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Não deixem entrar o povo

por Luís Naves, em 10.09.13

A decisão das televisões de não procederem à cobertura noticiosa das eleições é, a meu ver, mais um sinal de desorientação das elites de um País que, como dizia o velho romano, não se governa e não se sabe governar. A exigência de estrita igualdade no tratamento das diferentes candidaturas retira a gestão mediática do domínio natural, que é o das decisões editoriais. Isto representa um empobrecimento da democracia.
Sou crítico da comunicação social que consumo e julgo que muitas escolhas editoriais têm estado erradas, mas esta novidade cria um precedente perigoso, empobrece o debate político e tem o efeito contrário ao desejado, prejudicando os candidatos que não possuam máquina propagandística. Qualquer desafio aos políticos instalados ficará, assim, mais difícil.
O critério editorial estabeleceria a hierarquia de notícias e escolheria em cada combate os candidatos com mais hipóteses de vitória. Também faria a selecção das autarquias, numa luta onde não existe igualdade. Os candidatos que têm vantagem nesta fase, por exemplo, os que tentam a reeleição, seriam forçados a intensificar as suas campanhas, pois haveria desafios visíveis. É para isso que servem as campanhas, para expor a diferença (também os erros), para mostrar o carácter dos concorrentes, para que estes digam o que pensam dos problemas.


Mas os donos da democracia têm medo dos eleitores. Eles acham que os votantes são crianças indefesas e incapazes de pensar pela sua cabeça. Julgam que os munícipes desconhecem as questões da sua comunidade e, por isso, seria perigoso expô-los a noticiários. A exigência da estrita igualdade de tratamento de todos os candidatos (por mais folclóricos e minoritários que estes sejam) também menoriza a comunicação social, que não está a protestar o suficiente.
No fundo, este caso não surpreende. Os donos da democracia não querem que as pessoas pensem. Os nossos debates andam repletos de retórica e têm geralmente um conteúdo pobre, mas ninguém questiona esse empobrecimento. Se quiser ser eleito, um candidato autárquico tem de falar de assuntos concretos mas, assim, fica dispensado da maçada.


Estivemos dois meses a discutir a transumância dos dinossauros, mas ainda não vi debates sérias sobre o poder autárquico, os seus êxitos e fracassos em 40 anos de democracia. Antes, tinha assistido à desmiolada histeria sobre a extinção de freguesias, mas parece que entretanto essa catástrofe deixou de ser um problema. Há quem se divirta com vídeos ridículos e hinos pimba e os candidatos de meia branca, mas julgo que faz tudo parte do mesmo fenómeno. As elites nacionais não gostam do povo, este exprime-se nas autárquicas, portanto, vamos passar por isto sem fazer tanto barulho. Sobretudo, não deixem entrar o povo na política, que a política é coisa para doutores.

publicado às 19:55




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