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Como num mau filme de terror

por Luís Naves, em 11.09.13

Em política, o excesso de retórica é destrutivo, como bem demonstra a situação de Barack Obama em relação à Síria ou, a nível caseiro, a forma como a esquerda (incluindo o PS) parece incapaz de conviver com o resgate e a crise do euro, enquanto por seu lado o governo alimenta uma ficção sobre uma reforma do Estado que não pretende fazer.
O Presidente americano diabolizou de tal forma o regime de Bachar al-Assad que terá dificuldade em negociar com o ditador sírio sem sinalizar fraqueza. Para justificar a intervenção militar, o conflito foi simplificado em excesso, ao mesmo tempo que Washington sobrestimava a sua capacidade para convencer a comunidade internacional a agir contra Damasco. Israel não vê com bons olhos uma intervenção, a Rússia opõe-se e os europeus hesitam. A queda de Assad será uma catástrofe para os alauítas e para os cristãos sírios, por isso, sem objectivos claros, uma hipotética acção americana pode transformar-se num desastre. Uma coisa parece certa: a dureza da retórica utilizada dificulta agora um eventual recuo do presidente e até a saída diplomática para a guerra civil.
 

Num plano mais modesto, mas mais evidente, esta ideia aplica-se à forma como a esquerda portuguesa tem descrito o ajustamento, esquecendo convenientemente a pré-falência e o resgate. Os floreados retóricos permitem omitir dados essenciais para a compreensão do problema. Em relação à crise do euro, o nevoeiro é ainda mais denso, tendo sido criado um mito segundo o qual os europeus estão a agir com pura irracionalidade.
Ao usarem sobre o governo de Passos Coelho termos que podiam ser incluídos em textos sobre Bachar al-Assad, alguns autores da esquerda descrevem uma realidade tétrica que nos coloca na quinta dimensão: o filme de terror abusa dos efeitos aterrorizantes, a ponto de se tornar pouco credível e, portanto, fazer rir em vez de assustar.
Todos parecem acreditar na própria retórica, incluindo os governantes, que tentam cumprir um programa de reformas imposto de fora sem de facto pretenderem fazer essas reformas, cujos custos políticos seriam demasiado elevados.
A campanha eleitoral das autárquicas exacerbou esta descolagem da realidade e tudo se transformou em tácticas dilatórias que visam apenas chegar ao fim do tempo de jogo.

 

Aqui, a analogia futebolística é útil. Num texto que li sobre as razões que impedem os americanos de apreciar o futebol, um dos motivos principais era o fenómeno dos mergulhadores na grande área.
No desporto só existe competição quando os jogadores cumprem as regras. Além disto, há margem de interpretação, o chamado ‘critério do árbitro’, sendo que esta figura crucial é uma espécie de fiscal da opinião pública (não é por acaso que as regras permitem que seja escolhido um membro do público para a função).
Não é possível haver jogo limpo sem justiça, mas também não existe objectividade perfeita. O futebol é uma metáfora do conflito humano na qual está presente a mentalidade dos praticantes, daí que haja diferentes estilos de jogo que de certa forma reproduzem as qualidades e defeitos dos povos. Uns são mais organizados, outros menos; há quem goste do jogo vistoso, quem prefira o jogo prático; há os rápidos e os lentos; os possantes e os débeis; os fortes e os fracos. Enfim, censurar a queda na área tem a ver com a visão dos que ganham quase sempre e não precisam da força da gravidade para dar um empurrão até à vitória. A latitude interpretativa estende-se às nacionalidades dos árbitros. Os ingleses não gostam de quedas, o que não incomodará outros, já que esta táctica foi desenvolvida por jogadores franzinos, habituados a perder, estende-se portanto a nações perdedoras.

 

A queda na grande área funciona como o excesso de retórica dos deprimidos e dos manhosos. A estratégia de vitimização serve para comover a opinião pública, mas em certos países esta não se convence com facilidade: o exagero teatral transforma-se em caricatura quando o protagonista começa a acreditar nas próprias palavras. Um disparate pegado que compromete a honestidade do jogo.
No plano da nossa existência doméstica, os comentadores que usam esta táctica estiveram em silêncio durante Agosto e a vida ficou mais normal por um bocado. Entretanto, sem que alguém se interrogue sobre o seu distanciamento em relação aos factos, regressaram às colunas nos jornais, televisões e blogues e colocam-nos de novo num insuportável vale de lágrimas.
O efeito destas farsas acaba por ser sempre o mesmo: as pessoas desinteressam-se, tornam-se cínicas, acham que é tudo uma palhaçada.


 

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publicado às 19:10




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