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Os pessimistas (4)

por Luís Naves, em 15.09.13

4
Desde a última intervenção do FMI, o País teve um nível de consumo largamente superior ao da sua riqueza, dando origem a um endividamento progressivo que neste momento representa um fardo insuportável. Todos os anos, gastamos em juros o equivalente a um BPN e ainda a três pacotes completos de perdas potenciais em swaps. Esta conta vai baixar nos próximos anos, graças a medidas de ajuda europeias. Podemos assim afirmar que, para além dos problemas crónicos, na origem da crise está um facto: o nível de endividamento obrigou-nos a sair dos mercados e a recorrer à ajuda externa. Esta, por seu turno, não possui meias-tintas: as condições que nos impõem os credores podem ser negociadas apenas numa margem muito estreita e tudo o resto são fantasias.
Se o País não conseguir regressar aos mercados para financiar a sua economia, será forçado a pedir mais ajuda aos credores europeus ou a sair da zona euro, regressando à moeda própria. As duas opções são péssimas: a primeira implica o segundo resgate, o que significa prolongar a agonia e a recessão; a segunda equivale a um empobrecimento súbito e drástico da população, através da desvalorização rápida da nova moeda. Quem tiver poupanças ou dívidas sofrerá grandes dificuldades.


Na realidade, os portugueses não têm grandes alternativas. Mal ou bem, devem prosseguir neste programa de ajustamento, com ou sem negociação da flexibilização da meta do défice. Teremos de conseguir regressar aos mercados, de preferência com um programa cautelar que nos defenda da inevitável turbulência.
O lençol não tapa o corpo todo: se puxarmos para a cabeça, ficamos com os pés de fora; se taparmos os pés, fica a cabeça desprotegida. No entanto, para os comentadores que ouvimos diariamente não é assim. Eles exigem a cabeça tapada e os pés quentinhos, o sol na eira e a chuva no nabal, esquecendo de forma conveniente as duras realidades do resgate e a história de como chegámos a este lugar desconfortável.
O povo não preocupa muito. Os portugueses estão a fazer tudo bem, reduziram os altos níveis de consumo, poupam e fazem sacrifícios. As elites é que não estão habituadas a dificuldades, mas se mantiverem o sangue-frio Portugal pode recuperar a soberania financeira no prazo de dez meses. O País vai regressar ao crescimento e a economia criará empregos de maior qualidade e mais competitivos no mercado global. Isto é difícil e é também possível, mas a lengalenga pessimista infiltrou-se nas nossas vidas e muitos portugueses já deixaram de ouvir. A pobreza de ideias domina os media e este sector parece que mergulhou num processo suicida, pois acredita-se erradamente que só as más notícias vendem e que a realidade deve ser descrita de forma sempre tendencialmente negativa. Mas no fim as audiências continuam em queda e as pessoas afastam-se dos jornais moribundos. Às tantas, tanto pessimismo também cansa.

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publicado às 12:36




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