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O Esplendoroso Declínio (7)

por Luís Naves, em 21.09.13

Dois sócios

A percepção geral dos europeus é de que são marginalizados nas grandes discussões políticas. Nos mandatos do presidente George W. Bush houve em relação aos europeus até um certo desprezo, sobretudo quando surgiram hesitações no apoio à destruição do regime iraquiano de Saddam Hussein. Na guerra do Iraque, apesar da espantosa superioridade militar que exibiram, os americanos rapidamente foram confrontados com a sua incapacidade de gerir sozinhos os assuntos internacionais.
Em crises mais recentes (Líbia, Egipto ou Síria) os europeus continuaram a exibir grande ansiedade, pois têm de se manter no barco da aliança com a América e, ao mesmo tempo, reduzir de forma acentuada as suas despesas militares. Muitos autores americanos descrevem a parceria como sendo a Europa à boleia e os EUA a pagarem a factura da protecção. A ideia é apoiada por políticos e houve inclusivamente avisos pouco subtis sobre o futuro da NATO. Em 2011, os gastos militares dos EUA ascenderam a 4,8% do PIB; a UE gastou em média 1,16%. Mas seria politicamente impossível justificar o inverso, cortar no estado social e diminuir despesas públicas ao mesmo tempo que se aumentavam os custos militares.
Isto faz lembrar a amizade entre duas personagens de um filme clássico americano, Rio Bravo, de Howard Hawks, uma das obras-primas do cinema: ali há um xerife corajoso, John Wayne, e um ajudante de xerife, Dean Martin, que se tornou alcoólico e já não consegue cumprir as suas funções. Wayne bem tenta ajudar o amigo e este precisa de um desafio perigoso para recuperar a dignidade. A relação transatlântica funciona da mesma forma. Os americanos dominam o mundo e contam com o apoio da Europa, apesar de lamentarem os seus defeitos. No fundo, sabem que esta estará pronta para o combate quando isso for necessário.

 

Na realidade, os países europeus estão a proceder a uma transição e enfrentam um problema sério de custos proibitivos em novas armas. Nenhum país quer ficar sem a capacidade de fabricar caças ou navios sofisticados, pelo que a cooperação é limitada. Existe o mesmo dilema na economia, que podia ser mais eficaz se os Estados membros da UE abdicassem dos seus interesses nacionais, permitindo fusões além-fronteiras de conglomerados e bancos. Isso não irá acontecer por razões políticas, mas o processo ainda é mais delicado no sector da defesa.
Apesar de tudo, no plano dos gastos militares, os europeus podem dizer que estão a racionalizar os recursos. Em 2001, os exércitos eram maiores do que em 2011, pelo que a despesa média por militar passou de 76 mil euros para 100 mil euros ano. Segundo o Centro de Estudos Estratégicos americano CSIS, as despesas totais com a defesa na Europa baixaram 16,5%, mas o custo de cada soldado aumentou em quase um terço, reflectindo uma melhoria de qualidade.
Com a crise financeira, o debate sobre redução dos meios militares acentuou-se. Todos os países fizeram cortes. O exército britânico, para citar um exemplo, foi reduzido a 82 mil homens e é o mais pequeno desde 1850. Na prática, o Reino Unido está sem capacidade efectiva de uso de porta-aviões. Apesar dos sinais de declínio, a Europa, tendo apenas 7% da população mundial, é ainda responsável por 20% da despesa militar do planeta. A projecção de poder não será eficaz, mas também é difícil argumentar que os europeus estejam indefesos.

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publicado às 17:49




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