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O ministro bizantino

por Luís Naves, em 19.09.13

O eduquês é uma língua neo-bizantina praticada por burocratas que querem dizer o mínimo de coisas com o máximo de palavras. Um dos melhores praticantes desta arte do vazio é o ministro da Educação, Nuno Crato, que se tem distinguido por não fazer reformas, ao mesmo tempo que hipnotiza os jornalistas com um discurso manso e desprovido de conteúdo. A sua única preocupação tem sido a de não atiçar o saco de lacraus dos interesses especiais que controlam o sector da educação em Portugal. Embora seja o pior ministro deste Governo, Crato é também aquele que goza da melhor Imprensa.

 

A meu ver bem, a oposição está a exigir esclarecimentos sobre um diploma que pode significar o fim do ensino do inglês em algumas escolas do primeiro ciclo, o antigo ensino primário. Os socialistas acusam Nuno Crato de pretender acabar com o ensino de inglês obrigatório no primeiro ciclo. O ministro apressou-se a esclarecer que se tratava de uma “tempestade num copo de água”, afirmando que “o inglês nunca foi obrigatório no primeiro ciclo, foi de oferta obrigatória nas actividades de enriquecimento curricular, que não eram obrigatórias”. É preciso ler a frase várias vezes para a entender: havia actividades nas escolas que previam a obrigatoriedade da oferta do inglês, mas estas actividades não eram obrigatórias.
Segundo o ministro, a sua decisão representa um “progresso”, pois as escolas terão liberdade “para fazerem o que quiserem”. De acordo com o tal diploma, que visou expressamente reforçar o ensino do português e da matemática, o inglês no primeiro ciclo passou do “enriquecimento curricular” (que não é obrigatório) para uma chamada “oferta complementar” (obrigatória). Mas, pasme-se, o que é a oferta complementar? “São acções que promovam, de forma transversal, a educação para a cidadania e componentes de trabalho com tecnologias e comunicação”. O que é isto? Estarão a preparar as nossas criancinhas para invadir Marte? Em resumo, o inglês passou de uma modalidade onde era obrigatório para outra onde não é.

 

Reforçar o inglês no primeiro ciclo foi uma das boas decisões tomadas pelo anterior Governo socialista de José Sócrates, mas a medida só poderá funcionar se houver paciência para a manter ou para a reforçar. Sei que o eduquês é uma língua impenetrável, mas pelo que li nas notícias parece claro que o diploma de Julho vai reduzir o inglês nas escolas primárias, até porque é reforçada a matemática e o português. Para adensar o mistério, o ministro anunciara com pompa, uma semana antes, a realização de um exame nacional de inglês no 9º ano, com apoio e organização de uma empresa internacional. Refira-se que o inglês é obrigatório no segundo ciclo.
Mas o mais inquietante desta estranha história está nas omissões. Não vi nenhuma informação sobre o efeito que teve a obrigatoriedade do inglês no tal “enriquecimento curricular”. Quantos alunos estudaram inglês após a decisão de Sócrates? Quantos professores estão habilitados a ensinar inglês? Quantas escolas conseguem fornecer os tais programas de enriquecimento curricular onde é obrigatório incluir o inglês? E quantos pais quiseram esse ensino? E os alunos que estudaram a língua no primeiro ciclo têm melhores resultados no segundo? Em tudo isto persiste o nevoeiro estatístico mais completo.


Sem se perceber ao certo quais são os resultados, estamos numa conversa no escuro, mas julgo que “dar liberdade às escolas” não passa de um eufemismo: algumas escolas vão ter inglês e outras não; Crato faz de liberal e lava as suas mãos como Pilatos, embora esteja apenas a aumentar as desigualdades no sistema de ensino. E, no entanto, universalizar o uso do inglês será fundamental para a competitividade do país daqui a 20 anos, quando este ministro de veludo for apenas uma vaga memória.

publicado às 13:37


3 comentários

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De Equipa SAPO a 20.09.2013 às 18:19

Boa tarde,

O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

Atenciosamente,

Catarina Osório
Gestão de Conteúdos e Redes Sociais - Portal SAPO
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De Ercidio a 21.09.2013 às 09:21

Bom dia. As aulas estao melhores!
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De gerimbeco a 21.09.2013 às 11:27

Concordo em absoluto com o artigo, mas está a esquecer-se de um facto. A "obrigatoriedade" do ensino do inglês no 1º ciclo não passou de uma fantochada pela simples razão de que o objetivo era de "sensibilizar" os alunos para o inglês, para os ambientar para o uso futro da língua. Esse ensino nunca foi avaliado, assumia uma vertente lúdica, só isso. Portanto, dizer que sócrates acertou ao tomar esta medida é atribuir créditos a quem não os tem, até porque sócrates não tem créditos nenhuns. Não que este ministro tenha algum.

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