Em política, a opinião pública faz habitualmente o papel do esposo enganado. Os actores estão na jogada seguinte, pelo que as suas motivações não são imediatamente compreensíveis. Esta notícia sugere que estivemos entretidos com um falso problema. Refiro-me à discussão sobre as metas do défice. Se mudar o método de cálculo, como se conta aqui, a meta fica suavizada por natureza e o Governo poderá reivindicar uma brilhante vitória. Somada ao alívio dos juros conseguido por Vítor Gaspar, a folga pode ser significativa.
Neste oportuno post, em Os Comediantes, Mr. Brown critica a iniciativa da União Europeia. O argumento faz sentido, embora por outro lado tenha lógica antecipar a mudança dos métodos de cálculo do défice: se a regra de ouro do Tratado Orçamental é contabilizada em défice estrutural, então o indicador que interessa é esse, o que fica nos tratados e não outro.
Mas o que mais impressiona nesta polémica é aquilo a que Marco António Costa, com exactidão, chamou de “hipocrisia institucional”. O dirigente do PSD referia-se ao FMI, mas podia ter incluído toda a gente na crítica. A Alemanha finge que é inflexível, Portugal e Grécia fingem que se reformam, o FMI finge que decide, o Governo português finge que pede 4,5%, o PS finge que não abdica dos 5%, o Bloco de Esquerda finge que protesta contra tudo e todos. Jerónimo de Sousa será talvez o mais coerente, ao afirmar que as decisões já foram tomadas e que a discussão com os representantes da troika é um “jogo de biombos”.

 

De facto, a política europeia está a tornar-se num jogo de biombos, evidenciando um preocupante e crescente problema de transparência. O Eurogrupo, para citar um exemplo, tem um poder desproporcionado e as verdadeiras decisões não são comunicadas aos eleitorados: esta mudança no cálculo do défice será convenientemente aprovada após as eleições alemãs. Os políticos não querem explicar aos eleitores o garrote dos mercados e, por isso, parte da opinião pública continua sem perceber as razões desta austeridade aparentemente irracional. Não admira que esteja a crescer a desilusão com a Europa.
Conseguirá Portugal regressar aos mercados e começar a pagar a dívida? Isso será difícil com as actuais regras do jogo, mas a cada momento de ansiedade surge um novo esquema que desaperta o torniquete umas décimas de milímetro. As regras do jogo parecem ser flexíveis quando isso é conveniente. Talvez as decisões já tenham sido tomadas e exista mesmo um plano cuja discussão pública implicaria a quebra imediata da zona euro, por isso é aplicado de forma reservada e longe da vista dos eleitores.

publicado às 13:05




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